AFP PHOTO / IRIB TV
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EUA reativam sanções ao Irã e forçam europeus a romper negócios bilionários

Punições comerciais americanas, decididas pelo presidente Donald Trump, entram em vigor e afastam companhias como Airbus, Total, Peugeot, Renault e Sanofi de Teerã

Andrei Netto,  CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2018 | 05h00

Empresas europeias já iniciaram sua retirada do Irã, obedecendo às sanções comerciais impostas pelos EUA, que voltaram a existir a partir desta segunda-feira. Pela decisão do governo Donald Trump, companhias que mantenham relações comerciais com governos ou corporações iranianas serão atingidas pelas represálias, mesmo grupos europeus de países aliados, como Airbus, Total, Renault, Peugeot e Sanofi. 

O restabelecimento das sanções basicamente permite que os Estados Unidos imponham duras sanções e punições a empresas ou países que negociarem com o Irã. A primeira leva de sanções afeta setores econômicos como o automotivo, de ouro, aço e outros metais usados na indústria. Depois de 90 dias, um novo lote de sanções recairá sobre o setor petrolífero iraniano. 

Sem que a União Europeia tenha conseguido demover o americano ou proteger seus interesses, as empresas vêm suspendendo suas atividades, assumindo bilhões de euros em prejuízos.

Nesta segunda-feira, horas antes da implementação das sanções, Bruxelas e os governos da França, da Alemanha e do Reino Unido protestaram. Em comunicado conjunto, disseram estar determinados a proteger os interesses de empresas do continente no Irã. 

Entre as medidas evocadas, está a atualização do Estatuto de Bloqueio, criado em 1996, que não reconhece as penalidades jurídicas americanas em caso de embargos unilaterais, protegendo – em tese – companhias europeias. Na prática, apenas pequenas e médias empresas (PME) poderiam ser beneficiadas pela iniciativa de Bruxelas, até aqui jamais aplicada. 

Companhias de setores como o automotivo e o aeronáutico são forçadas a encerrar suas trocas econômicas com o Irã se quiserem evitar o bloqueio do mercado americano a suas atividades, assim como manter o acesso ao crédito em dólar.

Obrigadas a escolher entre o mercado americano, país com o maior PIB mundial, US$ 18,57 trilhões, e de mais de 323 milhões de habitantes, e o Irã, um país com PIB de US$ 393,4 bilhões e 73 milhões de habitantes, a definição foi feita. 

Gigante europeia da aviação, a Airbus anulará os contratos para venda de 106 aviões comerciais a duas companhias iranianas, Iran Air e Zagros Airlines, após ter entregue apenas três unidades do previsto. Assinado em 2016, o acordo original previa a venda de 118 aeronaves – o número foi reduzido ao fim das negociações – por US$ 27 bilhões.

Total, a gigante petrolífera francesa, já havia confirmado que se retiraria do país, da mesma forma que a companhia de energia Engie. “Você não pode dirigir um grupo internacional em 130 países sem acesso ao mundo financeiro americano”, justificou o diretor-presidente da Total, Patrick Pouyanné, referindo-se a uma das punições a quem violar o embargo: a proibição de obter empréstimos e realizar transações em dólares.

PSA, grupo automotivo que reagrupa as marcas Peugeot, Citroën, DS e Opel, também já fez as contas e prevê perdas de € 168 milhões em razão da retirada. A montadora é uma referência do mercado iraniano – com a sua concorrente francesa, a Renault, soma 40% das vendas. A Renault, que havia anunciado planos ambiciosos para o Irã há um ano, também deve suspender suas atividades no país.

Trump afirmou na semana passada estar disposto a negociar com os iranianos, desde que “sem condições prévias”. O presidente americano afirmou também em outra ocasião que espera que as autoridades do Irã entrem em contato com seu governo “muito em breve”, devido às dificuldades que o país enfrenta.

Numa entrevista à televisão estatal iraniana, o presidente Hassan Rohani classificou como “contraditória” a posição de Washington e disse que “não se pode negociar ao mesmo tempo que há sanções.” “Foi Trump e o governo dele que rejeitaram as negociações e voltaram as costas à diplomacia. O que Trump está fazendo é contra a nação iraniana e os interesses nacionais do Irã”, disse .

O assessor de segurança nacional da Casa Branca, John Bolton, disse que o Irã deveria prestar atenção à boa vontade de Trump para negociar. “Eles poderiam aceitar a oferta do presidente para negociar com eles, para abandonar seus programas de mísseis balísticos e armas nucleares completamente e de forma realmente verificável”, disse Bolton à Fox News. “Se os aiatolás querem sair do aperto, deveriam vir e se sentar. A pressão não irá ceder enquanto as negociações seguirem”, disse Bolton. / COM EFE e AFP

 

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