Jimin Lai/AFP
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EUA pedem ao Taleban que poupe sua embaixada na luta por Cabul

Americanos prometem ajudar futuros governos afegãos - mesmo um que inclua o grupo insurgente

Lara Jakes, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2021 | 20h58

WASHINGTON - Negociadores americanos estão tentando obter garantias do Taleban de que o grupo insurgente não atacará a embaixada dos Estados Unidos em Cabul se assumir o governo do país e quiser receber ajuda estrangeira, disseram três autoridades americanas ao jornal The New York Times.

O esforço, liderado por Zalmay Khalilzad, principal enviado americano em negociações com o Taleban, visa evitar o esvaziamento total da embaixada. Na quinta-feira, o Departamento de Estado anunciou que traria de volta para casa uma parte dos 1.400 americanos que trabalham no órgão.

A embaixada também pediu aos americanos que não estavam trabalhando para o governo dos EUA que deixassem o Afeganistão imediatamente em voos comerciais. O avanço do Taleban colocou embaixadas em Cabul em alerta máximo para uma onda de violência nos próximos meses, ou mesmo semanas, e forçou consulados e outras missões diplomáticas no país a fecharem.

Diplomatas americanos estão agora tentando determinar quando precisarão esvaziar totalmente a embaixada, caso o Taleban se mostre mais inclinado à destruição do que ao acordo.

“Deixe-me ser muito claro sobre isso: a embaixada permanece aberta”, disse Price nesta quinta-feira. “E planejamos continuar nosso trabalho diplomático no Afeganistão.”

Price disse que o ritmo acelerado do avanço do Taleban, levando ao aumento da violência e instabilidade em todo o Afeganistão, foi de "grande preocupação". “Portanto, dada a situação no terreno, este é um passo prudente”, disse ele.

Cinco atuais e ex-funcionários descreveram o clima dentro da embaixada como cada vez mais tenso e preocupado, e diplomatas na sede do Departamento de Estado em Washington notaram uma sensação de tristeza ligada à possibilidade de fechá-la, quase 20 anos depois que os fuzileiros navais dos EUA recuperaram o prédio incendiado em dezembro de 2001.

Várias pessoas reavivaram tristemente uma comparação que todos queriam evitar: a queda de Saigon em 1975, quando americanos que trabalhavam na Embaixada dos Estados Unidos foram resgatados de um telhado por helicóptero.

Os temores destacam uma situação que era inimaginável apenas alguns anos atrás, quando milhares de forças americanas estavam no Afeganistão e a Embaixada dos EUA em Cabul hospedava um dos maiores corpos diplomáticos do mundo.

Khalilzad espera convencer os líderes do Taleban de que a embaixada deve permanecer aberta e segura, se o grupo espera receber ajuda financeira americana e outras assistências como parte de um futuro governo afegão. A liderança do Taleban disse que o grupo quer ser visto como um administrador legítimo do país e está buscando relações com outras potências globais, incluindo Rússia e China, em parte para receber apoio econômico.

Duas autoridades confirmaram os esforços de Khalilzad, que não foram relatados anteriormente, sob a condição de anonimato. Uma terceira autoridade disse na quinta-feira que o Taleban perderia qualquer legitimidade - e, por sua vez, ajuda externa - se atacasse Cabul ou assumisse o governo do Afeganistão pela força.

Outros governos também estão alertando o Taleban de que o grupo não receberá ajuda se dominar o governo afegão à base da violência. Na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, disse que Berlim não daria ao Taleban nenhum apoio financeiro se eles governassem o Afeganistão com uma lei islâmica linha-dura.

Em outros cargos ao redor do mundo, diplomatas americanos disseram que estavam observando de perto a situação perigosa em Cabul para ver como o Departamento de Estado equilibraria seu compromisso de longa data de estabilizar o Afeganistão.

Ronald E. Neumann, que foi embaixador americano no Afeganistão de 2005 a 2007, descreveu um empurra-empurra entre o Pentágono e o Departamento de Estado em situações semelhantes.

