EUA parecem querer mudar governo de Israel

Apelos de Washington pelo congelamento de assentamentos da Cisjordânia acabam por debilitar a coalizão de direita de Netanyahu

AARON DAVID MILLER, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2010 | 00h00

Mudança de regime é, em geral, um termo e uma tática reservados aos inimigos dos Estados Unidos. Mas acaso o governo Barack Obama estaria desenvolvendo uma versão mais sutil para um dos principais aliados dos EUA, Israel? Enquanto prosseguem as conturbadas discussões entre Israel e os EUA a respeito dos assentamentos e de Jerusalém, devemos nos perguntar se o presidente Obama está querendo mudar o comportamento do primeiro-ministro de Israel, Binyamin "Bibi" Netanyahu, ou mesmo trocar o chefe de governo.

 

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A ausência de uma estratégia clara para impulsionar as negociações de paz palestino-israelense, evidenciada pelos reiterados apelos do governo para um congelamento dos assentamentos - que nem Netanyahu nem sua coalizão de direita liderada pelo Likud podem aceitar - provoca a indagação: Washington estará interessado em um novo governo israelense mais flexível? Não seria a primeira vez que os EUA se imiscuem na política israelense. Na realidade, a ideia de que os EUA não interferem na política israelense é tão absurda quanto a afirmação de que os israelenses não se imiscuem na dos EUA. Em pelo menos duas ocasiões, que conheci muito bem, os EUA não só torceram por seus candidatos preferidos (sempre do lado trabalhista), como adotaram medidas para influir na política israelense, e até mesmo nos resultados eleitorais.

Em 1991, o presidente George H. Bush e o secretário de Estado James Baker negaram ao primeiro-ministro Yitzhak Shamir garantias de empréstimos para a habitação por causa de sua obstinada política em relação aos assentamentos - decisão que contribuiu diretamente para sua derrota para Yitzhak Rabin, que, um ano mais tarde, obteve essas mesmas garantias.

E em outra intervenção mais direta, o presidente Bill Clinton, no esforço para apoiar o então primeiro-ministro Shimon Peres, orquestrou uma reunião de cúpula de conciliadores do Oriente Médio em Sharm el-Sheikh e uma visita de representantes de alto escalão a Israel, em março de 1996. Clinton não só queria demonstrar que os EUA apoiavam Israel diante do terror do Hamas, como também apoiavam a campanha do moderado Peres contra Netanyahu. Peres perdeu as eleições por uma margem mínima.

O que motivaria Obama a imiscuir-se agora, com o objetivo de minar a posição de Netanyahu, e como faria isto? Tanto o chefe de gabinete da Casa Branca, Rahm Emanuel, quanto a secretária americana de Estado, Hillary Clinton, viram o filme de Bibi antes, durante seu primeiro mandato como primeiro-ministro, de 1996 a 1999, quando Emanuel era assessor de Clinton e Hillary era a primeira-dama. Eles não gostaram da primeira vez, e não querem uma reedição.

Há uma opinião bastante difundida - quase uma convicção em Washington, neste momento - de que Netanyahu não será capaz de concluir um acordo e palestinos e árabes jamais confiarão nele. Então, para que gastar meses de esforços começando um processo com Netanyahu que não será possível concluir? O remédio, se o objetivo for a mudança de regime, é fincar o pé na questão dos assentamentos, criar condições para iniciar negociações razoáveis, mas que a coalizão de Netanyahu não pode aceitar, e sugerir, de maneira não tão sutil, que Netanyahu não pode ser um parceiro de verdade em um processo de paz.

O recente vazamento da informação de que o governo estuda a possibilidade de apresentar seu próprio plano de paz prejudicará ainda mais qualquer chance de parceira.

Mais cedo ou mais tarde, acredita-se, ficará claro em Israel que o premiê não consegue administrar o relacionamento fundamental para a nação e está colocando os assentamentos acima da segurança israelense num momento em que a ameaça iraniana é muito grande, e fortes vínculos com os EUA são mais importantes do que nunca. Os EUA esperam aparentemente um aumento das pressões públicas e políticas, obrigando Netanyahu a ampliar seu governo ou mesmo provocar uma mudança no topo.

O único problema com esta linha de raciocínio é que as probabilidades de sucesso seriam mínimas ou mesmo inexistentes. A pressão poderia provocar uma forte reação inversa, fazendo com que Israel continue recalcitrante e levando a uma situação política ainda mais confusa.

Salvo por nossa capacidade extremamente questionável de nos fingirmos de surdos a respeito da política de um aliado, não está totalmente claro que um novo governo ou um novo líder israelense resolveria tudo.

O problema de Israel é apenas um na miríade de problemas que emperram a realização de importantes negociações e de uma paz com os palestinos.

Grandes falhas no consenso quanto ao que é preciso fazer em questões fundamentais, como Jerusalém, são um grande obstáculo, assim como as divisões entre Hamas e Fatah do lado palestino, e a situação regional que envolve Hezbollah, Hamas e Irã, e não cria um ambiente propício para grandes decisões.

Mais precisamente, a história do processo de paz do lado israelense é uma história de falcões mudados e não de pombas arrebatadas. Os primeiros-ministros Menachem Begin (paz entre Egito e Israel), Rabin (Oslo), Ariel Sharon (separação de Gaza) e o próprio Netanyahu (o primeiro premiê do Likud a retirar-se de um território da Cisjordânia) eram líderes de direita e de centro-direita, que evidentemente não começaram como conciliadores. Na realidade, em seu governo, Netanyahu é o centro.

Ocorre que, em 1998, o governo de Netanyahu caiu não porque o governo Clinton tramou contra ele, mas porque havia cooperado com ele e com Yasser Arafat durante quase um ano para chegar ao acordo de Wye River.

Sua coalizão desmoronou em dezembro porque não podia aceitar o processo de paz.

O acordo de Wye River nunca foi aplicado, mas levou o governo israelense a um momento de decisão fundamental e criou um importante precedente: o Likud pôde apoiar a retirada da Cisjordânia. E como todos os outros passos positivos no processo de paz no Oriente Médio, exigiu aquilo de que o governo Obama precisa agora - uma estratégia.

Se você colaborar, e não contrariar o atual governo israelense e os palestinos, verá até onde será possível ir. Então, se você chegar a um impasse ou a um acordo, deixe que o fluxo natural da política israelense (e da política palestina) siga o seu curso.

Isso seria melhor do que o objetivo que o governo parece ter como alvo agora: uma luta sem possibilidade de vitória a respeito dos assentamentos, a ameaça de apresentar seu próprio plano de paz - ou pior: imiscuir-se na política de Israel. Esta estratégia só desperdiçará tempo e energias que os EUA não têm, e correrá o risco da derrota em um momento em que Washington tenta proteger seus próprios interesses em uma complexa e turbulenta região de ódios. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É ESTUDIOSO DE POLÍTICA PÚBLICA NO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS, FOI ASSESSOR DE SECRETÁRIOS DE ESTADO DEMOCRATAS E REPUBLICANOS NAS NEGOCIAÇÕES ÁRABES-ISRAELENSES. SEU LIVRO "CAN AMERICA HAVE ANOTHER GREAT PRESIDENT?" (PODERÃO OS EUA TER OUTRO GRANDE PRESIDENTE?, EM TRADUÇÃO LIVRE) SERÁ PUBLICADO EM 2012

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