EUA: radicalização impede votação de nova lei de imigração

A radicalização das posições de republicanos e democratas impediu hoje, pela segunda vez em dois dias, a votação no Senado americano da reforma migratória que irá decidir a sorte dos cerca de 12 milhões de imigrantes ilegais que vivem atualmente nos Estados Unidos. Os senadores bem que tentaram elaborar um projeto de lei que agradasse a todos no debate sobre imigração, mas não conseguiram votar a medida de consenso apresentada pelos republicanos Chuck Hagel e Mel Martínez. Também não puderam votar a medida proposta pelo líder da maioria republicana, Bill Frist, que não incluía a legalização dos estrangeiros clandestinos. Agora, o debate só será retomado após um recesso legislativo, que irá durar duas semanas. Ainda não se sabe qual dos projetos terá prioridade. Nesta quinta-feira, a proposta Hagel-Martínez foi amplamente defendida como um bom meio-termo. Caso fosse aprovada, permitiria a legalização de cerca de sete milhões de estrangeiros não documentados e abriria um programa de trabalho temporário para os restantes. Endurecimento O impedimento principal para a aprovação, no entanto, foi um endurecimento da posição dos democratas. Eles teriam recusado as emendas republicanas, que impunham mais restrições. Os democratas culparam os republicanos pela obstrução e os acusaram de incompetentes. "Os republicanos estão em debandada. Bloquearam a reforma migratória, não conseguiram aprovar um orçamento e estão deixando claro que são incompetentes para governar", atacou a oposição, num documento distribuído à imprensa. Os democratas temem ainda o abandono da votação da nova lei após a volta do recesso. O democrata Dick Durbin afirmou não ter "muitas esperanças de que teremos tempo ou vontade de superar o que temos visto nos últimos dias". Em entrevista coletiva, Frist rebateu, dizendo que "o grande problema" da votação foi a intransigência democrata. Ele não quis responder se o plenário do Senado tentará outro debate ainda este ano. "Após nove dias e 400 emendas apresentadas, apenas três vão a debate e votação. Isso é uma farsa", queixou-se Frist. Ele tinha mudado de idéia, aceitando a pauta da Casa Branca e a criação de um programa de trabalhadores temporários. O republicano John McCain, porém, insistiu em um acordo. "Nosso grupo está dedicado a conseguir uma conclusão para essa lei." Casa Branca O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, engrossou o coro das acusações aos senadores democratas, encabeçados por seu líder, Harry Reid. "Pedimos ao líder da minoria no Senado que pare de obstruir o processo, para que a aprovação de uma reforma migratória seja alcançada", disse McClellan, repetindo a opinião do presidente George W. Bush. A realidade política do ano eleitoral americano se choca com os interesses de grupos pró-imigrantes e de países como o México, que defendem a regularização de milhões de estrangeiros que vivem clandestinamente nos EUA. O impasse de hoje no plenário do Senado não surpreendeu Washington, já que a rispidez vinha marcando o debate nas duas últimas semanas. Na quinta-feira, os democratas só deram 39 dos 60 votos necessários para encaminhar a votação definitiva de outro projeto de lei, do republicano Arlen Specter. Contraproposta A contraproposta Hagel-Martínez concedia benefícios e impunha pré-requisitos, criando três categorias de imigrantes ilegais: os que estão há mais de cinco anos nos EUA, os que têm entre dois e cinco anos no país e os que chegaram há menos de dois anos. Depois de aprovada pelo Senado, a reforma ainda terá que ser harmonizada com a do deputado republicano James Sensenbrenner, aprovada em dezembro pela Câmara de Representantes. A medida autoriza a criação de um muro na fronteira com o México, transforma em criminosos os estrangeiros sem documentação e estabelece punições para os grupos que não forem rigorosos no cumprimento da lei. Na próxima segunda-feira, os grupos pró-imigrantes organizarão manifestações nos Estados Unidos, protestando contra a medida de Sensenbrenner e exigindo uma reforma migratória integral.

Agencia Estado,

07 Abril 2006 | 19h29

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