EUA optam por 'saída iemenita' contra Assad

Após reiterar que Síria 'não pode ser democrática' até que ditador se vá, Hillary cita estratégia utilizada no Iêmen como melhor forma de transição

GUSTAVO CHACRA , CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2012 | 03h04

Os EUA querem o fim do regime de Bashar Assad, mas, pelo menos oficialmente, descartam a possibilidade de uma intervenção e até mesmo a de armar a oposição. Em vez de usar a estratégia da Otan na Líbia como modelo, americanos olham cada vez mais para o Iêmen como a alternativa para resolver a crise em Damasco.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, voltou a colocar a saída de Assad como precondição a uma mudança na Síria. "A Síria não pode ser - e não será - pacífica, estável e, especialmente, democrática, até que Assad se vá", afirmou. Hillary, porém, citou a experiência com o ditador iemenita Ali Abdullah Saleh como um possível exemplo para a crise síria.

"Há uma série de exemplos para a transição na Síria e eu indicaria o mais recente, no Iêmen. Demorou mais de um ano. Foi preciso enorme esforço internacional. No fim, o presidente Saleh deixou o poder porque as pressões, sanções e isolamento eram muito fortes. Depois de conflitos, mortes e ameaça de guerra civil, ele deixou o poder. Agora há um novo presidente e aparentemente uma consolidação na estabilidade social e na segurança no Iêmen", disse.

Analistas questionam dois pontos da alternativa iemenita para a Síria. Primeiro, a segurança em Sanaa não é tão forte como disse Hillary. No mês passado, um atentado matou 90 pessoas no país, onde também se viu o retorno dos levantes dos houthis no norte, de movimentos separatistas no sul e o crescimento da Al-Qaeda na Península Arábica.

"Recentes episódios como a tomada do aeroporto por forças leais a Saleh são um sintoma da severa degradação da estabilidade política e da segurança no Iêmen, uma situação que deve persistir por anos", avalia a consultoria de risco político Eurasia.

Em segundo lugar, no caso do Iêmen, a maior força de suporte historicamente de Saleh, a Arábia Saudita, apoiou a transferência de poder.

A Rússia, que serve de apoio a Assad, ainda mantém cautela, apesar de dar indicações de que pode se abrir a essa alternativa - de acordo com declaração do vice-chanceler, Mikhail Bogdanov. "A implementação da saída iemenita para resolver o conflito é possível se os próprios sírios concordarem", disse.

Ainda assim, nos corredores da diplomacia americana há enorme ceticismo em relação ao futuro da Síria. O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, disse que uma intervenção causaria "caos e carnificina". O Departamento de Estado afirmou que os EUA descartam a possibilidade armar a oposição.

De acordo com o porta-voz do Departamento de Estado, Mark Toner, os EUA "estão provendo apenas assistência não letal à oposição", incluindo aparelhos de comunicação.

Em artigo na revista Foreign Policy, o professor da Universidade de Oklahoma e mais renomado especialista em Síria dos EUA, Joshua Landis, disse que Washington, ao lado da Europa e dos aliados árabes, "está tentando mudar o regime sírio por meio de uma guerra civil", buscando alterar o balanço das forças em favor do lado opositor.

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