EUA subestimaram união entre Farc e o narcotráfico

Em reunião com brasileiros, em 1988, americanos colocaram em dúvida poder de aliança na Colômbia

Marcelo de Moraes, O Estado de S. Paulo

12 Agosto 2013 | 23h03

BRASÍLIA - No fim dos anos 80, cada vez mais preocupados com o crescimento do narcotráfico na América Latina e com o seu envolvimento com grupos guerrilheiros, oficiais americanos se reuniram com militares brasileiros para discutir a questão.

Documentos do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), de outubro de 1988, indicam que, na ocasião, Washington não apostava no sucesso da parceria entre narcotraficantes e guerrilheiros, especialmente no caso das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e subestimou a ligação entre eles.

Durante a 9.ª Reunião Anual de Consultas Brasil-EUA para Assuntos de Segurança, militares dos EUA descreveram a ampliação das ações de combate ao narcotráfico no continente e fizeram o diagnóstico dando conta de que guerrilheiros e traficantes não aliariam suas atividades por muito tempo.

“Essa ligação tende ao fracasso uma vez que os objetivos finais dos guerrilheiros e dos narcotraficantes são diferentes”, diz o documento do EMFA de 22 de outubro de 1988, preparado pelos oficiais brasileiros sobre as reuniões com os colegas americanos.

A despeito dessa previsão, as Farc acabaram ampliando imensamente suas operações na Colômbia nas décadas seguintes, mantendo as ligações com o narcotráfico até os dias de hoje. Atualmente, o governo do presidente Juan Manuel Santos tenta negociar um acordo de paz com a guerrilha, qualificada por Bogotá e Washington como uma “organização terrorista”. O governo brasileiro não qualifica as Farc assim.

O documento com a reunião, considerado confidencial, faz parte do acervo do EMFA, ao qual o Estado teve acesso. O acervo reúne documentos do período entre 1946 e 1999. São mais de 700 caixas com arquivos que tinham sido classificados pelos militares com quatro tipos de graus de sigilo, variando entre reservado, confidencial, secreto e ultrassecreto.

Desde domingo, o Estado vem revelando documentos inéditos desse acervo. O Estado-Maior das Forças Armadas foi criado em 1946 e extinto em 1999, com a criação do Ministério da Defesa, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

‘Conexão Panamá’. Na reunião, os militares americanos não esconderam a preocupação com o crescimento das operações do narcotráfico latino-americano. No documento do EMFA é dito que os oficiais americanos se preocupavam com a atuação do general Manuel Noriega, presidente do Panamá, e seu envolvimento com o tráfico de drogas e a aliança do narcotráfico “com a guerrilha, principalmente na Colômbia e no Peru”.

“Sobre a guerrilha, foram comentadas as ações do Sendero Luminoso, no Peru, a atuação das facções guerrilheiras conhecidas como Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (sic), Exército de Libertação Nacional e M-19, todas na Colômbia”, detalha o documento.

Durante o encontro, os americanos descreveram suas linhas de combate ao tráfico de drogas que afetava diretamente seu país, já que as substâncias proibidas acabavam entrando ilegalmente em seu território, vindas especialmente da América do Sul e da América Central.

“Foi assinalada a decisão norte-americana de interditar o narcotráfico na terra, no ar e no mar, incluindo ações na própria fonte, como está sendo efetuada na Bolívia e na Colômbia. Nesse aspecto, estão buscando desenvolver esforços conjuntos de cooperação entre os países envolvidos, através de treinamento de pessoal, assistência técnica, assessoria e programas específicos”, descreveram os militares brasileiros.

Na reunião, os militares americanos disseram aos colegas brasileiros que “os grupos narcotraficantes estão muito fortes economicamente e recorrem, em troca de dólares, à proteção de (grupos) guerrilheiros, como o Sendero Luminoso e o M-19”.

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