EUA têm de encarar os fatos: é preciso falar com o Taleban

Insurgentes avançam e já ameaçam a capital, Cabul

Gilles Dorronsoro / The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

As últimas brigadas que faziam parte do reforço de tropas no Afeganistão chegaram este mês, marcando o auge do envolvimento americano no país. Quase metade dos soldados foi direcionada para Helmand e Kandahar para aplicar a nova estratégia de contrainsurgência. O que se espera é que seu sucesso demonstre que o reforço conseguirá vencer a guerra.

A coalizão ocidental, porém, está num atoleiro no sul do Afeganistão e o Taleban está vencendo no norte, consolidando seu controle da região leste e, lentamente, cercando Cabul. Os EUA consumiram grandes recursos no sul. As tropas americanas pretendiam mostrar o potencial da nova estratégia com um primeiro sucesso em Marja. Em vez disso, a região permanece instável e insegura meses depois de a longa ofensiva ser lançada. Isso retardou os planos de um avanço na direção de Kandahar, segunda maior cidade do Afeganistão.

Tendo concentrado a maior parte das suas forças no sul, a coalizão não consegue conter o Taleban em outras partes do país. Quando viajei pelo Afeganistão, no primeiro semestre, as condições de segurança se deterioravam rapidamente. Ao retornar, alguns meses depois, vi que a situação piorou.

O controle do sul do país pelo Taleban é patente por causa da incapacidade das tropas americanas de ampliar seu domínio além de suas bases. Os soldados levam horas para avançar algumas centenas de metros. Com isso, não mantêm nenhum contato com a população e não estabelecem elos mais fortes com grupos locais.

Embora Cabul ainda continue segura, o Taleban vem apertando o cerco à capital. Deixar a cidade de carro é perigoso. Os insurgentes colocaram barricadas nas estradas, o que aumenta a probabilidade de estrangeiros serem capturados. Nos distritos, onde os combates são mais intensos, a população apoia o Taleban, que está mais agressivo do que nunca. Diante da falta de reformas locais e da corrupção, os EUA acabam combatendo em favor de um governo impopular.

O Taleban tem uma forte influência mesmo nas regiões que ainda não controla. Com o aumento do número de vítimas, também crescem as demandas na Europa para uma retirada do Afeganistão. Como os aliados europeus planejam sair do país nos próximos anos, os EUA ficarão sozinhos, atolados numa guerra sem estratégia de retirada.

No momento, em 80% do Afeganistão, as repartições públicas estão em ruínas. Significa que não há um parceiro afegão com quem os EUA possam trabalhar. Nos lugares em que o governo perdeu o controle e a coalizão vem sendo vencida, os insurgentes ocuparam espaço. Como única força em muitas áreas, o Taleban já começa a formar um Estado paralelo. Os serviços são limitados, mas eficientes, e Cabul não está presente em lugar algum. Um exemplo flagrante é o fato de as ONGs trabalharem cada vez mais diretamente com o Taleban. Elas negociam com os líderes para ter acesso à população e desenvolver seus programas.

Em vez de começar a reduzir lentamente o número de soldados a partir do próximo ano, os EUA precisam aumentar suas forças só para manter o domínio das áreas que hoje estão controlando. Mas, à medida que os americanos lutam para aplicar uma estratégia de contrainsurgência em algumas partes do país, o resto do Afeganistão está sendo perdido.

Os EUA precisam encarar a realidade e começar a negociar com o Taleban antes que seja tarde. Quanto mais Washington demorar, pior ficará a situação e a probabilidade de o Taleban conversar será menor. Negociar um novo governo com garantias de que a Al-Qaeda não mais operará no país é a melhor esperança de uma retirada americana. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ANALISTA DO INSTITUTO CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE

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