Guillermo Arias / AFP
Guillermo Arias / AFP

EUA prendem maior número mensal de imigrantes ilegais na fronteira nos últimos 13 anos

Segundo especialistas, entre as razões do aumento de imigrantes detidos em maio estão o endurecimento da repressão por parte do governo Trump, o crescimento das travessias feitas por famílias e a disseminação das redes sociais 

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2019 | 05h00

WASHINGTON - Os EUA detiveram em maio mais de 144 mil imigrantes que cruzaram a fronteira sul, um aumento de 32% com relação a abril, na maior apreensão de ilegais em um único mês desde que Donald Trump assumiu, em 2017. Foi também o mês com mais detenções em 13 anos, segundo o órgão de alfândega e proteção de fronteira dos EUA (CBP, na sigla em inglês). 

Maio foi também o terceiro mês seguido de apreensões acima de 100 mil pessoas, lideradas pelos níveis recorde de entrada de guatemaltecos e hondurenhos com seus filhos. Segundo o CBP, as prisões foram de famílias – cerca de 100 mil –, que abarrotaram as celas dos centros de detenção. Atualmente, 19 mil pessoas continuam presas aguardando julgamento. 

Uma reportagem da rádio pública americana NPR ouviu centenas de imigrantes que foram apreendidos na fronteira, além de especialistas que concluíram que três fatores ajudam a explicar o aumento de ilegais nos EUA, mesmo com regras mais duras de Trump. 

O primeiro fator é que os traficantes de pessoas, conhecidos como coiotes, estão cobrando mais barato de famílias. Eles levam os ilegais até a fronteira, onde muitos se entregam às autoridades do outro lado. Com viajantes sozinhos, é preciso garantir que eles atravessem sem serem pegos, já que têm mais risco de serem deportados imediatamente, segundo as regras atuais no país. 

Acompanhados de crianças, os imigrantes têm mais chances de aguardar julgamento em liberdade nos EUA. Viajar sozinho pode custar cerca de US$ 12 mil ao imigrante. Se estiver em família, esse valor pode cair para US$ 7 mil. 

Um segundo fator, segundo a NPR, são as redes sociais. Por elas, muitos percebem que parentes e amigos conseguiram chegar e se estabelecer nos EUA. “Todo mundo tem celular, todo mundo tem Facebook. Você vai ver fotos dessas pessoas com carros, emprego, roupas legais”, afirmou ao site da rádio o diretor guatemalteco Luis Argueta, que está fazendo um documentário sobre o fluxo migratório. 

As redes sociais ajudaram também os participantes a se organizar nas diversas caravanas, que saíram no ano passado de Honduras, El Salvador e Guatemala rumo aos EUA. 

Ironicamente, a política de repressão do presidente Trump é o terceiro fator que, segundo a reportagem, explica o grande número de apreensões. O governo americano tem tentado deter esses imigrantes de várias maneiras, até mesmo separando pais e filhos na fronteira dentro de sua “política de tolerância zero”. Mas o efeito tem sido contrário ao atrair tanta atenção para a repressão.

“Isso é muito irônico”, afirma Guadalupe Correa-Cabrera, professora de segurança na fronteira e imigração da George Mason University. Segundo ela, os imigrantes sabem que Trump não os quer e, por isso, acreditam que ele pode tornar cada vez mais difícil a travessia para os ilegais. “Eles têm de fazer isso agora. É agora ou nunca.” 

Crise regional

O número de maio equivale a um aumento de 182%, com relação a maio de 2018, e 6 vezes o de maio de 2017, quando as prisões na fronteira estiveram perto de seu nível mais baixo em meio século: menos de 20 mil. 

Reportagem do site Vox reforça a tese de que a mudança nas táticas e capacidade de tráfico de pessoas, como migrar com a família, ajuda a explicar o rápido aumento do fluxo migratório desde o início do ano. Além disso, aqueles que migram em busca de asilo têm recorrido ao contrabando, mesmo sabendo que ele é ilegal, por achar que não têm outra escolha.

Na avaliação da reportagem, o que está acontecendo na fronteira sul-americana é resultado de uma crise regional que, se mantiver os atuais índices, pode levar à imigração de 1% da população da Guatemala e de Honduras, assoladas pela violência do crime organizado.

“Estamos em emergência total e não posso dizer isso de maneira mais clara: o sistema está falido”, disse o comissário do CBP, John Sanders. Ele lembrou que a agência deteve mais de 680 mil pessoas cruzando a fronteira nos últimos oito meses. “Isso é mais do que a população de Miami”, disse Sanders, em entrevista coletiva. 

Esses números históricos tornaram-se fonte de frustração para Trump, cujo governo vem fracassando repetidamente em seus esforços para dissuadir a imigração ilegal. Ele já demitiu a maior parte dos diretores do Departamento de Segurança Interna e recentemente disparou contra um velho culpado, o governo do México, ameaçando impor tarifas sobre se o vizinho não ajudar a conter a imigração na fronteira. 

O governo republicano também informou ontem que estava cancelando as aulas de inglês, programas recreativos e ajuda legal para os menores desacompanhados mantidos em abrigos federais em todo o país, alegando que o grande fluxo migratório na fronteira criou uma pressão orçamentária. / W. POST e NYT

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