AFP PHOTO / TIMOTHY A. CLARY
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EUA podem agir sozinhos se Conselho de Segurança falhar sobre Síria, diz embaixadora americana

Em Washington, Trump indicou uma mudança de tom de seu governo; segundo ele, sua 'atitude com relação à Síria e a Assad mudou' e 'muitas linhas' foram ultrapassadas

O Estado de S. Paulo

05 Abril 2017 | 15h43

NAÇÕES UNIDAS - Segurando fotografias de crianças sírias mortas após o suposto ataque com arsenal químico, a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, alertou nesta quarta-feira, 5, ao Conselho de Segurança que seu país pode tomar uma medida unilateral se o organismo falhar em responder à última atrocidade da guerra síria. 

Enfrentando seu primeiro confronto sério sobre Síria no Conselho de Segurança, a embaixadora também usou seu pronunciamento durante a sessão de emergência de hoje para culpar a Rússia por bloquear uma resposta robusta ao ataque de terça-feira, em uma cidade no norte sírio, que desencadeou uma condenação internacional. 

Os EUA, a França e a Grã-Bretanha têm acusado o governo sírio por ser responsável pela ação e criticado a Rússia - principal aliado de Damasco nesses seis anos de guerra - por se opôr a uma resolução esboçada por esses países condenando o ataque. 

A Rússia afirmou que insurgentes podem ser os responsáveis pelo ataque ou que ele pode ter sido "fabricado". 

"Mais e mais uma vez a Rússia usa a mesma falsa narrativa para desviar atenção de seus aliados em Damasco", afirmou Nikki. "Quantas mais crianças terão de morrer antes da Rússia se importar?"

Ela encerrou suas declarações com um aviso ameaçador. "Quando as Nações Unidas consistentemente falharem em suas obrigações de agir coletivamente, há momentos na vida  que ficamos compelidos em tomar nossas próprias ações", disse. "Pelo bem das vítimas, espero que o restante do Conselho esteja finalmente inclinado a fazer o mesmo." 

Nikki não fornecer mais detalhes. Mas ela, assim como a Casa Branca na terça-feira, culpou o governo do presidente Bashar Assad pelo ataque.  

Em Washington, o secretário de Defesa, Jim Mattis, comentou o ataque antes de um encontro com o ministro da Defesa de Cingapura. "Esse foi um ato hediondo e será tratado como tal". 

Resolução. Grã-Bretanha, França e Estados Unidos apresentaram um rascunho de resolução pedindo uma investigação exaustiva do ataque em uma localidade rebelde na Província de Idlib, mas a Rússia afirmou que o texto era "categoricamente inaceitável".

"Aqui estamos falando de crimes de guerra, crimes de guerra em grande escala, crimes de guerra com armas químicas", criticou o embaixador francês, François Delattre, em declarações a jornalistas ao entrar na reunião.

O projeto de resolução pede que um painel conjunto da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) e da ONU investigue o ataque, realizado na manhã de terça-feira no povoado de Khan Sheikhun.

Ao menos 86 pessoas morreram, entre elas 20 crianças, durante o ataque, e dezenas sofreram dificuldades para respirar, convulsões e soltaram espuma pela boca, segundo médicos.

O texto, visto pela agência France Presse, convoca a Síria a entregar os planos e registros de voo, além de outras informações, de suas operações militares no dia do ataque.

Além disso, pede que Damasco forneça os nomes de todos os comandantes de esquadrões de helicópteros aos investigadores da ONU e permita que se reúnam com generais e outros oficiais de alto escalão, indica o projeto de resolução.

Também prevê que a Síria permita que as equipes da ONU e da OPAQ visitem suas bases aéreas, das quais os ataques com armas químicas podem ter sido lançados.

As negociações em torno do rascunho continuam, mas em Moscou o chanceler antecipou que o "texto tal como foi apresentado é categoricamente inaceitável".

Por enquanto, não foi convocada uma votação, mas os diplomatas de países ocidentais disseram que as negociações não se estenderão muito, sugerindo que a Rússia pode recorrer a um veto para bloquear a medida.

"Um veto russo significaria que eles gastam mais tempo defendendo o indefensável", afirmou o embaixador britânico, Matthew Rycroft.

'Muitas linhas'. Em Washington, Trump indicou uma mudança de tom de seu governo e disse que sua “atitude com relação à Síria e a Assad mudou”. “Agora estamos falando de outro nível, completamente diferente.”

Para ele, os atos odiosos cometidos pelo regime sírio não podem ser tolerados e o ataque de terça-feira “ultrapassou várias linhas”. “Quando se mata crianças inocentes, bebês, pequenos bebês, isso é ultrapassar muitas, muitas linhas, muito além de apenas uma linha vermelha”, disse Trump. “Esses atos de ódio pelo regime de Assad não podem ser tolerados”, acrescentou, sem dar detalhes das ações que os EUA poderiam adotar agora. 

Ao mencionar “linha vermelha”, Trump se referia à expressão usada pelo antecessor Barack Obama em 2012. Segundo ele, se ultrapassada, autorizaria a reação violenta do Ocidente. A “linha vermelha” seria violada no dia em que Damasco utilizasse armas químicas. Em 2013, um grande ataque com armas químicas na periferia de Damasco matou mais de 1,4 mil, mas não houve nenhuma reação concreta por parte dos EUA. / NYT, AFP, Reuters, AP, EFE 

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