EUA negam pressão e perseguição a Assange

Washington diz que não pode interferir em assunto de Equador, Grã-Bretanha e Suécia

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2012 | 03h03

Washington rejeitou ontem a acusação do governo equatoriano de "perseguição" a Julian Assange e preferiu não se posicionar sobre a decisão de Quito de conceder asilo político ao fundador do WikiLeaks. O governo americano também se calou a respeito da ameaça britânica de invadir a Embaixada do Equador em Londres para prendê-lo e extraditá-lo para a Suécia.

Passados dois anos do vazamento de documentos diplomáticos dos EUA pelo WikiLeaks, Assange ainda não foi processado pela Justiça americana. O soldado Bradley Manning, que teria passado os arquivos confidenciais a Assange, está preso e é acusado, em um tribunal militar, de conspiração e traição com base na Lei de Espionagem.

"Com respeito à acusação de que os EUA tentaram persegui-lo, eu rejeito isso completamente", afirmou Victoria Nuland, porta-voz do Departamento de Estado. "Esse é um assunto dos países envolvidos e nós não planejamos interferir."

Às pressas, a Organização dos Estados Americanas (OEA) convocou um debate ontem sobre a ameaça britânica ao Equador - na quarta-feira, a chancelaria equatoriana divulgou uma carta britânica que advertia para a possibilidade de policiais entrarem na embaixada em Londres para prender Assange. Segundo a embaixadora equatoriana na OEA, María Isabel Salvador, isso violaria normas internacionais.

"Se o governo britânico pensou em tomar alguma atitude como a assinalada, deveria saber que as consequências são gravíssimas", afirmou o embaixador brasileiro, Breno Dias da Costa. Os EUA ficaram isolados. Seu embaixador na organização, William McGlynn, disse que o tema não é adequado para ser discutido na OEA e afirmou que não vê "propósito útil" em uma reunião de chanceleres, que deve sair na próxima semana.

"Esse tema não pode ficar no ar e tem de haver uma resolução (da OEA)", rebateu a embaixadora equatoriana. A União das Nações Sul-Americanas (Unasul) convocou chanceleres para discutir o caso domingo em Guayaquil, no Equador. A Aliança Bolivariana das Américas (Alba) fará a sua amanhã, na mesma cidade.

O inquérito do Departamento de Justiça dos EUA contra Assange não foi concluído em razão de duas dificuldades para atribuir a ele um crime relacionado à divulgação dos documentos confidenciais. O constitucionalista Floyd Abrams, advogado no caso Papéis do Pentágono, nos 70, explicou ao Estado que uma das barreiras está no fato de Assange ser estrangeiro. Outra está na linguagem ampla da Lei de Espionagem, adotada em 1918. Sua aplicação contrariaria o princípio de defesa da liberdade de expressão.

"Pessoalmente, sou crítico do comportamento de Assange, que foi imprudente e colocou muita gente em perigo ao divulgar documentos militares e diplomáticos altamente confidenciais", disse Abrams. "No entanto, espero que ele não seja processado, porque isso atingiria jornalistas e meios de comunicação responsáveis pela publicação de material confidencial."

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