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Nos EUA, Mourão refuta intervenção e diz que 'estrangulamento econômico' derrubará Maduro

Após reunião com Mike Pence, vice diz que situação econômica vai fazer militares venezuelanos oferecerem saída para Maduro

Beatriz Bulla Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2019 | 18h23
Atualizado 09 de abril de 2019 | 11h00

O vice-presidente, general Hamilton Mourão, se reuniu com o vice americano, Mike Pence, nesta segunda-feira, 8, e refutou a possibilidade de qualquer intervenção militar na Venezuela. Para Mourão, a pressão econômica feita pelos Estados Unidos sobre o regime de Nicolás Maduro está chegando a um ponto em que deve surtir algum efeito e propiciar o fim do governo do chavista. 

“Isso é um processo, não há solução imediata para esse processo que se vive na Venezuela. A questão econômica está chegando num ponto de estrangular o país e esse será o momento que as Forças Armadas (venezuelanas) então terão condição de assumir o poder e abrir o caminho para a saída do governo Maduro”, afirmou Mourão a jornalistas após a reunião. 

Os EUA têm adotado sanções econômicas contra aliados de Maduro. Mourão mencionou as últimas sanções impostas pelos americanos, na sexta-feira, 5, que atingem o petróleo exportado da Venezuela para Cuba. Caracas envia a Cuba 59 mil barris de petróleo por dia, que equivalem a 70% do consumo do país. “Isso vai estrangular mais ainda. Vamos lembrar qual é a única renda que a Venezuela tem? É a venda de petróleo. Os apagões que ocorreram ultimamente danificaram mais ainda a indústria petrolífera”, avaliou Mourão.

“A situação está difícil, não tem bolinha de cristal para chegar e dizer 'é amanhã, ou semana que vem', mas eu vejo que o desenlace está próximo”, afirmou Mourão. Segundo ele, caberá aos militares venezuelanos propiciar uma saída para Maduro.

Segundo Mourão, Pence quis saber a opinião do brasileiro sobre a crise no país vizinho. O brasileiro disse ter expressado o que vem repetindo nos últimos dias: a solução para a crise na Venezuela precisa ser resolvida pelos próprios venezuelanos. A ala militar do governo brasileiro tem rechaçado a possibilidade de apoio a qualquer ação militar para forçar o fim do regime Maduro. 

“Nenhum de nossos países irá intervir na Venezuela de maneira militar. A intervenção que está sendo feita é política e econômica. A questão militar é dos venezuelanos”, afirmou Mourão aos jornalistas. Ele disse se referir a todos os países que compõe o Grupo de Lima, e aos Estados Unidos quando mencionou a não intervenção. 

 

Fonte da Casa Branca afirmou que Pence incentivou Mourão a usar sua experiência como adido militar em Caracas para influenciar militares venezuelanos a romper com o chavismo. O governo americano espera que o Brasil ajude na interlocução com os militares do país vizinho, que até agora dão suporte a Maduro.

“Ele tem a credibilidade de ser um líder importante na região com formação militar”, disse a fonte da Casa Branca, que pediu para não ser identificada. “É uma voz muito importante e está usando essa voz para avançarmos.” Mourão, contudo, disse que não houve pedido de Pence para fazer a interlocução com militares da Venezuela. O vice-presidente brasileiro avaliou que Maduro já perdeu a capacidade de liderar as Forças Armadas venezuelanas.

Os dois abordaram ainda a presença militar da Rússia na Venezuela. Mourão disse que há preocupação com isso, uma vez que a Rússia é uma força externa ao continente, mas ressaltou que o Brasil tem boas relações com os russos. “A Rússia está tentando manter os seus interesses, uma vez que investiu bastante dinheiro”, disse Mourão.

China

A reunião dos dois vice-presidentes durou cerca de 30 minutos. Os dois também falaram sobre as relações do Brasil com a China. Durante o governo Trump, os EUA entraram em uma queda de braço com a China e os americanos se preocupam com a influência dos chineses na América Latina. Por isso, falas do presidente Jair Bolsonaro críticas ao comércio do Brasil com a China são bem vistas no governo americano. O ministro da Economia, Paulo Guedes, no entanto, já afirmou que o País continuará a fazer comércio com os chineses. 

Pence apresentou a Mourão “preocupações” com relação a questões de propriedade intelectual e disputa tecnológica ligadas à China, mas disse entender que o país é um grande parceiro comercial do Brasil. “Ele foi muito claro”, disse Mourão. O vice-brasileiro disse ter deixado claro que o Brasil “busca com a China um relacionamento estratégico na busca de benefício mútuo para ambos os países”.

Mourão negou que os dois tenham falado sobre a eventual transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. Segundo ele, isso é um assunto “que não diz respeito aos Estados Unidos”.

'Mike e Tony'

Na entrevista aos jornalistas, Mourão respondeu perguntas em português, inglês e espanhol. No início da conversa com a imprensa, um assessor de Mourão avisou que o vice-presidente estaria apto a responder perguntas nas três línguas. “E em francês”, emendou Mourão. O vice-presidente disse que a intenção da visita a Pence, em Washington, era abrir caminho de diálogo entre os dois. “Nós criamos aquele sentimento de que posso pegar um telefone e ligar para ele. Eu chamo ele de Mike, ele me chama de Tony e está tudo bem”, disse Mourão.

A visita do vice-presidente, menos de 20 dias depois da passagem do presidente Jair Bolsonaro pelos Estados Unidos para encontro com Trump, gerou estranheza em parte das autoridades americanas. Segundo Mourão, a ideia era fazer um “aproveitamento de êxito” e tirar vantagem do que ele considerou como o momento de empatia entre Trump e Bolsonaro.

 

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