EUA: negro morto pelas costas por policial branco é sepultado

Walter Scott, o motorista negro que foi morto pelas costas ao tentar fugir de um policial branco depois de ser parado por uma irregularidade de trânsito, foi sepultado neste sábado e lembrado como um homem gentil que acabou sendo vitimado pelo racismo.

AE-AP, Estadão Conteúdo

11 de abril de 2015 | 17h53

Centenas de pessoas superlotaram o Centro de Ministérios Cristãos Word, em Summerville (Carolina do Sul) para um serviço religioso de duas horas em memória de Scott, um veterano da Guarda Costeira dos EUA e pai de quatro filhos cuja morte provocou manifestações de protesto em todo o país por ser mais um caso de policial branco que matou um negro desarmado em circunstâncias duvidosas.

O reverendo George Hamilton, um dos ministros do Centro Word, disse durante o serviço religioso que disse que a morte de Scott "foi um ato motivado pelo racismo descarado" e que o policial que o baleou, Michael Slager, era "uma desgraça para o Departamento de Polícia de North Charleston". Ele ressalvou que "não vamos condenar toda a comunidade policial pelos atos de um racista".

A família de Scott chegou para o serviço religioso em três limusines pretas, seguidas por vários outros carros. Algumas das pessoas que se alinharam do lado de fora fizeram fotos e vídeos quando o caixão de Scott foi retirado do rabecão e levado para dentro. Os organizadores do memorial posicionaram dezenas de cadeiras no vestíbulo da igreja e conduziram os convidados selecionados para dentro. Muitos dos que estavam na fila, sob chuva, não conseguiram entrar.

"Sabe, Walter tocou as vidas de muita gente. Ele era muito amistoso com todo mundo. Não acho que ele tenha tido qualquer inimigo. Por isso, há muita gente aqui, apenas para prestar homenagem a ele e ao seu legado", afirmou Tyrone Johnson, morador de Charlotte que disse ter sido colega de Scott e de um de seus irmãos na escola secundária.

A polícia inicialmente disse que Scott foi morto a tiros no dia 4 de abril depois de lutar com Slager, que teria sido obrigado a usar um taser (arma de choques elétricos). Mas apareceu um vídeo feito por um cinegrafista amador que mostra Scott correndo e Slager disparando oito tiros em suas costas. O policial foi demitido e acusado de assassinato.

Naquele dia, Scott estava dirigindo um Mercedes 1991 que acabara de comprado de um vizinho. Segundo seu irmão, Rodney Scott, ele estava indo para uma loja de autopeças ao ser detido - por ter uma lanterna traseira quebrada, segundo a polícia. Um vídeo feito pela câmera do painel do carro da polícia mostra Slager pedindo a Scott que entregasse a certeira de motorista e o documento de registro do veículo; em seguida, o policial volta para seu próprio carro, enquanto Scott sai correndo.

Os familiares de Scott disseram acreditar que ele fugiu por temor de ter de voltar à prisão por estar devendo pensão alimentícia à ex-mulher.

Ao ser morto, Scott, que trabalhava como operador de empilhadeira em um armazém, devia mais de US$ 18 mil em pensão alimentícia e despesas judiciais, de acordo com documentos do Condado de Charleston. Seu último pagamento de pensão foi feito em 2012 e um tribunal emitiu uma ordem de prisão contra ele no começo de 2013. Desde 2008, Scott esteve na prisão em três ocasiões, pelo mesmo motivo.

"A missão dele era evitar a polícia tanto quanto possível", disse Rodney Scott. Segundo ele, seu irmão fazia um caminho mais longo ao dirigir para a casa de seus pais, porque a rota mais direta era mais policiada. Rodney também disse que o irmão tomava cuidado para que seu carro estivesse de acordo com a regulamentação, inclusive as lanternas, para evitar ser detido.

Entre os participantes do ato religioso deste sábado estavam dois congressistas negros da Carolina do Sul, o senador Tim Scott, do Partido Republicano, e o deputado Jim Clyburn, do Partido Democrata. Depois do serviço, Clyburn disse esperar que a morte de Scott sirva de alerta para o estado precário das relações interraciais nos EUA. "Acho que isso é um catalisador que levará as pessoas a encararem o fato de que temos problemas neste país. Acredito que isso expôs algo que já estava aí", afirmou o deputado.

Ele acrescentou que não faz sentido que Scott tenha tido de ser preso por ter deixado de pagar pensão alimentícia. A prisão o fez perder um emprego no qual o salário era de US$ 35 mil por ano, o que o impossibilitou de fazer qualquer pagamento.

Uma semana antes de ser morto, Scott, duas vezes divorciado, havia pedido sua namorada, Charlotte Jones, em casamento. Os familiares disseram que apesar da dificuldade em fazer os pagamentos da pensão alimentícia, ele se mantinha próximo de seus quatro filhos - uma filha de 24 anos e três filhos de 22, 20 e 16 anos. Fonte: Associated Press.

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