AP Photo/Evan Vucci
AP Photo/Evan Vucci

‘EUA podem perder em competitividade ao afrouxarem regulação ambiental’

Montadoras de China, Europa e Japão vendem três vezes mais que as americanas e têm padrões veiculares rigorosos

Entrevista com

Cristiano Façanha, do ICCT

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

25 Janeiro 2017 | 05h00

O rigor da legislação ambiental americana no setor automotivo foi fundamental para flagrar recentemente irregularidades na emissão de gases de veículos da Volkswagen, no chamado “dieselgate”. Apesar de Donald Trump não ter deixado claro em sua reunião com as montadoras quais regulamentações ambientais ele afrouxaria, ao dizer que elas estão "fora de controle", uma possibilidade é que ele queira alterar a regra que determina o prazo até 2025 para as empresas melhorarem a eficiência dos carros a fim de reduzir o consumo de combustíveis. Cristiano Façanha, do Conselho Internacional do Transporte Limpo (ICCT, na sigla em inglês), ONG que trabalha com regulação ambiental, explica na entrevista a seguir as implicações de uma possível  mudança.

Que tipo de impacto esse enfraquecimento pode trazer?

Essa regra fala sobre eficiência de combustível. Estabelece que a eficiência para os veículos produzidos até 2025 seja em média o dobro da observada nos carros produzidos hoje. Veículos que consomem menos combustível, também emitem menos CO2, que é um gás de efeito estufa. Então, o impacto é sobre o clima e o aquecimento global. A EPA (Agência de Proteção Ambiental do EUA) se antecipou e confirmou a regra no final da administração Obama e as montadoras concordaram com ela. Mas não se alcança esses objetivos do dia para noite, de modo que muitas montadoras já estão fazendo o desenvolvimento tecnológico necessário. Acredito que não são todas que apoiariam o enfraquecimento da regra, pois estão investindo e não vão perder a vantagem competitiva.

A mudança pode ter um efeito cascata em outros países?

Acho hoje menos provável porque as argumentações para os padrões altos de eficiência veicular são muito fortes. O mercado americano não existe num vácuo. As montadoras de China, Europa e Japão vendem três vezes mais que as americanas. Eles também têm padrões veiculares rigorosos, e a China se apresentou em Davos como a nação que vai levantar a bandeira climática. Os EUA podem perder em competitividade. E para o consumidor americano isso também não é assim tão interessante porque muitos querem um carro que consuma menos e o custo dessa tecnologia tem caído. Tais padrões são baseados em análises de custo-benefício muito robustas que garantem que as melhoras demandas na eficiência energética sejam custo-efetivas para os consumidores. 

No passado, a Califórnia adotou leis mais rigorosas que a federal. Os EUA podem ter uma guerra de regulação?

Historicamente a Califórnia adotou regras mais rigorosas, mas hoje isso deixou de ser necessário porque com o tempo a EPA passou a coordenar as regulações com o Estado. Isso foi bom até para as montadoras, que não precisaram mais fazer carros com padrões diferentes. Isso agora pode mudar. Se a EPA for enfraquecida, alguns Estados vão se mover para, pelo menos, manter a exigência atual. Aí vamos ver um problema.

 

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