AP Photo/Molly Riley
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EUA recuam em defesa de direitos humanos

Governo Trump dá indícios de que romperá tradição de administrações anteriores de condenar violações e defender a imprensa independente

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2017 | 05h00

WASHINGTON - Quando a rádio Free Europe perguntou a posição do Departamento de Estado de Donald Trump sobre a detenção de um parlamentar de oposição no Quirguistão, a resposta não veio acompanhada da tradicional condenação de prisões de natureza política e defesa de princípios democráticos. Depois de dizerem que estavam “cientes” da situação, os diplomatas orientaram o jornalista a consultar as autoridades do Quirguistão sobre o caso.

A relutância da administração em censurar a detenção é um dos os indícios de que o governo Trump não está interessado na tradição americana de se apresentar como líder global na defesa dos direitos humanos. Ainda que imperfeita, ela teve um papel central na política externa do país, na forma de pressão retórica contra violações e programas de apoio à sociedade e à imprensa independente.

A mudança de orientação do governo foi evidenciada na sexta-feira pela ausência do secretário de Estado, Rex Tillerson, na apresentação do relatório anual do governo americano sobre a situação dos direitos humanos no mundo. A primeira edição no governo Trump foi apresentada em conferência telefônica por um funcionário que falou de maneira anônima.

O relatório é elaborado há 41 anos por exigência do Congresso. A carta com a qual Tillerson enviou o documento aos parlamentares é protocolar e contrasta com o tom de seu antecessor, John Kerry, que condenou ataques à liberdade de imprensa e ameaças ao Judiciário.

“O presidente Trump indicou sua hostilidade em relação à promoção de direitos humanos ao redor do mundo”, observou a cientista política Courtenay Conrad, professora da Universidade da Califórnia em Merced. Segundo ela, o governo estuda a adoção de uma moratória nas obrigações dos EUA em relação a tratados de defesa de direitos humanos e já indicou que pretende cortar financiamento para agências da ONU. Na semana passada, o governo americano já indicou que poderá abandonar o Conselho de Direitos Humanos da instituição.

Sarah Margon, diretora da ONG Human Rights Watch em Washington, disse que a nova posição reflete a política da “América em primeiro lugar” declarada por Trump já no discurso de posse.

“Parece haver uma tentativa de estabelecer relações transacionais, pelas quais os Estados Unidos conseguem o que querem e voltam para casa, sem preocupação com o bem-estar ou desenvolvimento de outros países”, afirmou.

Segundo ela, a promoção dos direitos humanos foi tradicionalmente apoiada pelos dois grandes partidos americanos. “O que vemos na Casa Branca de Trump é totalmente diferente. Há um esforço para mudar a ordem internacional e rejeitar normas e padrões que orientaram a comunidade internacional por décadas.”

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