EUA pedem que iraquianos não resistam à invasão

Minutos antes de as bombas começarem a cair sobre alvos no centro de Bagdá e de o primeiro contingente de fuzileiros iniciar a invasão do Iraque, a partir do Kuwait, o secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, exortou os soldados e oficiais iraquianos a encarar a realidade que enfrentam e reconhecer a futilidade de resistir a um ataque "de uma força, escopo e escala muito além do que já se viu antes"."Os soldados e oficiais iraquianos devem perguntar-se se querem morrer lutando por um regime condenado ou se querem sobreviver, ajudar o povo iraquiano na libertação de seu país e ter um papel num novo Iraque", afirmou Rumsfeld em sua primeira entrevista coletiva depois do início do bombardeio aéreo limitado, na noite de quarta-feira, que marcou o início da guerra. "Os dias do regime de Saddam Hussein estão contados".O secretário de Defesa conclamou os militares iraquianos a desobedecer ordens de seus superiores e não atacar civis nem sabotar os poços de petróleo, que são a principal fonte de riqueza do Iraque. Falando já como o representante do poder que, em questão de dias ou semanas, administrará um Iraque ocupado por forças americanas, Rumsfeld afirmou que "obedecer tais ordens seria cometer crimes contra o povo do Iraque". Ele acrescentou: "Tomem essas ordens pelo que elas são: o último suspiro desesperado de um regime moribundo".Rumsfeld pediu também aos civis iraquianos para ficar em suas casas, manter distância de instalações militares e sintonizar as estações de rádio em busca de instruções das forças americanas.As declarações do secretário de Defesa foram orientadas por pelo menos dois objetivos. O primeiro, puramente militar, é obter a rendição do maior número de forças iraquianas que possam tentar deter o avanço das tropas americanas rumo a Bagdá e facilitar a execução do plano de guerra a cargo do general Tommy Franks, o chefe do Comando Central das forças armadas americanas. Os primeiros relatos de repórteres americanos que acompanham o avanço da Primeira Divisão de Marines indicam que as forças iraquianas não ouviram o conselho do secretário de Defesa.Rumsfeld também tinha em mente um importante objetivo político: conter ao mínimo possível o número de baixas dos dois lados e limitar a destruição que a guerra pode causar, pois essas são condições necessárias para que a administração Bush mantenha o suporte doméstico a uma guerra que é vista com reservas mesmo pelos americanos que a apóiam, e é amplamente condenada pela opinião pública internacional como uma ação desnecessária, ilegal e ilegítima.Ambas as preocupações ajudam a explicar a forma surpreendente como o conflito começou. Depois de ter prometido um ataque inicial maciço, com 3.000 mil bombas lançadas nas primeiras 48 horas para causar "choque e pasmo" e paralisar as forças iraquianas, a ofensiva começou de forma pontual, com bombardeios contra alvos localizados em Bagdá e em posições da defesa iraquiana no sul e no oeste do país. A primeira salva, uma bomba capaz de penetrar fortificações subterrâneas, disparada na noite de quarta-feira contra a capital, tinha na mira o próprio Saddam Hussein. O Pentágono descreveu a operação como uma tentativa de "decapitar o regime"."O comando e o controle da liderança do regime é um alvo militar legítimo em qualquer conflito", afirmou o chefe do Estado-Maior conjunto americano, general Richard B. Meyers. As duas bombas lançadas hoje contra um prédio próximo ao ministério da informação e contra um dos complexos presidenciais no centro de Bagdá também tiveram o óbvio objetivo de atingir Saddam e seus principais assessores, apressar o colapso do regime e diminuir os custos da guerra e do pós-guerra.Algumas horas depois do ataque, que foi ordenado por Bush com base em informação da CIA sobre o lugar onde estaria o líder iraquiano, Saddam apareceu na televisão para mostrar que continuava vivo e no comando.Embora Rumsfeld tenha procurado criar dúvida sobre a autenticidade da imagens do líder iraquiano, fontes oficiais acreditam que sejam verdadeiras. Apesar de sua certeza na vitória, Meyers e Rumsfeld procuraram preparar o país para as más notícias que as tropas americanas podem encontrar pelo caminho. "Não vemos combate como uma tarefa fácil, a guerra é sempre perigosa e teremos baixas", disse o general. "Temos diante de nós a séria tarefa de remover o regime (de Saddam Hussein)", disse Rumsfeld. "Esse é um processo que leva algum tempo".Veja o especial :

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