EUA param, pacto nuclear avança

Enquanto Congresso americano se preocupava com orçamento, diplomatas trabalharam sem pressão e negociação evoluiu

Joshua Keating, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2013 | 02h14

O s holofotes da mídia, às vezes, podem ser benéficos para as negociações internacionais. Foi sugerido, por exemplo, que a cobertura da imprensa exerceu pressão para as partes firmarem um acordo durante as conversações de paz da Irlanda do Norte. Mas, em geral, os diplomatas preferem trabalhar fora dos holofotes, sem antecipações de analistas e políticos.

Um analista dos Acordos de Oslo argumenta que o fato de eles terem sido firmados em segredo foi um fator importante para seu sucesso. "Abrir o processo para a mídia, provavelmente, teria congelado as posições das partes em pontos que elas haviam se comprometido publicamente", escreveu Herbert Kelman, psicólogo de Harvard.

Isso também pode ser válido quando as conversações não estão sendo conduzidas propriamente em segredo, mas estão sendo simplesmente ignoradas pela maioria do público. Como escrevi em 2010, as conversações relativamente obscuras da ONU sobre biodiversidade acabaram conseguindo muito mais do que as muito comentadas cúpulas do clima recentes de Copenhague e de Cancún.

Graças à paralisia do governo americano e à sombra dos calotes, o ciclo noticioso desta semana se concentrou compreensivelmente em assuntos domésticos.

Perdeu-se, de certo modo, em tudo isso, o que é de fato uma grande matéria de política externa: o reinício das conversações nucleares com o Irã em Genebra. Ainda é cedo para dizer, mas apesar de ninguém estar prestando atenção, as negociações têm avançado surpreendentemente bem. Essas duas coisas devem estar relacionadas.

O chanceler iraniano, Javad Zarif, apresentou uma proposta em inglês, na terça-feira, ao chamado "P5+1" - os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China) mais a Alemanha - pela qual o programa nuclear do Irã seria limitado e novas inspeções seriam permitidas em troca do direito de enriquecer uma quantidade de urânio em solo iraniano e do levantamento de sanções.

"Pela primeira vez, tivemos discussões técnicas muito detalhadas", disse uma autoridade americana ao jornal New York Times. Em um desdobramento incomum, as delegações iraniana e americana se reuniram em separado à margem da cúpula. Zarif disse que novas negociações serão realizadas dentro de algumas semanas.

Isso tudo ainda poderá se desmanchar amanhã, mas é mais progresso do que vimos em muito tempo. Parte disso pode ser o resultado do novo tom estabelecido pelo presidente iraniano, Hassan Rohani, mas os Estados Unidos também baixaram um pouco a retórica.

A Casa Branca sugeriu que está pronta para agir "rapidamente" para levantar algumas sanções se o Irã apresentar uma proposta crível. O analista Trita Parsi também suspeita, com base em comentários recentes do secretário de Estado dos EUA, John Kerry, que "o governo Obama esteja indicando que poderá aceitar um enriquecimento de urânio limitado no Irã sob rígido monitoramento".

Paralisia. Nenhuma dessas ideias - levantamento de sanções ou permitir algum enriquecimento de urânio em solo iraniano - é popular no Congresso. Como reportam Yochi Dreazen e John Hudson, na revista Foreign Policy, alguns congressistas - democratas, em particular - já estão sinalizando oposição a um acordo envolvendo o levantamento de sanções.

No entanto, o Congresso também esteve com sua atenção concentrada em outras coisas. Como disse à Foreign Policy o deputado David Price, democrata da Carolina do Norte, "estamos numa situação bizarra no Congresso com a paralisia e todo o oxigênio está indo para essa luta".

É fácil imaginar um cenário alternativo em que o governo não está paralisado, as conversações com o Irã são notícia de primeira página e principal foco de atenção do Congresso.

Ainda pode ser difícil para a Casa Branca convencer o Congresso a levantar as sanções, mas deve ter ajudado a principal negociadora, Wendy Sherman, o fato de o Congresso não ter estabelecido os termos desse debate antes mesmo de ela ter se sentado com os iranianos.

Ninguém deseja que a paralisia continue, mas, provavelmente, não faria mal se a atenção do Congresso continuasse focada em outras coisas enquanto as conversações avançam.

Evidentemente, a principal dúvida que paira sobre as negociações é até que ponto o Irã está sendo sério sobre firmar um acordo. Será que os linhas-duras do governo iraniano - mais especialmente, o líder supremo aiatolá Ali Khamenei - estarão dispostos a aceitar quaisquer termos que sejam aceitáveis para potências ocidentais?

A mídia iraniana não jogou um papel propriamente construtivo durante os preparativos para Genebra. Talvez se houvesse uma paralisia do governo, em Teerã, nós pudéssemos, de fato, estar chegando a algum lugar.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Joshua Keating é jornalista.

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