Benoit Tessier/REUTERS
Benoit Tessier/REUTERS

EUA são aliados perigosos

Como no comércio, a política de alianças será moldada pela diplomacia “just in case”

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2021 | 05h00

“America is Back.” “Os Estados Unidos estão de volta”, afirmou o emocionado Joe Biden. Ele se dirigia aos líderes políticos, principalmente aos europeus, que participaram de um recente encontro sobre segurança internacional que ocorreu, via videoconferência, em Munique. “A aliança transatlântica está de volta”, enfatizou o recém-empossado presidente.

Nessa audiência, a mensagem foi, é claro, muito bem recebida. Angela Merkel, Emmanuel Macron e Boris Johnson deixaram clara a satisfação com a nova posição do EUA. Em seu discurso, Biden renovou energicamente o compromisso de seu país com o Artigo 5.º da Otan. Este artigo obriga os países-membros da aliança militar a responder coletivamente a um ataque contra um de seus membros. Durante seu mandato, Donald Trump se absteve repetidamente de reconhecer em público que, por ser membro da Otan, seu país aceitava essa obrigação. Naturalmente, esta reticência de Trump provocou ansiedade nas capitais europeias e alegria no Kremlin.

Isso mudou com a chegada de Biden à Casa Branca. O presidente americano usou seu discurso na Conferência de Munique para que não restassem dúvidas a respeito da posição de seu governo em relação ao Artigo 5.º, “o ataque a um é um ataque a todos” disse Biden, prometendo que seu país honraria seus compromissos.

Como presidente, Donald Trump desdenhou do multilateralismo, da construção de alianças e da diplomacia que, segundo ele, eram perdas de tempo. Em vez disso, privilegiou suas relações pessoais com os líderes de países como China, Rússia, Arábia Saudita ou Coreia do Norte. Não conseguiu muito e, no geral, deixou a relação dos EUA com esses países muito deteriorada.

Por outro lado, tanto Biden quanto sua equipe repetem, sempre que podem, que as alianças serão o pilar de sua política externa. Veem a diplomacia como principal instrumento do qual dispõem para avançar na conquista de seus objetivos nacionais. Segundo eles, atacar com sucesso a pandemia, as mudanças climáticas, a crise econômica ou impedir que o Irã tenha armas nucleares exige um trabalho em conjunto com países aliados.

Da perspectiva de Biden e seu governo, o slogan de Trump, “EUA primeiro”, acabou se tornando “EUA sozinhos”. De acordo com eles, a posição de Trump serviu apenas para isolar o país, ceder espaços geopolíticos que foram ocupados por China e Rússia, e descobrir que o poder militar e econômico dos EUA é importante, mas não o suficiente para conquistar seus objetivos internacionais.

Aliados em potencial desejam trabalhar em conjunto com os EUA na busca de interesses comuns. Não há dúvida de que essas alianças reforçadas são necessárias. Os problemas globais imunes às respostas locais estão se proliferando e com eles a necessidade de os países agirem de forma coordenada.

Infelizmente, a construção de tão necessária rede de alianças internacionais liderada por Washington terá uma grande limitação: a volatilidade da política interna dos EUA.

O que acontece com um país que, entusiasmado com Biden, mergulha fundo em sua aliança com os EUA e quatro anos depois descobre que as eleições trazem ao poder um novo presidente americano que não conhece seus deveres de aliado? Essa questão está muito presente nas mentes dos responsáveis pela política externa dos países que Washington precisa como aliados. Nas conversas nos corredores virtuais da Conferência de Munique, a questão mais urgente não era se os EUA estavam de volta. A questão polêmica era – e ainda é – quanto tempo esse retorno vai durar.

É muito interessante ver diplomatas de alto escalão imitando altos executivos de empresas multinacionais. Desde o final da década de 90, os empresários construíram cadeias de suprimentos complexas e altamente eficientes, começando na China e desembocando nos mercados finais em todo o mundo. Essas cadeias permitiram às empresas reduzir drasticamente seus estoques. As práticas de logística “just in time” (na hora certa) tornaram-se universais na gestão de estoque. Para reduzir custos, os suprimentos chegam com grande rapidez e precisão ao destino, bem no momento em que são necessários, para a fabricação do produto final.

A guerra comercial declarada de Trump contra a China criou todos os tipos de dores de cabeça nas cadeias de abastecimento globais. Assim, empresas que dependem de ter estoque “na hora certa” descobriram que era perigoso colocar todos os ovos naquela cesta. Para mitigar esse risco, os executivos se viram obrigados a equilibrar o princípio de “just in time” com o de “just in case” (em que existe estoque sempre para ser usado quando for preciso). Muitos foram forçados a investir no desenvolvimento de relacionamentos com outros fornecedores, por mais caros que fossem.

Os líderes empresariais entenderam que, por mais que queiram que os EUA criem estabilidade e não desequilíbrios, nem sempre será assim. Os líderes políticos certamente os imitarão. A política de alianças será moldada pela diplomacia “just in case” (por precaução). / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT

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