Thomas Peter/REUTERS
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EUA têm informações ainda não examinadas sobre origens do coronavírus

Oficiais de inteligência disseram à Casa Branca que análise de um computador pode lançar luz sobre o mistério

Julian E. Barnes e David E. Sanger / The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2021 | 23h30

WASHINGTON - O apelo do presidente Joe Biden por uma corrida de 90 dias que decifre as origens da pandemia de coronavírus veio após funcionários do serviço de inteligência americano afirmarem ter uma série de evidências ainda não examinadas, que incluem a análise de um computador, disseram altos funcionários do governo ao jornal The New York Times.

Os funcionários se recusaram a descrever as novas evidências. Mas a revelação de que eles pretendem examinar um novo computador para saber se o vírus vazou acidentalmente de um laboratório chinês sugere que o governo pode não ter esgotado todas as hipóteses neste sentido.

Além de reunir recursos científicos, o esforço de Biden tem como objetivo estimular aliados e agências de inteligência americanas a extrair informações existentes - como interceptações, testemunhas ou evidências biológicas - bem como buscar novas informações para determinar se o governo chinês encobriu um acidente.

Biden se comprometeu nesta quinta-feira, 27, a tornar públicos os resultados da revisão, mas acrescentou uma advertência: “a menos que haja algo que eu não saiba”.

Sua convocação para o estudo tem ramificações políticas nacionais e internacionais. O cenário levou seus críticos a argumentar que o presidente havia descartado a possibilidade de que o laboratório fosse a origem até que o governo chinês rejeitasse, esta semana, uma investigação mais aprofundada da Organização Mundial de Saúde (OMS). Os funcionários disseram que a Casa Branca espera que os aliados americanos contribuam de forma mais vigorosa para uma investigação séria de uma teoria que, até agora, era considerada na melhor das hipóteses improvável e, na pior, uma teoria da conspiração.

Até agora, o esforço para coletar evidências de comunicações interceptadas dentro da China, um alvo notoriamente difícil de penetrar, rendeu pouco. Funcionários da inteligência dizem que duvidam fortemente que alguém encontre um e-mail, uma mensagem de texto ou um documento que mostre evidências de um acidente de laboratório.

Uma nação aliada transmitiu a informação de que três trabalhadores do laboratório virológico de Wuhan foram hospitalizados com sintomas graves semelhantes aos da gripe no outono (norte) de 2019. A informação sobre os trabalhadores adoecidos é considerada importante, mas as autoridades advertiram que não constitui evidência de que estes trabalhadores contraíram o vírus no laboratório - eles podem ter levado o vírus para lá.

A Casa Branca espera que aliados e parceiros possam acessar suas redes de fontes humanas para encontrar informações adicionais sobre o que aconteceu dentro do laboratório. Embora os Estados Unidos tenham reconstruído suas redes na China, o país ainda não se recuperou totalmente da eliminação de seus contatos há uma década. Como resultado, fazer com que os aliados pressionem seus informantes para que revelem o que aconteceu dentro do Instituto de Virologia de Wuhan será uma parte fundamental do avanço da inteligência.

O inquérito não chegou a um beco sem saída, disse um alto funcionário do governo Biden. Oficiais do governo e da inteligência dizem que a investigação será trabalho de cientistas e de espiões. O governo Biden tem trabalhado para melhorar sua experiência científica no Conselho Nacional de Inteligência. Altos funcionários disseram às agências de espionagem que suas divisões orientadas para a ciência, que vêm trabalhando no assunto há meses, desempenharão um papel proeminente no inquérito revitalizado.

O novo inquérito também vai explorar os laboratórios nacionais e outros recursos científicos do governo federal que anteriormente não estavam diretamente envolvidos no esforço de inteligência, disse o alto funcionário do governo.

O anúncio de Biden de que ele exigirá um relatório da comunidade de inteligência teve elementos de exibicionismo. Em termos de política interna, ele está tentando tomar a iniciativa em uma questão em que os republicanos há muito se concentram. O senador Tom Cotton, do Arkansas, que há muito argumenta que o coronavírus pode ter surgido acidentalmente do laboratório de Wuhan, disse que a ordem de Biden era "antes tarde do que nunca, mas longe de ser adequada".

