''EUA se envolveram numa guerra civil no Afeganistão''

Oito anos após o 11 de Setembro, missão afegã tornou-se uma 'escolha' de Washington, diz especialista americano

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Ao contrário do que diz o presidente Barack Obama, a missão no Afeganistão não é uma "guerra por necessidade". A operação, rebate Richard Haass, presidente do Council on Foreign Relations - um dos mais influentes think-tanks (centros de pesquisa) dos EUA -, "é agora uma guerra por escolha". Funcionário dos governos George Bush pai e filho, Haass participou das duas guerras do Iraque, experiência que narra em seu novo livro, War of Necessity, War of Choice (Guerra por necessidade, guerra por escolha). Por telefone, ele falou ao Estado.

O sr. afirma que, após o 11/9, a guerra do Afeganistão era necessária, mas hoje ela se tornou uma escolha. Por quê?

Em 2001, os EUA tinham de remover o governo Taleban por causa do apoio que o grupo deu aos ataques e à Al-Qaeda. Era preciso evitar novos atentados e, por isso, a invasão foi um ato de autodefesa. No entanto, hoje no Afeganistão há um governo aliado e, mesmo com o Taleban ganhando terreno, não acredito que militantes estejam prestes a controlar o país. Diferentemente da situação pós-11/9, temos uma série de opções, tanto no campo militar quanto no diplomático, para lidar com as ameaças no Afeganistão. Assim, o que fazemos no país é uma questão de escolha e não de necessidade.

O sr. acredita que os EUA se envolveram, novamente, numa guerra civil.

Sim, nos tornamos parte da guerra civil afegã e isso é uma evolução crucial.

Obama claramente desmantelou a chamada "guerra ao terror" formulada por Bush. Mas, em seu lugar, há uma estratégia coerente na luta contra o terrorismo?

Acredito que não. Hoje temos elementos esparsos: ataques contra membros da Al-Qaeda e de outros grupos no Afeganistão e Paquistão, um grande investimento em inteligência e segurança interna, entre várias medidas. Existe um conjunto de políticas contra a ameaça. Como ficou claro no discurso de Obama no Cairo (em junho), há uma tentativa de desencorajar muçulmanos de se tornar radicais. Muitas vezes o mais interessante não é lutar contra terroristas, mas dissuadir pessoas de apelar ao terrorismo. Isso envolve coisas como educação e oportunidades econômicas. Não é uma guerra, mas uma competição de ideias.

O governo Bush tinha um plano muito claro - alguns diriam simplista - sobre o que os EUA deveriam fazer no Oriente Médio. Existe algum princípio norteador da política de Obama para a região? Pode haver uma "doutrina Obama"?

Acho que não. E isso em parte é bom, pois não é viável ter um único princípio. Eu não concordava com a ideia de que a promoção da democracia era a resposta correta à questão do Oriente Médio. Esse raciocínio trouxe sérios problemas para os EUA. Atualmente, há uma política para o Irã, outra para o Iraque, outra ainda para a questão palestino-israelense e assim por diante. Não temos uma única visão e acho que isso é um reflexo da realidade.

Se o sr. não concordava com a guerra do Iraque, por que não deixou o governo de George W. Bush antes da invasão?

Não me demiti porque, apesar de discordar, compreendia a lógica da decisão de ir à guerra. Como muitos, pensava que iraquianos detinham armas químicas e biológicas à época. Minha oposição à guerra foi silenciada pois acreditava nisso e, obviamente, estava errado. Se soubesse em 2002 o que sabemos hoje, teria deixado o governo.

E o que o fez renunciar?

Não foi apenas um ponto, mas um conjunto de coisas. Discordava em praticamente todos os assuntos relevantes da agenda externa do governo.

Como o sr. acredita que a decisão de invadir o Iraque entrará para a história? Como ela será lembrada?

Ainda que a dimensão dessa resposta dependa de como o Iraque estará dentro de 5, 20 ou 50 anos, acredito que a história julgará de maneira muito crítica a decisão de ir à guerra e o modo como ela foi conduzida.

Com Obama, pode haver alguma mudança na política dos EUA para a América Latina?

Creio que não. A importância do Hemisfério Ocidental continuará centrada na economia. Nesse sentido, o desenvolvimento de relações com países-chave, como México e Brasil, é fundamental. Há também uma certa preocupação com os rumos tomados pela Venezuela. Mas não creio em uma mudança fundamental.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.