EUA são criticados na cúpula da FAO

Os EUA foram hoje o principal alvo das críticas e Cuba liderou as reivindicações dos países pobres por um maior acesso aos mercados internacionais como única forma de acabar com a fome no mundo - tema da reunião de cúpula da organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), que se realiza em Roma. Os EUA foram criticados por sua iniciativa de aumentar os subsídios à agricultura americana e por serem o país que menos ajuda destina à luta contra a fome, apesar de serem a maior economia do mundo. Canadá, México, Argentina e Bolívia, entre outros países que integram o grupo de Cairns - que representam 25% do comércio agrícola mundial - acusaram Washington de não cumprir os compromissos assumidos na IV Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Doha (Catar), em dezembro do ano passado. "Queremos dirigir uma enérgica mensagem aos EUA, para que renovem seus compromissos assumidos nas negociações da OMC", resumiu o ministro da Agricultura do Canadá, Lyle Vanclief. Os subsídios não são a solução para derrotar a fome ou a pobreza e, ao contrário, impedem o crescimento no mundo em desenvolvimento, disseram os representantes do grupo de Cairns em um duro ataque contra a "Farm Bill", a lei americana que aumenta a ajuda a seus próprios agricultores. Os representantes argentino, Rafael Delpech, e brasileiro, Vinicius Pratini de Moraes, não só denunciaram a política americana como também sugeriram a suspensão de todas as negociações sobre outros temas no âmbito da OMC para que Washington modifique sua posição. Pratini de Moraes advertiu que os subsídios acabarão custando ao mundo uma recessão muito maior do que a que já está ocorrendo e recordou que os acordos de Doha estipulavam claramente sua eliminação. Ao mesmo tempo, a delegação dos EUA enfrentou uma verdadeira "guerra de cifras" com a União Européia (UE) para demonstrar qual dos dois protege mais sua agricultura em detrimento do resto do mundo. O secretário de Agricultura americano, Alan Larson, sustentou que a UE gasta muito mais do que os EUA para sustentar sua produção agrícola e, para confirmá-lo, mostrou um gráfico. Segundo Larson, os EUA dão forte apoio à eliminação dos subsídios para os produtos agrícolas de exportação e à redução dos destinados ao mercado interno, mas os participantes da cúpula, em sua maioria, se mostraram céticos a esse respeito. As críticas aos EUA não se referiram apenas ao tema do protecionismo, que derruba as aspirações dos países agrícolas - a maior parte dos países mais pobres do planeta -, mas também à constatação de que é o país que menos ajuda oferece, em proporção com seu PIB, contra a fome no mundo. Curiosamente, coube a um economista americano, Jeffrey Sachs, que interveio hoje na cúpula da FAO, verbalizar a acusação contra a política promovida por seu país. Em sua intervenção, Sachs destacou que os EUA - a maior economia do mundo - são o último país na lista mundial de ajuda, aplicando no combate à fome apenas 0,1% de seu PIB. O economista assessora o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, no "Programa contra a Fome". Sachs usou como exemplo o que doa um economista professor na Universidade de Columbia para combater a desnutrição e a pobreza: dez centavos por cada US$ 100 que ganha. Recentemente, os EUA declararam sua intenção de elevarem sua ajuda de 0,1 para 0,15 por cento de seu PIB - uma cifra muito inferior, segundo a UE, à que os países europeus doaram nos últimos anos: entre 0,3 e 0,39 de seu PIB. Em defesa dos países pobres, o chanceler cubano, Felipe Pérez Roque, disse que a fome no mundo não acabará enquanto os países ricos continuarem controlando um sistema econômico que, ele alega, priva 800 milhões de pessoas do pão de cada dia. "A principal causa desse genocídio é a imposição global por parte de um rico e privilegiado grupo de países, de um sistema internacional de relações econômicas que prova ser crescentemente injusto e causa da exclusão (dos demais), e que de fato é insustentável", disse Pérez Roque. O chanceler cubano não se referiu diretamente aos EUA, dirigindo-se aos países ricos de modo geral em defesa dos mais pobres.

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