EUA pressionam UE a aceitar Turquia, por causa do Iraque

Os 15 integrantes da União Européia se reúnem na quinta-feira, em Copenhague (Dinamarca), para concluir os tratados de adesão dos dez novos países que serão admitidos a partir de 2004, entre os quais a Polônia, Romênia, República Checa, etc. É uma etapa importante. Mas, paradoxalmente, este encontro de Copenhague será consagrado sobretudo a um país que não faz parte dos dez habilitados a se tornarem membros da UE. Este país é a Turquia. A possibilidade de a Turquia colocar sua candidatura à UE ganhou mais força depois que o país adotou, em meados de novembro, um novo governo, o de Adbullah Gul, que pertence ao partido muçulmano moderado, o AKP. O mesmo que, por meio de seu presidente, Recep Tayyip Erdogan, condiciona toda sua ação política sobre a adesão da Turquia à UE. A UE se complica em todos os sentidos. Um homem colocou lenha na fogueira. Valéry Giscard d´Estaing, ex-presidente francês, simplesmente meteu os pés pelas mãos quando disse que a Turquia não poderia entrar na UE porque não é um país europeu. É verdade, ainda que a Turquia tenha um quinto de suas terras na Europa e que só tenha criado laços com o continente e o ocidente há cerca de um século. Mas, na realidade, o que Giscard d´Estaing queria dizer, sem ousar dizê-lo, é que a Turquia tem um defeito irreparável: não é cristã. Meu Deus, que horror! Dois argumentos se opõem à gafe de Giscard. Em primeiro lugar, lembramos que, em 1999, em Helsinque, a UE declarou que a Turquia tinha vocação para entrar na Europa. Em seguida, muitos dirigentes europeus, a começar por Chirac, que adora fazer promessas, asseguraram, em Ancara, que sua adesão não tinha problema nenhum. Um outro argumento é dos turcos do partido muçulmano moderado do AKP: "Vejam vocês, nós muçulmanos nos submetemos a trabalhar com vocês, e vocês nos vetam sob o pretexto de que somos muçulmanos. Oferecemos uma oportunidade incrível de superar a divisão do mundo em duas partes, herdada das Cruzadas da Idade Média, entre os cristãos e os muçulmanos fundamentalistas. E vocês preferem manter essa divisão...". A partir de quinta-feira, Copenhague começa a decidir. Prevemos uma divisão. Inglaterra, Itália e Espanha vão querer que a Turquia se anexe o mais rápido possível à UE. A Grécia e a Bélgica também. A França e a Alemanha, bem mais reticentes, mas presas por promessas antigas, vão propor uma avaliação da candidatura em 2004. Mas a posição americana é a mais interessante. Os Estados Unidos fazem pressão, por meio de um lobby pesado, para que a Turquia se junte rapidamente à UE. De resto, os três países europeus partidários da adesão rápida de Ancara são três intermediários dos Estados Unidos na Europa: a Itália, a Espanha e a Grã-Bretanha. Essa movimentação dos americanos intriga porque a Turquia é o país que menos gosta dos EUA. Então, por quê? Em primeiro lugar, porque a Turquia ocupa uma posição estratégica, como a Islândia, no Norte, e que teve um papel fundamental para o Ocidente na época da Guerra Fria. E não é tudo. Nos planos de Washington para a guerra contra o Iraque, a Turquia tem um papel crucial. Antes, durante a Guerra do Golfo, a Turquia colocou suas bases aéreas à disposição da coalizão de Bush, pai. Este ano, o exército americano quer que a Turquia se engaje antes. O forte apoio dos EUA à candidatura turca está diretamente ligado à guerra contra o Iraque. Os novos dirigentes turcos exploram a situação a fundo. Eles declararam que a posição turca sobre o confronto vai depender do apoio que Washington vai dar para fazer com que entrem na UE.

Agencia Estado,

10 Dezembro 2002 | 19h25

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