EUA não resolverão crise sozinhos

Novo governo americano terá papel decisivo, mas seu sucesso depende de uma coalizão global

Henry Kissinger *, Global Viewpoint, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

A nova administração americana se prepara para assumir num momento de grave crise financeira internacional. Embora possa soar estranho, pode-se dizer que a própria natureza desencontrada do sistema cria uma oportunidade única para a diplomacia criativa.Essa oportunidade envolve uma aparente contradição. Em um nível, o colapso financeiro representa um grande golpe na posição dos EUA. Embora os julgamentos políticos americanos tenham sido com frequência controvertidos, a receita americana para uma ordem financeira mundial não foi, em geral, contestada. Agora, existe uma desilusão generalizada com a forma como os EUA estão gerenciando isso.Ao mesmo tempo, a magnitude da catástrofe torna impossível para o restante do mundo proteger-se atrás do predomínio americano ou de falhas americanas. Cada país terá de reavaliar sua própria contribuição para a crise existente. Cada um procurará se tornar independente, no maior grau possível, das condições que produziram o colapso. Ao mesmo tempo, cada um será obrigado a encarar a realidade de que seus dilemas só poderão ser resolvidos com uma ação comum. Cada um terá que redefinir suas prioridades nacionais. Só surgirá uma ordem internacional se um sistema de prioridades compatíveis tomar forma. E essa ordem se esfacelará desastrosamente se as várias prioridades não puderem ser conciliadas. A alternativa a uma nova ordem internacional é, portanto, o caos.Há uma relação estreita entre uma crise que é financeira e outra que é política, justamente porque, durante o período de exuberância econômica, abriu-se uma lacuna entre as organizações econômicas e políticas do mundo. A economia foi globalizada. Suas instituições têm um alcance global e operaram por máximas que supunham um mercado autorregulador.PROTECIONISMOO colapso financeiro expôs a miragem. Ele deixou evidente a ausência de instituições globais para amortecer o choque e inverter a tendência. Inevitavelmente, quando o público afetado recorreu a suas instituições políticas nacionais, essas foram impelidas, principalmente pela política doméstica, sem considerações de ordem mundial. Cada grande país ficou tentado a resolver seus problemas imediatos por conta própria, adiando uma ação comum para um momento posterior, menos marcado pela crise. Surgiram os chamados pacotes de resgate calcados numa base nacional fragmentada. Em geral, eles substituíram o crédito governamental, que parecia ilimitado, pelo crédito doméstico, que produziu o colapso - sem conseguir, até agora, mais do que conter o pânico incipiente. A ordem internacional não virá, seja no campo político, seja no econômico, até que surjam regras gerais pelas quais os países possam se orientar.No fim das contas, os sistemas político e econômico só podem ser harmonizados de uma das duas maneiras: criando um sistema regulatório político internacional com o mesmo alcance do mundo econômico; ou encolhendo as unidades econômicas para um tamanho manejável pelas estruturas políticas existentes, o que provavelmente conduzirá a um novo mercantilismo, talvez, de unidades regionais. Um novo acordo global do tipo Bretton Woods é, de longe, o resultado preferível.O papel dos EUA nesse empreendimento será decisivo. Paradoxalmente, a influência americana será grande em proporção com a modéstia de nossa conduta. Precisamos modificar a rigidez que caracterizou muitas atitudes americanas, em especial desde o colapso da União Soviética. Esse acontecimento seminal e o período subsequente de crescimento global quase ininterrupto induziram muitos a igualar a ordem mundial a uma aceitação dos desígnios americanos, incluindo nossas preferências domésticas. O resultado foi um certo unilateralismo inerente - a queixa padrão de críticos europeus - ou um tipo insistente de consulta pela qual nações eram convidadas a comprovar sua aptidão para entrar no sistema internacional conformando-se a receitas americanas.Nunca, desde a posse do presidente John Kennedy, há meio século, uma nova administração assumiu em meio a expectativas tão grandes. É um fato sem precedente que todos os principais atores no cenário mundial estejam confessando seu desejo de empreender as transformações impostas a eles pela crise mundial em colaboração com os EUA.O impacto extraordinário do presidente eleito sobre a imaginação da humanidade é um elemento importante na modelagem de uma nova ordem mundial. Mas isso define uma oportunidade, não uma política. O desafio final é modelar a preocupação comum da maioria dos países - incluindo entre eles os mais importantes - com respeito a crise econômica, junto com o medo geral do terrorismo islâmico, numa estratégia comum reforçada pela percepção de que as novas questões como proliferação nuclear, energia e mudança climática não permitem nenhuma solução nacional ou regional.A nova administração não