Mandel Ngan/AFP
Mandel Ngan/AFP

EUA prometem impor novas sanções contra autoridades de Cuba

Governo Biden também afirmou que vai expandir equipe em embaixada para apoiar povo cubano em 'legítimas aspirações' por democracia

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 12h00

WASHINGTON - O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira que pretende impor novas sanções contra autoridades do governo de Cuba, com o objetivo de apoiar o povo cubano em suas “legítimas aspirações” por democracia.

O porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, afirmou que as sanções devem mirar “funcionários cubanos responsáveis pela violência, repressão e violações dos direitos humanos contra manifestantes pacíficos".

A promessa de sanções se soma a outros anúncios feitos recentemente pelos EUA. Na terça-feira, Washington disse que analisa expandir o corpo de funcionários americanos na embaixada em Havana, criar um canal que permita o envio de remessas a Cuba sem controle oficial e expandir o acesso à internet na ilha.

Se adotadas, essas medidas seriam as primeiras mudanças de política para Cuba sob o governo de Joe Biden, que expressou sua solidariedade aos manifestantes depois dos protestos que eclodiram em 11 de julho, em meio à pior crise econômica na ilha comunista em décadas.

Na terça, o Departamento de Estado informou que analisa o reforço do quadro de funcionários de sua embaixada em Havana, reaberta quando as relações entre os dois países foram retomadas, em 20 de julho de 2015, no marco da reaproximação promovida pelo ex-presidente democrata Barack Obama, de quem Biden foi vice-presidente.

Sob a presidência de Donald Trump, a embaixada, que foi fechada em 1961 após a revolução liderada por Fidel Castro e transformada em uma seção de interesses em 1977, reduziu sua equipe ao mínimo, após misteriosos "ataques sônicos" contra diplomatas.

“Este quadro de pessoal em nossa embaixada servirá para melhorar nossa atividade diplomática, nosso compromisso com a sociedade civil, nosso serviço consular”, disse o porta-voz do Departamento de Estado Ned Price, assegurando que isso contribuirá para garantir mais direitos em Cuba. “Se vamos fazer todo o possível para apoiar as aspirações do povo cubano, precisamos ter uma presença no terreno”, acrescentou, sem dar datas de quando isso poderá ser realizado.

O governo Trump retirou a maior parte de sua equipe em setembro de 2017, citando misteriosas doenças que atormentavam seus diplomatas. As circunstâncias do mal estar permanecem obscuras, mas as autoridades americanas geralmente culpam a inteligência russa.

Trump, que reforçou o embargo econômico que os Estados Unidos aplicam a Cuba desde 1962 para forçar uma mudança de regime, também suspendeu a transferência formal de dinheiro para Cuba.

Price disse na terça-feira que o Departamento de Estado avaliará maneiras de permitir esse fluxo sem que o governo cubano cobre uma comissão. “Formaremos um grupo de trabalho sobre remessas para identificar as formas mais eficazes de fazer com que cheguem diretamente às mãos do povo cubano”, disse Price, ressaltando querer evitar que as remessas “cheguem aos cofres do regime".

Apesar da promessa, com o controle oficial da taxa de câmbio para pesos, uma moeda internacionalmente não conversível, desviar do governo cubano será uma tarefa complicada.

Durante a campanha eleitoral, Biden considerou reautorizar o envio de remessas a Cuba, mas na semana passada disse que não o faria agora, porque "é muito provável que o regime confisque essas remessas, ou grande parte delas".

Price insistiu que esta sempre foi a preocupação em relação às remessas, segunda fonte de divisas para Cuba depois da exportação de serviços médicos. “É tudo uma questão de encontrar maneiras de apoiar o povo cubano. Mas temos que nos certificar de que essas táticas realmente o apoiem”, explicou.

De Havana, o chanceler Bruno Rodríguez denunciou que “os Estados Unidos estão recorrendo a manobras intervencionistas para intensificar o bloqueio”, segundo nota publicada pelo Ministério das Relações Exteriores na terça-feira.

O ministério disse ainda que os Estados Unidos têm feito uma campanha de "pressão" contra "terceiros países em busca de pronunciamentos contra Cuba". “Essas pressões são dirigidas principalmente aos governos da América Latina”, disse Johana Tablada, vice-diretora-geral dos Estados Unidos no ministério, sem especificar a quais nações se referia.

A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse na terça que o governo Biden está aplicando "ativamente" medidas tanto para apoiar o povo cubano quanto para responsabilizar o "regime cubano" por suas ações. “Isso inclui trabalhar em estreita colaboração com o setor privado e o Congresso para identificar opções viáveis para tornar a Internet mais acessível ao povo cubano”, disse em uma coletiva.

O governo cubano cortou temporariamente os serviços de conexão à Internet e barrou aplicativos enquanto enfrentava protestos internos.

Surto de covid-19

Enquanto os Estados Unidos avaliam mais sanções, o país enfrenta o seu mais grave surto de covid-19. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) afirmou nesta quarta-feira que Cuba registrou "aumentos dramáticos" de casos do vírus, mas esclareceu que a ilha caribenha já apresentava um aumento de contágios desde antes das recentes manifestações de rua.

“Os casos de covid-19 e as mortes estão aumentando em Cuba, onde muitas províncias informam crescimento dramático de novas infecções”, disse a diretora da Opas, Carissa Etienne. Ela acrescentou que a situação é "especialmente aguda" na província turística de Matanzas, onde está Varadero, o principal balneário de Cuba.

O diretor de Emergências em Saúde da Opas, Ciro Ugarte, informou que Cuba registrou o maior número de casos semanais em todo o país desde o início da pandemia, em março de 2020. “Foram notificados mais de 43.000 casos, o que representa um aumento de 21% (em relação à semana anterior), com uma média de 6.199 casos diários”, afirmou, destacando a circulação da variante Delta "em várias províncias do país". / AFP, REUTERS e AP

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