EUA não têm escolha a não ser negociar com os religiosos

Análise: Jim Michaels /USA Today

É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2012 | 03h08

As vitórias conquistadas pelos partidos islâmicos no Egito e outros países obrigaram os EUA a embarcar numa estratégia nunca antes testada, que consiste em negociar com grupos historicamente vistos como hostis aos interesses americanos, dizem os analistas. "Do ponto de vista dos EUA, não há alternativa senão negociar com a Irmandade Muçulmana", disse Shadi Hamid, do Brookings Doha Center. "Não vejo como evitar isso." No mais recente triunfo dos grupos islâmicos, Mohammed Morsi, da Irmandade Muçulmana, foi eleito presidente do Egito no mês passado.

Os grupos islâmicos também emergiram com força na Tunísia, cujo governo é comandado pelo partido islâmico Ennahada, e na Líbia.

Por mais que os EUA mantenham boas relações com os regimes nos quais prevalece o Islã político, como a Arábia Saudita, sua política em relação aos grupos islâmicos que vêm ocupando os antigos regimes ou obrigando-os a mudar está evoluindo.

"Houve uma mudança de maré na política americana em relação à Irmandade", afirmou James Phillips, da Heritage Foundation. Os analistas estão divididos quanto ao risco da política do governo Barack Obama produzir resultados adversos, indagando também até que ponto ela consiste numa abordagem pragmática para as rápidas mudanças nos eventos no mundo árabe. Boa parte dessa análise depende de como a Irmandade Muçulmana é vista: como organização pragmática cujos líderes farão concessões depois de chegarem ao poder ou como um grupo de extremistas que modifica sua retórica para ocultar suas verdadeiras intenções.

A Irmandade é um movimento que apoia o Islã político e se opõe aos ideais ocidentais de governo - e dela nascem movimentos islâmicos que vão dos moderados (na Jordânia) ao jihadistas violentos, como o Hamas, em Gaza. Os membros da Irmandade estão formando partidos políticos para disputar o poder conforme a Primavera Árabe leva à queda de antigos governantes e pressiona outros a aceitar aberturas democráticas. De acordo com os analistas, o governo americano talvez tenha a sensação de não haver muita escolha senão lidar com os líderes da Irmandade eleitos no Egito, país que durante anos foi aliado dos EUA - durante o governo do ditador Hosni Mubarak.

O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, disse que o governo Obama tinha "ampliado o envolvimento" com os partidos emergentes no Egito. Segundo Carney, a Casa Branca vai julgar tais líderes com base em seus atos e não em suas filiações religiosas. Alguns questionam as vantagens do envolvimento, especialmente em temas como a segurança de Israel e o terrorismo.

A liderança da Irmandade disse que respeita os tratados internacionais assinados pelo Egito - entre eles o tratado de paz com Israel -, mas alguns dos líderes da Irmandade disseram que o tratado deveria ser revisto.

"No longo prazo, eles são hostis à coexistência pacífica com Israel", disse Phillips. Não se sabe ao certo até que ponto um governo da Irmandade no Egito manteria a cooperação com os EUA no combate ao terrorismo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.