Tony Dejak/AP Photo
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EUA podem ter 60 mil mortes por covid após feriado de Ação de Graças

Maior autoridade de saúde do país, Anthony Fauci, alerta para explosão de casos e mortes por coronavírus

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2020 | 05h00

Longas filas para testes de covid e resultados atrasados pela sobrecarga do sistema, em Washington, acenderam o alerta para o risco que representa o feriado prolongado de Ação de Graças, que começou na quinta-feira.

Autoridades temem que a tradicional reunião familiar provoque uma nova explosão de casos de contaminação pelo coronavírus. Esta semana, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) estimou que até 60 mil pessoas poderiam morrer por causa do contágio neste período

O número de mortes diárias, segundo o CDC, deve dobrar nos próximos dez dias, prolongando a sensação de perda e de isolamento em uma temporada tradicionalmente passada ao lado da família e dos amigos. Na sexta-feira, os EUA ultrapassaram a marca de 13 milhões de casos – foi o 25.º dia seguido que o país registrou mais de 100 mil casos em 24 horas. 

A grave situação fez autoridades federais de saúde alertarem os americanos. Anthony Fauci, imunologista-chefe dos EUA e um dos maiores especialistas em doenças infecciosas do governo federal, reconheceu a probabilidade de agravamento da pandemia. “Podemos ver uma onda se sobrepondo àquela em que já estamos”, disse ele em um programa da rede de TV americana NBC.

Até agora, apenas no mês de novembro, o número total de casos de coronavírus nos Estados Unidos ultrapassou 4,1 milhões, com mais de 25.500 mortes. Nas últimas duas semanas, os casos de covid-19 aumentaram 12%, as mortes em 29% e as hospitalizações em 38%. Desde o início da pandemia, mais de 13,3 milhões de americanos foram infectados e mais de 265.900 morreram.

“Não é tarde demais para desacelerar esse aumento”, disse Fauci, pedindo para que os americanos usem máscara e mantenham o distanciamento físico. Caso contrário, disse ele, haverá necessidade de novos lockdowns. “Se pudermos nos manter juntos como um país e fazer esse tipo de coisas para conter essas ondas até obtermos uma proporção substancial da população vacinada, podemos superar isso”, disse ele.

A infectologista Deborah Birx, coordenadora de resposta ao coronavírus da Casa Branca, exortou os americanos a assumirem a responsabilidade de “proteger a si mesmos e suas família", mesmo em estados e cidades onde as autoridades não tenham exigido tais medidas. Em um programa da NBC, Birx pediu para que mesmo os que são céticos em relação às medidas para limitar a propagação do víru, “devem presumir que foram expostos e infectados e que realmente precisam fazer o teste na próxima semana”. 

Depois de uma desaceleração na contaminação, no início do semestre, o país voltou a conviver com o aumento do contágio. Um novo crescimento já era esperado para o fim do ano, com a menor cautela por parte da população após meses de restrições e com o início do inverno, que faz com que as atividades antes feitas ao ar livre passem para ambientes fechados, o que aumenta o risco de contaminação.

Durante a semana, autoridades de saúde pediram às pessoas que evitassem deslocamentos em aviões, trens e ônibus, e mantivessem as comemorações do Dia de Ação de Graças restritas às pessoas que moram na mesma casa. Mas, no fim de semana que antecedeu o feriado, mais de 3 milhões de passageiros passaram pelo TSA, o controle dos aeroportos americanos.

O Dia de Ação de Graças é considerado o principal feriado americano, com importância maior do que o Natal e o ano-novo. É a data na qual universitários que vivem em outros Estados voltam para suas cidades para se reunir com a família, o que deixa em estado de atenção as autoridades de saúde, com receio de que jovens sejam agentes de transmissão da covid-19 para parentes idosos, parte do grupo mais vulnerável.

Hospitais em Estados como Wisconsin, Flórida, Novo México e Minnesota informaram que estão sobrecarregados, sem profissionais disponíveis para atender à demanda crescente. Há 90 mil americanos hospitalizados com covid-19, um recorde, e mais de 260 mil mortes por coronavírus. 

Segundo um relatório do Departamento de Saúde do governo americano, mais de mil hospitais no país estão em situação crítica. Especialistas têm alertado que as próximas duas semanas após o feriado podem registrar um elevado número de internações.

Principal infectologista do governo na resposta contra a pandemia, o médico Anthony Fauci pediu aos americanos que reconsiderassem as viagens e evitassem grandes grupos no feriado. Em entrevista ao jornal The Washington Post, Fauci afirmou que “os riscos são de que se verá um onda sobreposta a uma outra onda”. “O que estamos fazendo agora vai se refletir em duas, três semanas a partir de agora”, disse.

Agendas diferentes. Enquanto isso, o presidente dos EUA, Donald Trump, se concentra na divulgação de informações sobre o andamento das vacinas contra covid-19, que o governo americano promete começar a distribuir antes do Natal, após resultados promissores dos testes da Moderna e da Pfizer. 

Já o presidente eleito Joe Biden pediu aos americanos que se comprometam novamente com o combate ao vírus. “Sei que o país está cansado da luta. Mas precisamos lembrar que estamos em guerra contra o vírus, não uns contra os outros. Este é o momento em que precisamos redobrar nossos esforços e nos comprometer novamente com a luta.

 

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