EUA têm os votos, mas sanção contra Irã ainda enfrenta obstáculos na ONU

Proposta não deve votada ser antes de junho, quando o Líbano, contrário à retaliação, passa a presidência rotativa do Conselho de Segurança para o México

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2010 | 00h00

Negociação. Reunião da ONU que discutiu programa nuclear iraniano há oito meses; calendário diplomático apertado

 

    CORRESPONDENTE / NOVA YORK

Apesar do acordo entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, a aprovação de uma nova resolução com sanções ao Irã deve ser votada apenas em junho. Ainda assim não está claro se os EUA e seus aliados, que desistiram de buscar a unanimidade, conseguirão o número suficiente de votos para aprová-la.  

 

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O governo de Barack Obama sabe que existem três obstáculos para levar o texto de uma nova resolução para votação agora. Primeiro, os debates sobre a revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) na ONU, uma das prioridades dos EUA, se encerrarão somente no fim do mês. Em segundo lugar, a presidência do Conselho de Segurança está agora nas mãos do Líbano, que determina a agenda. Por questões domésticas, os libaneses não têm interesse em colocar a questão do Irã na pauta de votação.

Por fim, os americanos e seus aliados não querem correr o risco de perder ou de ter um número de votos baixo, o que reduziria o impacto e poderia ser considerado uma vitória de Teerã.

Os dois primeiros obstáculos estarão naturalmente superados em junho. O novo TNP já terá sido implementado e o México, aliado dos EUA, ocupará a presidência e deve colocar o texto da resolução em votação.

De acordo com um diplomata mexicano ouvido pelo Estado, seu governo concorda com as posições americanas em relação ao Irã e deve apoiar a lista de sanções, divulgadas na segunda-feira pela secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton.

O terceiro ponto seria o mais complicado. O Conselho de Segurança tem 15 membros. Cinco deles (EUA, China, Rússia, França e Grã-Bretanha) são permanentes e têm poder de veto. Por isso, ao longo de todo o primeiro semestre, os americanos, ao lado de franceses e britânicos, tentaram convencer chineses e russos a apoiarem novas sanções contra o Irã, acusado de ter um plano para desenvolver armas nucleares.

Mesmo com o apoio de todos os membros permanentes, é preciso que nove países votem a favor da resolução. O Brasil e a Turquia, neste momento, são contra. O Líbano também não apoia, já que o Hezbollah, integrante da coalizão governamental, é aliado do Irã.

Já México e Japão devem votar com os membros permanentes. Sobram cinco votos, dos quais os EUA precisam de pelo menos dois. Nigéria, Uganda e Gabão ainda não se posicionaram, mas tendem a votar contra as sanções por serem parte da Organização da Conferência Islâmica, formada no âmbito da ONU, que sempre vota em bloco e a favor de países muçulmanos.

A Bósnia, mesmo sendo majoritariamente muçulmana, pretende integrar a União Europeia e deve votar com os americanos. A Áustria, apesar dos laços econômicos estreitos com o Irã, também tende a apoiar sanções.

Assim, os EUA teriam os nove votos necessários, mas a resolução teria pouca legitimidade, principalmente pela falta de apoio de Brasil e Turquia, que ontem enviaram carta à ONU pedindo mais negociações (mais informações na página A17). Ontem, o Irã ironizou a proposta de sanções. Ali Akbar Salehi, diretor da agência nuclear iraniana disse que os EUA fracassarão se tentarem aprová-la.

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