cometeria erro pior que se acomodar à sua popularidade inicial. O estado de espírito cooperativo do momento precisa ser canalizado para uma grande estratégia que vá além das controvérsias do passado recente.A acusação de unilateralismo americano tem alguma base real. Ela também se tornou um álibi para uma diferença-chave entre os EUA e a Europa. Segundo o conceito europeu, os EUA são um Estado nacional capaz de pedir sacrifícios a seu povo pensando no futuro. De outro lado, está a Europa, presa ao dilema de abandonar sua estrutura nacional e um sucesso político ainda a ser atingido, e com dificuldades para postergar benefícios presentes. Daí sua concentração no "poder brando" (soft power). A maioria das controvérsias atlânticas tem sido substantiva e só marginalmente processual. Haveria conflito por mais intensas que fossem as consultas. A parceria atlântica dependerá mais de políticas comuns que de procedimentos acordados.O papel da China numa nova ordem mundial é igualmente crucial. Uma relação que começou em ambos os lados, basicamente como um desígnio estratégico para limitar um adversário comum, evoluiu, ao longo das décadas, para um pilar do sistema internacional. A China tornou possível a extravagância do consumo americano ao comprar a dívida dos EUA, que ajudaram a modernização e a reforma da economia chinesa ao abrir seus mercados para produtos chineses.COOPERAÇÃOAmbos os lados superestimaram a durabilidade desse arranjo. Mas enquanto durou, ele sustentou um crescimento global sem precedente. Ele mitigou também os receios sobre o papel da China, na medida em que Pequim emergia como superpotência. Formou-se um consenso, segundo o qual relações antagônicas entre esses pilares do sistema internacional destruiriam boa parte do que fora conseguido e não beneficiariam ninguém. Essa convicção precisa ser preservada e fortalecida.Os dois lados do Pacífico precisam cooperar para enfrentar a crise financeira. Agora que o colapso global devastou mercados de destino para as exportação chinesas, a China está enfatizando o desenvolvimento de infraestrutura e o consumo doméstico. Não será fácil mudar de marcha rapidamente, e a taxa de crescimento chinesa poderá cair abaixo dos 7,5% que os especialistas sempre definiram como a linha que delimita a estabilidade política. Os EUA precisam da cooperação chinesa para enfrentar seu desequilíbrio em conta corrente e impedir que seus déficits explosivos provoquem uma inflação devastadora.O tipo de ordem econômica mundial que surgirá vai depender em muito de como China e EUA se entenderão nos próximos anos. Uma China frustrada poderá adotar outra visão de uma estrutura asiática regional exclusiva, para a qual o núcleo já existe no conceito da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês).Ao mesmo tempo, se o protecionismo aumentar nos EUA ou se a China vier a ser vista como uma adversária no longo prazo, uma profecia autoalimentada poderá frustrar as perspectivas de uma ordem global. Essa volta ao mercantilismo e à diplomacia do século 19 dividiria o mundo em unidades regionais competidoras com consequências perigosas no longo prazo.A relação sino-americana precisa ser levada a um novo nível. A crise existente só poderá ser superada pelo desenvolvimento de um senso de objetivo comum. Questões como proliferação de armas de destruição em massa, energia e meio ambiente requerem um fortalecimento dos laços políticos entre a China e os EUA. Essa geração de líderes tem a oportunidade de moldar relações transpacíficas para um destino comum, como foi feito com as relações transatlânticas no início do período pós-guerra - exceto que os desafios são hoje mais políticos e econômicos do que militares.Essa visão precisa abarcar também países como Japão, Coreia do Sul, Índia, Indonésia, Austrália e Nova Zelândia, seja como parte de estruturas transpacíficas, seja em acordos regionais para lidar com temas especiais, como energia, proliferação e meio ambiente.A complexidade do mundo emergente requer dos EUA uma atitude mais histórica que a insistência de que cada problema tem uma solução final passível de expressão em programas com limites de tempo específicos, com frequência adaptados ao nosso processo político. Precisamos aprender a operar dentro do atingível e estar preparados para perseguir objetivos finais pela acumulação de nuances. Uma ordem internacional só pode ser permanente se seus participantes tiverem participação não só na sua construção, mas também na sua garantia. Portanto, os EUA e seus parceiros têm uma oportunidade única para transformar um momento de crise numa visão de esperança.Quem é:Henry A. Kissinger Foi secretário de Estado americano de 1973 a 1977, desempenhando, ao mesmo tempo, a função de assistente presidencial para Segurança Nacional, de 1969 a 1975 Recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1973 pelo fim da Guerra do Vietnã, mas foi alvo de críticas por seu apoio a ditaduras militares latino-americanas nos anos 60 e 70

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