EUA recuam e aceitam dialogar com a Coréia do Norte

Depois de ter alimentado a atual confrontação com a Coréia do Norte, criticando o acordo de não proliferação que a administração Clinton negociou com Pyongyang, em 1994, em troca de ajuda econômica, o governo do presidente Bush admitiu na última terça-feira a abrir um diálogo o regime do líder comunista Kim Jong Il. Num óbvio recuo frente à linguagem dura usada até então, de "não negociação", adotada depois que a Coréia do Norte anunciou sua decisão de ativar um programa de produção de plutônio, o departamento de Estado divulgou um comunicado, ao final de consultas com diplomatas do Japão e da Coréia do Sul, no qual deixa clara a preocupação da administração Bush de encontrar uma saída diplomática para o impasse. Para evitar uma desmoralização, o governo americano enfatizou na nota oficial que não oferecerá nada em troca do estrito respeito, pela Coréia do Norte, de suas obrigações atuais, de manter desativado seu programa nuclear bélico. Mas a atitude de não negociar é mais uma questão semântica. Fontes da administração disseram que os contatos diretos permitirão dar "maior clareza" aos norte-coreanos sobre a posição de Washington. As mesmas fontes informaram também que diplomatas americanos estabeleceram os caminhos para continuar as discussões, que incluem a possibilidade de oferecer incentivos à Coréia do Norte, caso Pyongyang responda de forma positiva à disposição americana ao diálogo. "Dependendo do que eles disserem, poderemos responder", disse um outro funcionário, ao Washington Post. Ele indicou que embora não estejam sobre a mesa neste momento, ofertas de reinício do fornecimento de petróleo e sobre outras exigências, suspensas semanas atrás, depois que a Coréia do Norte revelou ter continuado um programa nuclear paralelo, poderão entrar na pauta se houver uma atitude de cooperação do outro lado. Os contatos indiretos entre representantes dos dois países, que já começaram secretamente, devem ocorrer ainda este mês. Esta saída representa um afrouxamento das condições sob as quais o governo Clinton trouxe os norte-coreanos à mesa de negociação. "Nós dissemos ao norte-coreanos que nosso objetivo não era derrubar seu regime, mas que não toleraríamos que eles se armassem com a bomba atômica", lembrou na semana passada Ashton Carter, um dos conselheiros de defesa de Clinton, que negociou o tratado de 1994. Sem meias palavras, Washington disse então que atacaria o reator de Yonbyon se Kim Jong Il desrespeitasse o trato, que incluía, em troca, o fornecimento de combustível e alimentos para o país. "A administração Bush fez o oposto: durante (os últimos) dois anos, sinalizou que queria derrubar o regime, mas agora que o país está prestes a obter armas nucleares, eles dizem que não se trata de uma crise". Para Carter, "isso produz o inverso do que seria o interesse americano" na península coreana.Bush, que disse no ano passado, em entrevista ao jornalista Bob Woodward, do Post, ter uma antipatia visceral pelo líder norte-coreano, comparável à que nutre pelo presidente do Iraque, Saddam Hussein, afirmou esta semana que os EUA "terão um diálogo" com a Coréia do Norte e não têm "nenhum intenção hostil" em relação ao país. Na semana passada, Pyongyang anunciou a expulsão de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica. A busca de uma acomodação com a Coréia do Norte contrasta e tem motivado crítica à estratégia de Bush em relação ao governo de Bagdá. O Iraque é alvo provável de um ataque maciço por forças americanas e inglesas, nas próximas semanas, apesar de ter feito o oposto dos norte-coreanos e aceitado a visita de centenas de inspetores da ONU, que vasculham o país em busca de armas de destruição em massa.

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