Ozan Kose/ AFP
Ozan Kose/ AFP

EUA suspendem envio de navios de guerra ao Mar Negro, em meio a tensão entre Otan e Rússia

Governo turco, responsável por passagens entre o Mediterrâneo e o Mar Negro, confirmou informação, mas motivos não foram revelados; Ucrânia acusa russos de planejarem instalação de armas nucleares na Crimeia

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2021 | 08h00

BRUXELAS — O governo dos Estados Unidos cancelou o envio de dois navios militares ao Mar Negro, em meio ao acirramento das tensões entre o governo russo, a Ucrânia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a principal aliança militar do Ocidente.

Segundo o governo da Turquia, que controla as passagens entre os mares Mediterrâneo e Negro, a decisão foi comunicada pela embaixada americana em Ancara nesta quarta-feira, 14, e ocorre em meio a uma deterioração da situação de segurança na área.

A Rússia é acusada de incrementar suas forças na fronteira com o Leste da Ucrânia e na Crimeia, anexada por Moscou desde 2014 depois de um referendo local que não contou com reconhecimento internacional. O Kremlin, por sua vez, acusa a Otan de tentar intimidar o país.

O governo americano não comentou a decisão. Antes da anunciada chegada das embarcações, a Rússia deu início a exercícios militares no Mar Negro.

De acordo com o comando da Frota do Mar Negro, baseada em Sebastopol (Crimeia), eles envolvem a fragata Almirante Makarov, além de navios com capacidade de ataque e embarcações de transporte de tropas.

"No mar, as tripulações dos navios realizarão exercícios de artilharia simples e combinados contra alvos terrestres e aéreos", diz a mensagem divulgada pela frota. Também serão usados navios e helicópteros, em um exercício que coincidiria com a chegada dos navios americanos, em operação anunciada na semana passada e vista como provocação pelas autoridades russas.

Apesar de três integrantes da Otan terem acesso ao Mar Negro — Bulgária, Romênia e Turquia — a Rússia vê a região como sua área de influência, e aponta a presença de nações "de fora", como os EUA, como tentativa de intimidação.

Depois da crise de 2013 e 2014 na Ucrânia — que levou à instalação de um governo pró-Ocidente em Kiev, à anexação da Crimeia e ao conflito com separatistas pró-Rússia que se arrasta há seis anos no Leste do país — Moscou intensificou sua presença econômica e militar na área.

Nas últimas semanas, houve um aumento da presença militar russa na fronteira ucraniana. Moscou diz tratarem-se de exercícios já previstos — como os do Mar Negro — e reposicionamentos de rotina.

Mas Kiev e a Otan afirmam que é uma tentativa de intimidar o governo ucraniano ou uma preparação para uma invasão da Ucrânia. Moscou nega e acusa a própria aliança de reforçar seu contingente nas fronteiras dos países bálticos — Letônia, Estônia e Lituânia — e da Polônia com a Rússia, além de intensificar o apoio político e logístico ao governo ucraniano.

A crise foi abordada na terça-feira durante uma conversa telefônica entre os presidentes Vladimir Putin e Joe Biden, que propôs uma reunião bilateral "em breve", a ser realizada em um terceiro país. Nesta quarta-feira, ao falar sobre a proposta, o Kremlin disse que a reunião depende de "certos passos" a serem dados pelos EUA, sem detalhar quais passos seriam esses.

Mísseis nucleares na Crimeia?

Nesta quarta, chanceleres do G-7, grupo de sete das mais desenvolvidas economias do planeta, se comprometeram com a "integridade territorial" da Ucrânia e exigiram da Rússia que retire suas forças da fronteira até os níveis considerados "normais".

No Parlamento Europeu, em Bruxelas, o ministro da Defesa da Ucrânia, Andriy Taran, afirmou que os russos planejam instalar mísseis nucleares na Crimeia, como parte do que chamou de "consideráveis provocações militares" que estariam sendo planejadas por Moscou.

"A infraestrutura da Crimeia está sendo preparada para potencialmente armazenar armas nucleares", afirmou Taran à Subcomissão de Defesa do Legislativo da UE. "A presença de munições nucleares na península pode dar início a uma gama de complexos problemas políticos, legais e morais."

Os primeiros relatos sobre esse tipo de movimentação de mísseis com capacidade nuclear surgiram nas primeiras semanas depois da anexação, em 2014 — a própria Rússia chegou a falar na possibilidade na época.

Caso essa movimentação se concretize, ela poderia violar o Novo Start, único acordo de controle de arsenais entre EUA e Rússia ainda em vigor e que foi prrogado por cinco anos em fevereiro, já no governo Biden. O texto estabelece restrições a mísseis balísticos baseados em terra ou lançados a partir de submarinos.

Sem mencionar os comentários do ministro da Defesa ucraniano, o secretário do Conselho de Segurança russo, Nikolai Patrushev, acusou Otan, EUA, União Europeia e Ucrânia de agirem para "desacreditar a política interna e externa da Federação Russa, prejudicando sua autoridade e imagem interna e externa, difundindo ideologia extremista e nacionalista". Ele ainda afirmou que militares ucranianos agem em "ações de sabotagem" na Crimeia, e que tais atividades "contribuem para o surgimento de ameaças à segurança nacional". / AP e REUTERS

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