EUA se aproximaram de "Estados indesejáveis"

Então George W. Bush não é um cretino, ao contrário do que a França e uma parte da Europa acreditavam. Sem dúvida, não é um Lincoln,um Roosevelt nem sequer Kennedy, mas sua ação, desde 11 de setembro, não foi calamitosa. Ele disse besteiras, obviamente, mas quem não disse nessa época do ano?Seja pelo próprio Bush ou pelo sutil Colin Powell, os Estados Unidos conseguiram evitar represáliascoléricas e cegas. Eles têm tido a sabedoria, o sangue-frio, de não se apressarem. E conseguiram isolar o Afeganistão, construindo uma coalizão de Estados, inclusive Estados muçulmanos,que se engajaram ? em níveis variáveis, é verdade ? na luta contra os terrorismos islamitas.Proeza que merece admiração. Mas merece também ansiedade. O golpe audacioso dos Estados Unidos(cercar o Afeganistão por todos os lados) teve êxito, mas pelo mais alto preço. Na realidade, foi graças auma patética revisão de todos os seus princípios que a diplomacia americana obteve esse sucesso (algunsdos quais, aliás, continuam frágeis).Ainda há três semanas, um dos leitmotiv sacrossantos da diplomacia de Washington era que havia na Terra?Estados indesejáveis? (?rogue countries?) com os quais não se devia cooperar. Esses ?Estadosindesejáveis? deveriam, até mesmo, ser tratados como suspeitos, quando não como inimigos.A lista desses ?Estados indesejáveis? (Estados ?terroristas?, dizia-se também) havia sido divulgada porWashington. Era exatamente contra eles que Bush tinha imaginado seu projeto de ?escudo antimísseis?, tãocontroverso.Ora, percebe-se hoje que esses ?Estados indesejáveis? (Irã, Líbia, Coréia do Norte, Cuba, Sudão) nãomais parecem ser, aos olhos da Casa Branca, ?indesejáveis?. Ou melhor: os Estados Unidos solicitam debom grado o apoio dos indesejáveis na luta contra os terroristas.É preciso dizer que os ?indesejáveis? têm sido muito honrados. A maior parte deles denunciou osatentados em Nova York (inclusive o Sudão, chefe dos indesejáveis, país que abrigou Bin Laden e que foicúmplice dos atentados de 1998 contra as embaixadas americanas).Se examinarmos atentamente a atividade diplomática de Washington, nos últimos quinze dias, ficaremosestupefatos. O Departamento de Estado enviou um de seus dirigentes a Cuba. O secretário de Estado,Colin Powell, telefonou para seu homólogo sudanês, Mustafa Omar Ismail. Agradeceu publicamente ao presidente sírio, Bachar El Assad.Obviamente, entre os ?grandes indesejáveis? figurava o Irã. O Irã, mesmo vinte anos depois da Revoluçãoislâmica de Khomeiny (xiita), é acusado pelos Estados Unidos de apadrinhar o Hezbollah, grupo xiitahiperviolento com base no Líbano e que teria cometido, em 1996, um atentado em frente à base militar deKhobat, em Dahran, na Arábia, atentado em que 19 americanos foram mortos.Ora, esse mesmo Irãtorna-se, hoje, freqüentável. É verdade que o presidente do Irã, Mohammed Khatami, é um moderado quetenta livrar seu país do abraço mortal dos islamitas xiitas. E, de fato, Kathami reagiu muito rapidamentecontra os horrores em Nova York (?é preciso erradicar o terrorismo?, disse Khatami, frase que Powellconsiderou interessante).O Irã é uma carta importante na estratégia americana de cerco dos talebans (Afeganistão). Na verdade, oIrã é de rito xiita, enquanto o Afeganistão é de tradição sunita.Outro interesse em relação ao Irã: seuterritório constitui, para os Estados Unidos, o acesso mais direto à Ásia central e ao Mar Cáspio.Certamente, para a Casa Branca, é meio delicado enviar um emissário ao Irã, que foi tão energicamentediabolizado e odiado pela América.Mas Washington sabe usar seus aliados ocidentais: o ministro dasRelações Exteriores da Grã-Bretanha, Jack Straw, foi segunda-feira a Teerã. Há dois anos isso nãoacontecia. Na próxima semana, uma delegação de alto nível da União Européia deve ir a Teerã.A diplomacia americana também relaxou com o ?leste? para isolar o Afeganistão em suas outras fronteiras.Há ali dois Estados enormes, a Índia (hinduísta) e o Paquistão (muçulmano), que Washington teriaforçosamente que incorporar à sua ?cruzada?.No que diz respeito à Índia, não há a menor dificuldade. Emcompensação, separar o Paquistão de seus protegidos, os talebans do Afeganistão, foi bem trabalhoso.Mas era indispensável o Paquistão, padrinho dos talebans, que constitui uma formidável ?retaguarda? paraos islamitas.Washington foi obrigado a pagar um alto preço. Não se tem conhecimento da lista exata degentilezas feitas por Washington a Islamabad. Não temos dúvidas de que essa lista é longa. Washington desde já revogou as sanções que atingiram oPaquistão (e sua irmã inimiga, a Índia), quando esses dois países se dotaram da bomba nuclear, por serem?bons Estados indesejáveis?.Poderíamos continuar a fazer uma série de enumerações. Seria precisoconsiderar concessões feitas por Washington à Rússia (por um acordo de cavalheiros, a Rússia foiautorizada a fazer o que quiser na Chechênia, desde que ela ajude os Estados Unidos em sua luta contra ostalebans).Seria preciso pensar também nas generosidades de Washington com o Uzbequistão, ex-província daUnião Soviética, hoje independente, país muçulmano, muito agitado pelos grupos islamitas e, no entanto,engajado (pelo menos teoricamente) na cruzada antitaleban.A lição é clara: diante da urgência e da necessidade, em duas semanas os Estados Unidos modificaramde alto a baixo sua diplomacia.Certamente, era indispensável fazer essas revisões, se os Estados Unidos querem que os talebans sejamisolados de todos os seus suportes islamitas ou simplesmente muçulmanos.Sim, era indispensável, mas opreço que Washington teve que pagar por essa reorganização de todo o seu sistema de segurança tem umpeso muito alto, realmente esmagador, e corre o risco de influenciar durante anos todo o cenário geopolíticodo mundo.

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