Isadora Kosofsky/The New York Times
Isadora Kosofsky/The New York Times

EUA superam marca de 500 mil mortes por coronavírus, dizem TVs

Quando as autoridades registraram a primeira contaminação por coronavírus, em janeiro de 2020, nem as estimativas mais pessimistas dos epidemiologistas previam um número tão alto de óbitos em tão pouco tempo no país mais rico do mundo

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2021 | 17h01
Atualizado 21 de fevereiro de 2021 | 19h42

WASHINGTON - Os Estados Unidos chegaram neste domingo, 21, a meio milhão de mortos por covid-19, segundo contagem das TVs MSNBC e NBC News, pouco mais de um ano após a primeira notificação, em 21 de janeiro de 2020 – de acordo com a Universidade Johns Hopkins, a marca deve ser alcançada nas próximas horas. 

Nenhum outro país do mundo teve tantas mortes na pandemia. Mais americanos morreram de covid do que nos campos de batalha da 1.ª Guerra, da 2.ª Guerra e da Guerra do Vietnã somadas. O marco chega em um momento de esperança: novos casos vêm caindo drasticamente, as mortes estão diminuindo e a vacinação avança rapidamente. Mas há preocupação com as novas variantes do vírus, que podem atrasar a volta à normalidade. 

O vírus chegou a todos os cantos dos EUA, devastando cidades e zonas rurais. Até agora, 1 em cada 670 americanos morreu de covid. Na cidade de Nova York, mais de 28 mil pessoas morreram – 1 em cada 295 habitantes. Los Angeles perdeu quase 20 mil pessoas, cerca de 1 de cada 500 moradores. 

No condado de Lamb, região rural do Texas, onde 13 mil pessoas vivem espalhadas por 2,5 mil quilômetros quadrados, 1 em cada 163 pessoas morreu de covid. Em todo o país, ficaram lacunas nas comunidades devastadas pela morte: na mesa de um bar onde se sentava um cliente ou no lado desocupado da cama. Sobreviventes enxergam em lugares vazios maridos, mulheres, filhos, pais, vizinhos e amigos.

Em Chicago, o reverendo Ezra Jones sobe em seu púlpito aos domingos, deixando seus olhos vagarem para a última fileira. O local pertencia a Moses Jones, seu tio, que frequentava a igreja em seu Chevy Malibu verde. Ele chegava cedo e conversava com todo mundo antes de se sentar perto da porta. Moses morreu em abril.

Há uma esquina na cidade de Plano, perto de Dallas, no Texas, que era ocupada por Bob Manus, guarda de trânsito de 79 anos, que levou crianças à escola por 16 anos, até que adoeceu em dezembro. Manus morreu em janeiro.

Casos assim se repetem por todo o país. O vazio está fisicamente ao lado de Andrea Mulcahy, no sofá de sua casa na Flórida, onde seu marido, Tim, que trabalhava em uma empresa de telefonia celular, adorava se sentar. “Nós ficávamos de mãos dadas, ou às vezes eu colocava minha mão em sua perna”, disse Mulcahy. Ele acreditava ter contraído o vírus de uma colega de trabalho e morreu em julho, aos 52 anos.

Eles costumavam sair de férias em viagens e cruzeiros pelo Caribe, mas a agora Andrea não tem mais vontade de viajar. O casal sonhava um dia se mudar para o interior do Kentucky, no Rio Cumberland, e se aposentar. Para ela, é difícil até ir ao supermercado sem o marido, que gostava de entretê-la enquanto faziam compras. Hoje, basta ver um pacote de Oreo, o preferido de Tim, que Andres começa a chorar.

Projeção

Um ano atrás, quando o coronavírus começou a se espalhar pelos EUA, poucos especialistas previram que o número de mortos atingiria uma marca tão absurda. Em reunião na Casa Branca, em 31 de março, Anthony Fauci, o maior especialista americano em doenças infecciosas, e a epidemiologista Deborah Birx, coordenadora da força-tarefa do governo na época, anunciaram uma projeção impressionante: mesmo com lockdowns rígidos, o vírus mataria até 240 mil americanos. 

“Por mais preocupante que seja esse número, devemos estar preparados para ele”, disse Fauci, na ocasião. Quase um ano depois, o coronavírus matou mais do que o dobro da projeção feita pelos especialistas do governo americano. 

"É terrível, é horrível", disse Fauci, mais cedo neste domingo, à CNN. "Não vemos nada parecido em 100 anos, desde a pandemia de 1918. É algo que ficará para a história. Em décadas, as pessoas ainda falarão sobre este momento no qual tantas pessoas morreram." 

"500 mil! Isso é 70 mil (pessoas) a mais do que todos os americanos mortos durante a 2ª Guerra, em um período de quatro anos", lamentou o presidente Joe Biden na sexta-feira. "Muita amargura ... muita tristeza ... muita dor", concluiu. 

Em um discurso em uma fábrica de vacinas da Pfizer em Kalamazoo, Michigan, o 46º presidente dos EUA observou que a taxa de vacinação oferece alguma esperança. “Acho que chegaremos mais perto do normal até o final deste ano. Se Deus quiser, este Natal será diferente do anterior”, disse. 

Com uma média de 1,7 milhão de vacinas aplicadas por dia, número que deve aumentar nas próximas semanas, Biden está confiante em atingir 600 milhões de doses - ou seja, vacinar toda a população - até o fim de julho.

Um total de 61 milhões de pessoas receberam uma das duas vacinas licenciadas nos Estados Unidos (Pfizer / BioNTech e Moderna), e 18 milhões já receberam as duas doses necessárias. 

Além disso, após um pico epidêmico em janeiro, a média semanal de mortes e novos casos está claramente diminuindo, de acordo com dados do Covid Tracking Project. 

Máscaras em 2022

Especialista responsável pela resposta do governo à pandemia, Fauci cogitou a possibilidade da população americana ter de seguir usando máscaras em 2022, apesar da esperada evolução do programa de vacinação no país. 

O infectologista disse que só vai recomendar as pessoas a deixarem de usar o acessório caso as taxas de infecções diárias nos EUA estiverem "muito abaixo" das menores já registradas no país desde o início da crise sanitária e a maioria da população já estiver vacinada.

Entre maio e junho de 2020, o Centro de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos EUA chegou a registrar menos de 20 mil casos de covid-19 por dia, menores números já reportados pela instituição.

Fauci, que também é diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid, na sigla em inglês), reforçou a ideia de que os EUA começarão a retomar o ritmo normal das atividades perto do fim do ano, mas ressaltou que isso depende do que é considerado "normalidade" neste caso. 

"Não posso prever, mas acho que teremos um nível significativo de normalidade à medida que o outono e o inverno (no hemisfério norte) cheguem no fim do ano. Pode não ser precisamente como era antes da pandemia, mas será muito melhor do que o cenário atual", disse Fauci./COM NYT, AFP e AP

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