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EUA preparam retomada de restrições a Cuba

Presidente americano discursará na sexta-feira em Miami, cidade escolhida por abrigar maior comunidade de exilados cubanos do país

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2017 | 05h00

Em mais um passo para desmontar o legado de seu antecessor, o presidente Donald Trump deverá anunciar na sexta-feira o endurecimento da política dos EUA em relação a Cuba e a reversão de algumas das medidas adotadas por Barack Obama para normalizar o relacionamento entre os dois países. 

Analistas ouvidos pela reportagem acreditam que as mudanças incluirão restrições às viagens de americanos para a ilha, proibição da realização de negócios com estatais ligadas aos militares cubanos – que dominam o setor de turismo – e limitações ao comércio. Ninguém espera, no entanto, a reversão do restabelecimento de relações diplomáticas. Anunciada por Obama e o líder cubano, Raúl Castro, em 15 de dezembro de 2014, a medida colocou fim a uma política de isolamento de quase 55 anos.

A simbologia do evento e o tom de Trump prometem ser hostis a Havana. O presidente deverá revelar as mudanças em Miami em um local que tenha significado histórico para os cubano-americanos, grande parte dos quais se opôs à política de reaproximação iniciada por Obama. Trump recebeu 58% dos votos dessa comunidade, o que o ajudou a vencer na Flórida em novembro.

“Todas as concessões que Barack Obama fez ao regime de Castro foram adotadas por decreto, o que significa que o próximo presidente pode revertê-las”, declarou, em setembro, o então candidato durante um evento de campanha realizado em Miami, o centro nevrálgico dos exilados cubanos. “E eu farei isso a menos que o regime de Castro atenda nossas demandas.” Segundo ele, as exigências incluiriam a libertação de presos políticos e a garantia de liberdade política e religiosa.

Em declarações à CNN, um integrante do gabinete de Raúl Castro disse que Havana está aberta a negociações com o governo Trump. “Sabemos que eles têm uma visão diferente do mundo. Entendemos isso”, declarou a fonte não identificada.

Filha de Raúl Castro, a deputada Mariela Castro disse em entrevista à agência EFE que “o mundo inteiro faz piadas” com Trump, mas os cubanos estão “muito preocupados” com o futuro do relacionamento bilateral. “Nosso temor é que voltem as posições extremistas e a política agressiva em relação a Cuba”, afirmou.

Ex-assessor de Obama e um dos negociadores da reaproximação com a ilha, Ben Rhodes criticou a falta de coerência do atual presidente. “Trump, amigo de (Vladimir) Putin, (Abdel Fattah) Sissi, (rei) Salman, (Rodrigo) Duterte e (Recep Tayyip) Erdogan, vai citar direitos humanos como justificativa para prejudicar o povo cubano”, postou no Twitter, referindo-se aos líderes de Rússia, Egito, Arábia Saudita, Filipinas e Turquia.

O Departamento de Estado disse ontem que o assunto ainda está em revisão dentro do gabinete e não há uma decisão final sobre as mudanças. Mas os analistas afirmam não ter dúvidas de que haverá endurecimento com Cuba. A questão é quão drástico ele será. 

“Trump não vai a Miami para elogiar a política de Obama e dizer que é contra o embargo”, observou Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano. Em sua opinião, as mudanças podem não ser radicais, mas serão apresentadas de maneira “teatral” e com o aumento da hostilidade retórica em relação ao governo da ilha. “Isso é o que mais me preocupa, porque pode fortalecer a linha dura do Partido Comunista e sua oposição às reformas.”

Com 86 anos, Raúl anunciou que deixará o poder no próximo ano, quando deverá ser substituído por Miguel Díaz-Canel, de 57 anos.

Eric Farnsworth, vice-presidente do Conselho das Américas, disse que ainda há muita indefinição em relação ao anúncio de Trump. Segundo ele, uma das dúvidas é como a questão dos direitos humanos será apresentada. “Não está claro se Trump exigirá a libertação de presos políticos para realizar concessões ou falará do assunto sem vinculá-lo à política de liberalização.”

Autor de um livro sobre as negociações secretas entre os EUA e Cuba desde os anos 60, Peter Kornblhu afirmou que a maioria dos americanos apoia o engajamento com a ilha. “Estou preocupado com a substância e o tom dos anúncios. As indicações são de que haverá aumento da agressividade e da hostilidade”, avaliou.

 

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