EUA reduzem ajuda ao Egito para pressionar por regime civil e eleições

Os EUA anunciaram ontem que cortarão grande parte da bilionária ajuda militar ao Egito, confirmando informações que circulavam desde terça-feira à noite. A medida representa uma mudança significativa na política americana para a região. Antes do anúncio oficial, Israel havia feito um apelo para que o governo de Barack Obama não desse esse passo e mantivesse o apoio aos generais do Cairo na luta contra grupos islâmicos.

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2013 | 02h11

A medida de Washington é uma represália à onda de repressão a militantes da Irmandade Muçulmana desde a queda do presidente Mohamed Morsi, no início de julho. Por meio de um comunicado à imprensa, a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Jen Psaki, afirmou que Washington suspendeu o envio de "material militar pesado e de sua ajuda em dinheiro ao governo (egípcio), à espera de um progresso real em direção a um regime civil inclusivo, democraticamente eleito, e a eleições justas".

A diplomacia americana enfatizou que não cortará toda a ajuda. A cooperação em setores como contraterrorismo e luta contra a proliferação de armas de destruição em massa, além do apoio à segurança na Península do Sinai - que faz fronteira com Israel -, serão mantidos intactos, garantiu Washington.

Segundo fontes do Congresso americano informadas pelo Departamento de Estado sobre a decisão, o governo Obama deixará de entregar ao Egito várias armas de última geração cujos contratos já estavam concluídos: tanques M1A1 Abrams, caças F-16, helicópteros Apache e mísseis Harpoon. Além disso, os EUA suspenderão uma transferência direta de US$260 milhões e um empréstimo de US$300 milhões ao governo do Cairo.

Após o golpe contra o primeiro presidente eleito democraticamente no Egito, várias figuras-chave do governo americano teriam passado a defender o corte parcial da ajuda financeira aos militares do Cairo. Em agosto, Obama supostamente esteve prestes a anunciar a suspensão parcial, mas o uso de armas químicas na Síria tirou da agenda a crise egípcia. A morte de 50 manifestantes da Irmandade, no fim de semana, teria feito o presidente decidir pela "punição" aos generais do Cairo.

Com a assinatura dos acordos de paz com Israel, em 1979, o Egito tornou-se um dos principais beneficiários da ajuda militar dos EUA. A cifra atual chega a US$1,3 bilhão, além de outras centenas de milhões de dólares em ajuda não militar. O dinheiro às Forças Armadas é usado pelo Egito principalmente para a compra de material bélico americano e manutenção do equipamento.

Amigos. Os principais aliados estratégicos dos EUA no Oriente Médio, Israel e Arábia Saudita, opunham-se desde o início à ideia de cortar a ajuda militar ao Egito e, nos bastidores, manifestaram frustração com o anúncio de ontem do Departamento de Estado. "Se os EUA são vistos como alguém que vira as costas ao Egito, um velho amigo, como ficará a imagem americana? As pessoas veem isso como os EUA desistindo de um amigo", disse uma fonte do governo israelense citada, em condição de anonimato, pelo New York Times. Segundo ela, as implicações vão muito além das relações entre Israel e Egito e envolvem o conjunto da política externa americana na região.

Questionado sobre o tema, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, disse, na semana passada, que só falaria "de maneira geral", completando que a paz entre Israel e Egito tem por base o apoio de Washington aos militares egípcios. O ministro de Assuntos Estratégicos de Israel, Yuval Steinitz, recusou-se ontem a comentar a decisão de Obama, mas disse: "Acho que é preciso fortalecer e apoiar o Egito, falando de um modo geral".

O anúncio dos EUA foi feito enquanto o ministro da Defesa de Israel, Moshe Yalon, visitava Washington. Ele se reuniu com seu homólogo, o chefe do Pentágono, Chuck Hagel.

Na semana passada, o presidente interino do Egito, Adli Mansour, apontado pelos militares, havia sido recebido na Arábia Saudita, que prometeu ampliar o apoio aos militares egípcios na luta contra a Irmandade. / NYT, AP e REUTERS

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