Steve Ruark/AP
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EUA preparam retirada do Afeganistão em negociação inicial com Taleban

Negociação seria parte de um acordo inicial para pôr fim à guerra de quase 18 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2019 | 18h03

CABUL - A administração Trump está se preparando para retirar milhares de soldados do Afeganistão em troca de concessões da milícia Taleban, incluindo um cessar-fogo e o fim do apoio ao grupo terrorista Al-Qaeda. A negociação seria parte de um acordo inicial para pôr fim à guerra de quase 18 anos, segundo oficiais americanos. 

A negociação, que requer que o Taleban comece a negociar um amplo acordo de paz diretamente com o governo afegão, poderia cortar o número de soldados americanos no país de atualmente 14 mil para algo entre 8 e 9 mil, segundo fontes do governo. Esse número é quase o mesmo do registrado quando o presidente Donald Trump tomou posse.

O plano começou a tomar forma após meses de negociações entre o Taleban e Zalmay Khalilzad, um diplomata americano nascido no Afeganistão indicado pela administração Trump no ano passado para dar início às conversações.

Fontes do governo dizem que o acordo poderia ser finalizado antes das eleições presidenciais afegãs, em setembro, ponderando que líderes taleban poderiam adiar o acordo e ainda há alguns desafios. 

Na quinta-feira, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, afirmou que o presidente Trump quer concluir a retirada das tropas americanas no Afeganistão até as eleições de novembro do ano que vem. Pompeo disse ter recebido uma ordem dele para isso. 

 

Durante a campanha eleitoral para a Casa Branca, em 2016, a retirada total de tropas do Afeganistão foi uma das promessas de Trump. Uma vez no poder, porém, chegou até a enviar soldados americanos para o país, elevando o contingente de 14 mil. 

No ano passado, os EUA travaram um diálogo direto sem precedentes com os taleban, com a esperança de encontrar um acordo de paz, e Trump manifestou mais uma vez seu desejo de encerrar as "guerras sem fim" para virar a página das custosas intervenções militares no exterior.

Mas a proposta que emergiu das negociações tende a ser vista com ceticismo por alguns membros do governo afegão e americano, que questionam a honestidade do Taleban e se preocupam sobre quanto os EUA poderão verificar se os líderes da milícia estão realmente cumprindo o acordo.

No entanto, se o pacto for aprovado, será um dos passos mais significativos para se encerrar a guerra, um objetivo que tem cada vez mais apoio bipartidário em Washington. 

Um porta-voz taleban, Zabiullah Mujahid, em uma breve entrevista, não quis estimar sobre quando o acordo estará pronto, mas disse estar esperançoso. "As coisas estão promissoras de que chegaremos a um avanço. Esperamos que não haja nenhum obstáculo, mas isso também depende da seriedade dos americanos."

 

Em uma mensagem postada no Twitter, Khalilzad afirmou que planeja conduzir uma próxima rodada de negociações com o Taleban no Catar em breve e se a milícia fizer sua parte, um acordo poderá ser finalizado. 

Cortes adicionais de forças americanas poderiam ser negociados como parte das discussões envolvendo milícia e Cabul, segundo fontes americanas. 

O general Austin “Scott” Miller, o mais alto comandante americano no Afeganistão, está aberto à proposta, segundo duas fontes da Defesa americana, porque ele acredita que isso poderia proteger os interesses dos EUA ao manter as forças de contraterrorismo focadas em Estado Islâmico e na Al-Qaeda. 

Miller, que assumiu o comando em Cabul em setembro, previamente disse que negociações políticas são a chave para encerrar a guerra. 

"Nenhum dos lados vencerá militarmente, e se há uma situação em que nenhum dos lados obterá uma vitória militar então é hora de seguir em frente ... rumo a um arranjo político", disse Miller em uma entrevista à ABC News em fevereiro. 

Fontes do governo reconhecem que há preocupações legítimas de que o Taleban talvez nunca rompa com a Al-Qaeda, como exige Washington, ou enfrente o Estado Islâmico.

Ainda assim, se dizem satisfeitas com o fato de uma retirada parcial das tropas que possa abrir as portas para negociações adicionais e manter a viva a missão de contraterrorismo enquanto o status quo não se torna politicamente insustentável. 

O Taleban tem se recusado a conversar com o governo afegão, a quem se refere como um 'regime fantoche' dos EUA. 

As discussões ocorrem enquanto continua a violência generalizada em todo o país, com o Taleban controlando mais territórios do que em qualquer outro momento desde 2001.

No domingo, o candidato a vice-presidente do Afeganistão Amrullah Saleh foi alvo de um ataque em Cabul que deixou pelo menos 20 mortos. Ele tem sido um adversário do Taleban.

Na segunda-feira, dois soldados dos EUA - Michael Nance, de 24 anos, Brandon Kreischer, de 20 - foram mortos na Província de Uruzgan, no que autoridades descreveram como um ataque "interno" de um soldado afegão. Quatorze soldados dos EUA morreram este ano devido a ferimentos sofridos no conflito.

O ano passado foi o mais mortífero para os civis em todo o conflito afegão, com 3.804 civis mortos e 7 mil feridos, de acordo com as Nações Unidas.

Quase 2,4 mil soldados americanos morreram no país desde o início da guerra, em 2001, e mais de 20 mil ficaram feridos, segundo o Pentágono. / W. POST e AFP 

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