Bandar AL-JALOUD / Saudi Royal Palace
Bandar AL-JALOUD / Saudi Royal Palace

EUA temem que cooperação nuclear com sauditas resulte em programa militar

Mohammed bin Salman insiste em produzir seu próprio combustível nuclear, o que elevou temores de que ele possa desenvolver armas atômicas

O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2018 | 15h50

WASHINGTON - Antes de o herdeiro da coroa saudita, Mohammed bin Salman, ter sido implicado pela CIA na morte do jornalista Jamal Khashoggi, agências de inteligência do governo americano investigavam um mistério paralelo: estaria o príncipe preparando o terreno para desenvolver armas nucleares na Arábia Saudita?

Bin Salman, de 33 anos, está supervisionando uma negociação entre os Departamentos de Estado e de Energia dos EUA sobre a venda de projetos para usinas nucleares na Arábia Saudita. O acordo é estimado em mais de US$ 80 bilhões, dependendo de quantas usinas os sauditas construírem. Especialistas em energia nuclear estimam que a Arábia Saudita pretenda construir até 16 usinas nucleares nos próximos 25 anos. 

Há, no entanto, um sinal de alerta: o herdeiro saudita insiste em produzir seu próprio combustível nuclear, mesmo que importá-lo de outros países seja mais barato. Isso aumentou temores em Washington de que o país pretenda transformar o desenvolvimento de combustível físsil em um projeto secreto de desenvolvimento de armas atômicas – exatamente o que os EUA e a União Europeia acusavam o Irã de fazer antes do acordo nuclear de 2015, rejeitado pelo presidente Donald Trump. 

O alerta disparou quando o príncipe herdeiro disse, no começo deste ano, no meio das negociações com os EUA, que o país poderia desenvolver armas atômicas. “Não queremos adquirir a bomba”, disse ele ao programa de TV 60 Minutes. “Mas, sem dúvida, se o Irã desenvolver uma, faremos o mesmo o quanto antes.”

Os temores sobre as intenções nucleares do príncipe cresceram depois de Salman dizer a negociadores americanos que se recusaria a permitir a inspeção das Nações Unidas em locais do futuro programa nuclear saudita. 

Questionado pelo Congresso americano em março sobre as negociações, o secretário de Energia, Rick Perry, desviou de uma pergunta sobre se o governo Trump insistiria no veto à produção de combustível nuclear pelos sauditas. 

Hoje, oito meses depois, a Casa Branca não revela em qual estágio estão as negociações. A morte de Khashoggi, que era colunista do jornal Washington Post, e a sequência de negativas sobre o envolvimento do príncipe no caso, levantaram questionamentos sobre se o reino seria transparente com a questão da tecnologia nuclear. Se o urânio for enriquecido a 4%, ele é usado para fins civis. Se chegar a 90%, para fins militares. 

Em privado, fontes da Casa Branca argumentam que, se os EUA não venderem equipamento nuclear para os sauditas, outro país o fará – provavelmente, a Rússia, a China ou a Coreia do Sul. Além disso, o acordo garantiria benefícios comerciais para o complexo militar-industrial americano. 

Ainda de acordo com essas fontes, assegurar que os sauditas usem reatores construídos pela empresa americana Westinghouse se encaixa na visão de Trump de que empregos, petróleo e a aliança com Riad são mais importantes que a morte de um dissidente que vivia nos EUA. 

Segundo as regras que regem acordos nucleares desse gênero, o Congresso dos EUA teria o poder de rejeitar o acordo, mas precisaria de uma maioria qualificada para impedir Trump de suplantar o veto legislativo. 

“Uma coisa é vender aviões, outra é vender bombas nucleares ou a capacidade de construí-las”, disse o deputado democrata Brad Sherman, da Comissão de Assuntos Exteriores da Câmara. “Um país que não pode ser confiável nesse caso (do jornalista morto), não pode ser confiável com armas atômicas.”

Especialistas em energia nuclear dizem que o príncipe deveria ser desqualificado para projetos de cooperação nuclear assim que falou publicamente em competir por bombas com o Irã. “Nunca antes cogitamos, muito menos concluímos, uma cooperação nuclear com um país que ameaçou abandonar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP)”, disse William Tobey, ex-membro do Departamento de Energia no governo de George W. Bush. 

Após a viagem de Perry a Riad, no fim de 2017, o Departamento de Estado dos EUA discutiu com seus aliados europeus a cooperação nuclear com os sauditas. 

O Ministério de Energia do reino disse em comunicado que o propósito de seu programa nuclear é pacífico. “O governo saudita optou pelo projeto não apenas para diversificar fontes de energia, mas também para contribuir com nossa economia e repetidamente pediu por um Oriente Médio livre de armas nucleares.” / NYT

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