John Moore / Getty / AFP
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EUA têm 49 crianças brasileiras detidas em abrigos

O mais novo é um menino de 5 anos, que está no Texas; cônsul-adjunto afirma que diplomatas brasileiros visitarão um dos centros na próxima semana

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2018 | 18h46
Atualizado 20 Junho 2018 | 20h51

Pelo menos 49 crianças brasileiras foram separadas dos pais depois de entrarem nos Estados Unidos de maneira ilegal a partir do México. Enviadas a abrigos, elas estão detidas em diferentes Estados americanos. O maior número, 29, está concentrado em Chicago, cidade que está a quase 2.500 km da divisa com o México. A criança brasileira mais nova é um menino de 5 anos, que está no Texas.

Segundo informações do Consulado do Brasil em Houston, um garoto de 8 anos tentou fugir nesta quarta-feira, 20, de um abrigo em Nova York, mas não teve sucesso. “Nós sabemos que as crianças estão traumatizadas”, disse o cônsul-adjunto na cidade texana, Felipe Santarosa. “Elas foram separadas dos pais e colocadas em um lugar no qual não conhecem a língua. Por mais que sejam bem-tratadas, é uma situação muito difícil.”

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Além das que estão colocadas em abrigos, há outros 25 menores brasileiros em um centro de detenção em San Antonio, no Texas, que estão acompanhados de suas mães - 21 no total. Santarosa disse que diplomatas brasileiros visitarão o local na próxima semana.

A informação sobre as 49 crianças separadas dos pais foi enviada ao Consulado em Houston na sexta-feira pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo dos EUA. A separação familiar é fruto da política de “tolerância zero” adotada pelo governo Donald Trump em abril, pela qual todos os que tentavam cruzar a fronteira de maneira ilegal eram processados criminalmente. Com isso, os pais passaram a ser enviados a prisões federais, que não têm acomodações para menores. 

Neste quarta-feira, Trump assinou decreto que determina que as famílias sejam mantidas unidas enquanto durar o processo criminal. Mas a orientação esbarra em um acordo judicial fechado em 1997 que, na prática, impede que crianças fiquem detidas por mais de 20 dias. O presidente determinou que o Departamento de Justiça peça a revisão da medida ao Judiciário. Se o pedido for negado, há o risco de uma nova crise de separação familiar, dependendo da reação do governo.

Depois de Chicago, o maior número de crianças brasileiras detidas está em Fênix, no Arizona. No abrigo Estrella del Norte há sete menores. Três são irmãos, de 8, 10 e 16 anos, cuja mãe está presa em uma cidade a 90 km de distância. Também há quatro adolescentes, um de 14 e três de 17 anos. O mais velho deles completará 18 anos no dia 24 e será transferido para um centro de detenção de adultos. 

O Consulado do Brasil em Miami informou que há pelo menos um menor separado dos pais na fronteira em abrigo na cidade. 

Mas grande parte dos pais está presa no Texas, um dos Estados preferidos pelos imigrantes que cruzam a fronteira de maneira ilegal. Santarosa disse que o consulado está tentando identificar todas as crianças e determinar o paradeiro dos pais. O segundo passo é estabelecer contato entre eles.

A diretora do Departamento Consular de Brasileiros no Exterior do Itamaraty, Luiza Lopes, disse que uma das garantias que o governo brasileiro tem é o livre acesso às crianças que estão nos abrigos. 

“Nossa cônsul em Chicago visitou os menores várias vezes e fez a ponte deles com seus pais”, afirmou. “Mas, por mais que se tente amenizar a situação, ela trará consequências psicológicas para as crianças, principalmente as que são mais novas”, disse Luiza.

Em nota, o governo brasileiro expressou que acompanha com "muita preocupação" o aumento de casos de brasileiros separados de seus pais ou responsáveis que se encontram sob custódia em abrigos nos EUA. Segundo o Itamaraty, o ato configura uma "prática cruel" e em clara "dissonância com instrumentos internacionais de proteção aos direitos da criança". 

 

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