Demiroren News Agency / AFP
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Prisão de jornalista partiu de príncipe saudita, diz jornal

‘Washington Post’ diz que Jamal Khashoggi foi atraído ao consulado, preso e enviado à Arábia Saudita, segundo inteligência dos EUA

O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2018 | 11h14

WASHINGTON - O jornal The Washington Post, informou ontem que o príncipe saudita, Mohamed bin Salman, ordenou uma operação para atrair o jornalista Jamal Khashoggi ao consulado em Istambul, prendê-lo e enviá-lo de volta à Arábia Saudita. As informações foram passadas por fontes de inteligência dos EUA, que teriam interceptado conversas sobre o plano.

Segundo o jornal americano, que cita uma fonte anônima, os funcionários sauditas queriam prender Khashoggi, “apesar de não estar claro se tinham intenção de interrogá-lo ou matá-lo”. O Post disse não saber se o governo americano alertou Khashoggi sobre o plano, apesar de o serviço de inteligência ter “a função de alertar” as pessoas que podem ser sequestradas, feridas ou mortas, segundo uma lei de 2015.

O jornalista se distanciou da monarquia saudita no ano passado, depois da ascensão do príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, e se exilou nos EUA, onde começou a escrever colunas com críticas ao governo do reino árabe para o Post.

Ele disse a amigos que nos últimos quatro meses funcionários sauditas ligados ao príncipe lhe telefonaram oferecendo proteção e mesmo um cargo de alto nível no governo se ele retornasse à Arábia Saudita. No entanto, Khashoggi, não acreditou nas ofertas.

O jornalista desapareceu no dia 2 em Istambul, na Turquia, para onde viajou com o objetivo de se encontrar com sua noiva turca, Hatice Cengiz. Ele visitou o consulado saudita na cidade para obter documentos necessários para seu casamento.

Não há notícias de Khashoggi desde que ele entrou na representação diplomática saudita – sua noiva o aguardava do lado de fora do prédio e diz que ele nunca saiu. Isso fez com que surgissem várias especulações sobre o caso

Ex-funcionários de inteligência dos EUA disseram, sob condição de anonimato, que os detalhes da operação – que envolveu duas equipes com 15 homens    em dois aviões particulares que chegaram à Turquia e partiram em horários diferentes – têm sinais do que eles chamam de “rendição”, na qual alguém é removido de um país ilegalmente e levado para interrogatório em outro.

Em coluna publicada na edição impressa desta quarta-feira, 10, do Washington Post, Hatice afirma que pediu ao presidente americano, Donald Trump, e à primeira-dama, Melania Trump, que ajudem a "lançar luz" sobre o desaparecimento de seu noivo.

"Jamal é uma pessoa valiosa, um pensador exemplar e um homem valente que estava lutando por seus princípios. Não sei como posso seguir vivendo se ele foi sequestrado ou assassinado na Turquia", afirmou Hatice.

Trump disse, no começo da semana, que estava “preocupado” com o desaparecimento de Khashoggi. “Não gosto de ouvir sobre isso e espero que se resolva. Neste momento, ninguém sabe nada e há algumas histórias muito ruins. Isso não me agrada”, afirmou Trump.

A Turquia, por sua vez, aumentou a pressão sobre a Arábia Saudita para que o paradeiro do jornalista seja esclarecido. O Ministério das Relações Exteriores turco anunciou, na terça-feira, que “o consulado será revistado no âmbito das investigações”, depois que o chefe da missão deu autorização, uma exigência obrigatória, pois as delegações diplomáticas são invioláveis, segundo a Convenção de Viena.

As acusações contra a Arábia Saudita pelo assassinato de um jornalista em seu próprio consulado em Istambul forçam Trump a assumir uma posição mais dura com um importante aliado regional. 

O relacionamento com a Arábia Saudita é uma das prioridades de Trump, que escolheu o país para sua primeira viagem ao exterior após assumir o cargo e defendeu-o em sua disputa diplomática com o Catar, a ponto de contradizer a posição do Departamento de Estado dos EUA.

Trump tem permanecido em silêncio sobre questões de direitos humanos, em um momento no qual os EUA apoiam a campanha liderada da Arábia Saudita contra os rebeldes no Iêmen, que, de acordo com um relatório da ONU, já matou milhares de civis. 

Além disso, Trump apoiou o príncipe Mohamed quando ele deteve dezenas de pessoas em uma campanha de repressão contra dissidentes lançada desde que foi designado herdeiro, em junho de 2017.

Nesta quarta-feira, uma TV turca exibiu imagens das câmeras de segurança que mostram o jornalista entrando no consulado às 13h14. Nas proximidades é possível observar uma caminhonete preta. As imagens seguintes mostram o veículo entrando no consulado. 

Após deixar o local às 15h08, a caminhonete seguiu, de acordo com a 24 TV, para a residência do cônsul, próxima à representação diplomática. O diretor de redação do jornal Aksam, Murat Kelkitlioglu, disse, ao apresentar as imagens, ter certeza de que o jornalista foi transportado neste veículo, vivo ou morto. 

A polícia turca revelou que um grupo de 15 sauditas, entre eles um médico legista militar, viajou – ida e volta – a Istambul e foi ao consulado no dia do desaparecimento do jornalista./ EFE e AFP

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