E em uma frente internacional, Biden convocou a resistência chinesa para cooperar para pressionar Pequim a reverter o curso das investigações, mas também para pressionar os aliados a concentrar seus próprios esforços de inteligência no exame da teoria de que o coronavírus pode ter vazado acidentalmente do laboratório.

Como os cientistas e o público em geral, a comunidade de inteligência permanece incerta sobre as origens do coronavírus. Nenhuma resposta definitiva surgiu, e alguns funcionários atuais e antigos expressaram cautela em relação a quanto pode ser obtido em 90 dias. Embora o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional pretenda entregar um relatório até o meio do ano, o inquérito provavelmente terá de ser estendido.

Na quarta-feira, o general Mark A. Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, disse a repórteres que não viu nenhuma evidência conclusiva sobre a causa da pandemia, mas apoiou o esforço de olhar mais a fundo. “A quantidade de morte, dor e sofrimento vivenciados nesta pandemia é enorme”, disse ele. “Precisamos saber a origem, como isso aconteceu.”

O esforço para descobrir as origens do coronavírus começou há mais de um ano, durante a administração de Trump. Mas algumas autoridades desconfiavam dos motivos do ex-presidente republicano, argumentando que seu interesse nas origens da pandemia tinha como objetivo desviar a culpa da resposta que seu governo deu à pandemia.

Funcionários dizem que o objetivo central do novo impulso de inteligência é melhorar os preparativos para futuras pandemias. Como resultado, a mensagem de Biden esta semana foi calibrada para deixar em aberto a possibilidade de cooperação futura com a China.

A frustração da Casa Branca com a China aumentou após Pequim anunciar esta semana não participaria de investigações adicionais da OMS. Um funcionário do governo Biden disse que se o novo inquérito não obtivesse uma resposta, seria porque a China não tinha sido transparente.

Mas o governo não está tentando isolar a China e, em vez disso, tenta estabelecer uma linha cuidadosa entre pressionar Pequim a cooperar e demonstrar que, na sua ausência, os Estados Unidos intensificarão suas próprias investigações.

Funcionários do governo também acreditam que o novo inquérito e a obstrução chinesa à OMS criarão a oportunidade para intensificar a cooperação de inteligência com os aliados.

Os aliados têm fornecido informações desde o início da pandemia, disse um oficial. Mas alguns, incluindo os serviços de inteligência britânicos, têm sido céticos em relação à teoria do vazamento de laboratório. Outros, incluindo a Austrália, foram mais abertos a isso.

Como membros da chamada parceria Five Eyes, o Reino Unido e a Austrália já compartilham informações com os Estados Unidos. Mas a nova revisão de inteligência, junto com a crescente frustração com a falha da China em cooperar com a OMS, pode estimular os aliados a se concentrarem mais na questão do vazamento no laboratório.

Um funcionário britânico não quis comentar. Um pedido de comentário do governo australiano não foi retornado imediatamente.

Em seu anúncio na quarta-feira, Biden disse que duas agências de inteligência acreditam que o vírus provavelmente se propagou naturalmente, enquanto pelo menos uma outra defendeu a teoria de que ele pode ter vazado acidentalmente de um laboratório na China. Nenhuma confiava muito em suas avaliações, observou o presidente.

Em um comunicado na quinta-feira, Amanda J. Schoch, porta-voz do Escritório do Diretor de Inteligência Nacional, disse que as agências de inteligência se uniram em torno dos dois cenários prováveis, mas não houve até agora avaliações de alta confiança das origens do vírus. “A comunidade de inteligência dos EUA não sabe exatamente onde, quando ou como o vírus foi transmitido inicialmente”, disse Schoch.

Embora 18 agências constituam a comunidade de inteligência, apenas algumas participaram ativamente da avaliação das prováveis ​​origens do vírus. A maior parte da comunidade de inteligência mais ampla, incluindo a CIA (agência de inteligência americana) e a Agência de Inteligência de Defesa, acreditam que ainda não há informações suficientes para tirar uma conclusão, mesmo com pouca confiança, sobre as origens.

A comunidade de inteligência "continua a examinar todas as evidências disponíveis, considerar diferentes perspectivas e coletar e analisar agressivamente novas informações para identificar as origens do vírus", disse Schoch.

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