EUA precisam ter fé em pessoas como eu

Obama deve trocar monarca do Bahrein por cidadãos que lutam por direitos

Nada Dhaif (CSM), O Estado de S.Paulo

07 Maio 2012 | 03h05

Com a notícia de que haverá um "novo julgamento" de Abdulhadi al-Khawaja e outros 20 manifestantes presos por participarem do levante do ano passado no Bahrein, temo que o processo legal esteja sendo usado para negar justiça. Meu próprio julgamento prova que o Bahrein continua a violar os direitos de seu povo.

Sou uma ativista acidental e estou aguardando um recurso contra minha condenação por um tribunal militar farsesco. As autoridades do Bahrein continuam fazendo acusações contra mim e outros 19 médicos.

Elas dizem que estivemos envolvidos na ocupação do principal hospital da capital, Manama, tentando derrubar o regime. Tudo o que fizemos foi tratar manifestantes. Em fevereiro de 2011, me uni a milhares de pessoas na Praça da Pérola oferecendo-me como voluntária numa tenda médica. O protesto logo foi reprimido.

Em 19 de março, forças de segurança invadiram minha casa e me levaram. Durante 22 dias, fui submetida a torturas. Fiquei detida durante dois meses.

Fui obrigada a assinar uma declaração confessando odiar o regime, apoiar criminosamente os manifestantes e outras acusações falsas. Junto com os outros médicos que foram torturados, fui condenada a 15 anos de prisão. Estamos soltos enquanto nossa apelação se arrasta.

O Bahrein é um país pequeno. Nossa sublevação democrática não recebeu muita atenção do Ocidente. Mas tal como os povos de outros países da Primavera Árabe, só queremos nossos direitos. E tal como os outros regimes, a monarquia bareinita respondeu com violência.

Quando o presidente Barack Obama falou em "direitos universais dos cidadãos do Bahrein" em seu discurso de maio de 2011 sobre os levantes no Oriente Médio, o povo bareinita aplaudiu. Mas de lá para cá, o governo americano ficou relativamente calado sobre o país. E também não cancelou uma venda de armas de US$ 53 milhões. Gostaríamos de saber como os EUA conciliam isso com a afirmação de que apoiam "os direitos universais dos bareinitas".

Claro, o Bahrein abriga a Quinta Frota da Marinha americana e isso seria ameaçado se o governo Obama dissesse a seus amigos na família do rei Hamad bin Isa al-Khalifa para parar de reprimir os manifestantes. A resposta de Washington à repressão me obriga a perguntar o que os EUA apoiam de verdade.

Um novo Oriente Médio está surgindo: se perder a fé em pessoas como eu, a América perderá a região inteira. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*É uma entre 20 médicos presos, torturados e condenados por tratarem manifestantes no Bahrein

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