“Se o exército for muito cedo, pode ser desnecessário e pode custar muito caro politicamente”, disse Neumann, que agora é presidente da Academia Americana de Diplomacia em Washington. “Se os diplomatas esperarem muito, os militares podem estar em risco. Portanto, não há lado certo garantido. ”

Outro alto funcionário dos EUA expressou alarme esta semana com a queda das capitais provinciais em todo o Afeganistão e disse que se outras cidades caírem, particularmente Mazar-i-Sharif, a única grande cidade do norte ainda sob controle do governo, a situação pode se desintegrar rapidamente.

Autoridades em Washington e Cabul disseram que a embaixada está realizando reuniões regulares de um comitê de ação de emergência, que é estabelecido em cada posto diplomático americano para avaliar se ou quando uma retirada será necessária. O conteúdo das reuniões é secreto porque, em parte, eles revisam a inteligência sobre cenários de ataque específicos.

Porta-vozes da sede do Departamento de Estado em Washington e da Embaixada dos Estados Unidos em Cabul não quiseram discutir a frequência com que o comitê se reunia, mas outras autoridades disseram que seus membros se reunem diariamente.

O comitê pode apenas fazer recomendações, e caberia ao diplomata de alto escalão da embaixada - neste caso, Ross Wilson, o encarregado de negócios em Cabul - ordenar uma retirada  após consultar altos funcionários em Washington. Na quinta-feira, Wilson advertiu o Taleban que “as tentativas de monopolizar o poder por meio da violência, do medo e da guerra só levarão ao isolamento internacional”.

Desde abril, a embaixada começou a enviar para casa funcionários não essenciais à medida que a segurança se tornava mais insustentável em Cabul. Outros membros da equipe foram autorizados a sair, sem penalidade para suas carreiras, caso se sentissem em perigo.

Ao mesmo tempo, disseram autoridades, menos diplomatas estão se mudando para Cabul para substituir colegas que partiram. Isso levantou preocupações no corpo diplomático americano de que a embaixada teria problemas para recrutar funcionários nos próximos anos.

“É uma época dolorosa”, disse Eric Rubin, presidente do sindicato que representa oficiais de carreira do serviço estrangeiro e ex-embaixador na Bulgária. Ele disse que cerca de um quarto do atual corpo diplomático dos EUA foi destacado para o Afeganistão ou para o Iraque nos últimos 20 anos e permanece emocionalmente envolvido nas zonas de guerra em que trabalharam.

“Houve muito sacrifício”, disse Rubin. “Todos os que serviram ali o fizeram em grande parte sem família e em condições difíceis; às vezes sob fogo de morteiro. Então não foi fácil. ”

No mês passado, altos funcionários da embaixada em Cabul expressaram confiança de que o pessoal poderia ser retirado rapidamente, se necessário, observando que um número suficiente de voos comerciais saindo do aeroporto internacional da capital todos os dias poderia acomodar os funcionários do complexo.

Não está claro, no entanto, se uma retirada incluiria todo o pessoal estrangeiro da embaixada junto com os cidadãos americanos, e o destino dos funcionários afegãos que seriam quase certamente alvos do Taleban por ajudar os Estados Unidos é de grande preocupação para os oficiais, de acordo com várias pessoas familiarizadas com as discussões.

Autoridades também disseram que o governo Biden teme que o esvaziamento da embaixada americana possa criar um efeito dominó que acelere a saída de outras missões diplomáticas e apoio internacional - e, por sua vez, leve ao colapso do governo afegão.

“Tenho certeza de que ninguém em nosso Serviço de Relações Exteriores envolvido nesse esforço está defendendo o fechamento da embaixada e a retirada”, disse Rubin.

Embora as decisões sobre a segurança da embaixada estejam no horizonte, ele disse, "não há razão para pensar que haja uma ameaça iminente à segurança de nosso povo".

“A primeira coisa é, obviamente, a missão, e a missão está mudando”, disse Rubin. “Mas eu não acho que ninguém vai propor ir embora.”

 

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