EUA reveem estratégia de bases

Novo acordo com a Colômbia reforça a tese de que Pentágono busca presença global menos ostensiva

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

O acordo que formaliza a ampliação da presença americana na Colômbia pode ser o novo indício de uma mudança estratégica paulatina que ocorre nos EUA. E essa transformação vai muito além do território colombiano. Contra as críticas ao pacto com Bogotá, o presidente Barack Obama deu garantias de que não haverá "nenhuma base" dos EUA na Colômbia. Para analistas, o caso tornou-se mais um exemplo de uma tendência na presença americana mundo afora: as tradicionais bases e complexos militares devem perder força para uma ocupação mais discreta e diminuta.O novo modelo é o de "bases vitórias-régias" - lugares simples e com poucos funcionários, cuja posse formal pode ser dos EUA ou de aliados. A estratégia foi esboçada pela primeira vez em um estudo do Pentágono pouco após o 11 de Setembro. O nome "vitória-régia" viria da delicadeza da planta aquática, apoio temporário para sapos e insetos. Desde 2004, a base de Manas, no Quirguistão, serve como "protótipo" do projeto.Além de reduzir tensões locais, instalações como as "vitórias-régias" permitem aos EUA e a aliados dizer que "não há base americana", explicou ao Estado David Vine, autor de Island of Shame (Ilha da Vergonha), sobre a ocupação dos EUA em Diego Garcia, no Oceano Índico, onde a população local foi expulsa para a construção de instalações. "Tecnicamente é verdade. Mas, na prática, há uma base incipiente."PACTOSegundo EUA e Colômbia, militares e funcionários americanos permanecerão em bases colombianas e responderão a Bogotá. A presidente argentina, Cristina Kirchner, ironizou: "Em nenhum lugar do mundo um general Fernandez dará ordens a um general Johnson!"Internamente, o governo Álvaro Uribe insiste que o pacto "é uma ampliação de acordos preexistentes" para evitar ter de submetê-lo à aprovação do Congresso. Como no Brasil, a lei colombiana exige que acordos internacionais sejam aprovados por maioria qualificada no Congresso, sendo passíveis de veto pela Suprema Corte.A guinada na presença global dos EUA, porém, está em estágios iniciais. Com o fim da Guerra Fria, os EUA reduziram em 60% o número de bases no exterior. Ainda assim, hoje a cifra chega a 865, consumindo US$ 250 bilhões por ano, diz Miriam Pemberton, do Institute for Policy Studies. Do 1,4 milhão de militares americanos na ativa, mais de um terço está fora dos EUA, divididos em cinco comandos regionais."Vitórias-régias" têm por objetivo principal reduzir controvérsias e ressentimentos causados pela presença americana. A principal lição viria das bases dos EUA instaladas na Arábia Saudita - onde estão os dois lugares mais sagrados do Islã - pouco antes da Guerra do Golfo, em 1991. A presença dos "infiéis" a quilômetros de Meca e Medina deu um poderoso argumento a grupos radicais como a Al-Qaeda e, após 12 anos, o Pentágono decidiu se retirar.Antes de Riad, a pressão popular nas Filipinas havia feito com que os EUA partissem em 1991, após 89 anos de ocupação. Em março de 2008, no Equador, a Assembleia Constituinte proibiu a presença americana, obrigando o desmantelamento da base de Manta. Grupos na Alemanha e Japão, os dois países com maior número de bases americanas, também pressionam pela retirada.Os exemplos demonstram que a animosidade política causada pelo acordo Washington-Bogotá não é um fato isolado, mas um fenômeno recorrente e global, afirma o sociólogo da Universidade George Mason Hugh Gusterson, especialista na cultura militar dos EUA. Ele defende que a imunidade de soldados americanos às leis dos países-sede - condição que será mantida no novo acordo entre EUA e Colômbia - inflama ainda mais a polêmica. Na Colômbia, o debate sobre esse status veio à tona há dois anos, quando dois militares americanos supostamente estupraram uma menina de 12 anos dentro de uma base. Eles voltaram aos EUA e não foram a julgamento.A questão seria ainda mais delicada em relação a seguranças privados contratados pelo Pentágono, os quais nem sequer estão submetidos à lei militar americana. "Estes estão num verdadeiro ?buraco negro? jurídico", afirma Gusterson.

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