David McNew/Reuters
David McNew/Reuters

EUA tentam criar linha direta com Pequim enquanto China acelera corrida armamentista nuclear

Pentágono acredita que Pequim possa construir mil armas atômicas ou mais até 2030; novas tecnologias chinesas preocupam os estrategistas

David E. Sanger e William J. Broad, The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2021 | 16h49

Os Estados Unidos não possuem nenhum telefone vermelho para tratar de questões nucleares com a China. Os dois países jamais tiveram uma conversa séria, profunda, a respeito dos mísseis americanos instalados no Pacífico nem sobre os experimentos de Pequim de cegar satélites americanos em momentos de conflito. 

E autoridades chinesas têm rejeitado consistentemente a ideia de negociações sobre controles armamentistas, pondo fim a sugestões sobre o tema e ressaltando — acuradamente — que EUA e Rússia possuem, cada um, cinco vezes mais ogivas nucleares do que Pequim. 

O presidente Joe Biden está tentando mudar essa situação. 

Pela primeira vez, os EUA estão tentando estimular uma conversa com a liderança chinesa a respeito de sua capacidade nuclear. Autoridades americanas, descrevendo a estratégia de Washington, afirmaram que Biden e seus mais graduados assessores planejam um movimento gradual — colocando o foco inicial das negociações em evitar um conflito acidental, depois nas estratégias nucleares de cada país e na instabilidade relacionada ao tema que poderia decorrer de ataques no ciberespaço e pelo espaço sideral.     

Finalmente — talvez daqui a vários anos — os dois países possam começar a discutir um controle armamentista, talvez um tratado ou algo politicamente menos complexo, como um pacto sobre normas comuns de comportamento. 

Corrida armamentista

Em Washington, o assunto tem demandado mais urgência do que as autoridades estão reconhecendo publicamente, de acordo com autoridades envolvidas com o tema. Os assessores de Biden estão motivados pela preocupação de que uma nova corrida armamentista esteja esquentando em relação a armas hipersônicas, espaciais e cibernéticas, fatores que poderiam desencadear uma espiral ascendente custosa e desestabilizadora de manobras e respostas.

Há o temor de que ataques que ceguem satélites ou sistemas de comando e controle possam rapidamente se tornar comuns, de maneiras inimagináveis na época das competições nucleares da Guerra Fria. As capacidades da China também poderiam representar uma ameaça à esperança do presidente Biden de diminuir o papel das armas nucleares nas defesas americanas. 

Em vários aspectos, Washington tem mantido o foco no progresso da capacidade nuclear da China de uma maneira que não ocorria desde que Mao testou um armamento atômico pela primeira vez, em 1964. 

Na cúpula virtual que manteve este mês com o presidente da China, Xi Jinping, que claramente busca se apresentar como líder definidor de uma era, assim como Mao, Biden levantou a questão do que a Casa Branca tem qualificado eufemisticamente como “negociações para estabilidade estratégica”. 

Em entrevistas, assessores de Biden têm afirmado que esse esforço é uma tentativa de um primeiro passo na direção de uma agenda mais abrangente, semelhante às negociações iniciais a respeito de armamento nuclear que Rússia e EUA travaram na década de 1950. O objetivo inicial, insistem eles, é simplesmente evitar falhas de comunicação e guerras acidentais — mesmo que isso nunca chegue ao nível de uma ameaça nuclear. 

“Vocês verão em múltiplos níveis uma intensificação no empenho para garantir que haja salvaguardas em torno dessa competição”, afirmou Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional de Biden, durante uma palestra na Brookings Institution, no dia seguinte à cúpula virtual. 

O relacionamento com a Rússia no campo nuclear, notou ele, é “muito mais amadurecido, carrega uma história muito mais profunda”. Depois da cúpula entre Biden e Xi, acrescentou ele, é o momento de iniciar essas conversas com a China. “Cabe a nós agora pensar na maneira mais produtiva de avançar nesse sentido”, afirmou ele. 

De certa maneira, isso significa um reavivamento de um medo antigo em Washington: em 1964, Lyndon Johnson estava tão preocupado com a possível ascensão de outro rival nuclear, que ele chegou a considerar, mas por fim rejeitou, planos de um ataque preventivo ou de uma sabotagem secreta contra o maior campo de testes nucleares da China, em Lop Nor.

Mas a decisão da China de manter uma “dissuasão mínima” ao longo das últimas seis décadas — detendo uma capacidade nuclear forte o suficiente para responder a um ataque atômico, mas nem de perto do tamanho da capacidade americana ou russa — fez o Pentágono, em grande medida, retirar Pequim do topo da lista das principais ameaças contra os EUA.

Agora, as manobras mais recentes dos chineses, da construção de novos silos de mísseis aos testes de novos tipos de armamento avançado, ocorrem no momento em que os mais graduados assessores de Biden examinam profundamente a estratégia nuclear americana, a ser publicada nos próximos meses. 

Preocupações

Em julho, quando Pequim lançou o míssil hipersônico que circulou uma vez a Terra e depois acionou um míssil manobrável capaz de ziguezaguear por trajetórias imprevisíveis e explodir em qualquer ponto do planeta, o general Mark A. Milley,  chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, afirmou que seu país estava “muito próximo” de um “momento Sputnik”. Mas desde então autoridades americanas têm se mostrado relutantes em afirmar o que, exatamente, a respeito desse experimento os perturbou — além do fato de o episódio ter revelado uma sofisticação tecnológica que os americanos não sabiam que a China havia alcançado.    

Não está claro se a China planeja ou não acionar armamento hipersônico no futuro e, mesmo se o fizer, não se sabe se a arma seria carregada com ogivas nucleares. Mas o subchefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, o general John Hyten, que está se aposentando do cargo, disse a repórteres em outubro que, enquanto os militares chineses conduziram “centenas” de testes hipersônicos, os americanos fizeram nove testes do tipo. 

O general Hyten afirmou que o teste recente da China — combinado com outras manobras de Pequim, tais como cavar centenas de novos silos subterrâneos para mísseis de longo alcance — sugere que o governo chinês pode agora estar interessado em desenvolver capacidade nuclear para atacar primeiro — e não apenas dissuasão mínima de resposta.  

No Capitólio, as conversas tratam principalmente de equiparar o investimento americano ao chinês, em vez de repensar a natureza da corrida armamentista. 

“Estou muito preocupada”, afirmou em entrevista Rose Gottemoeller, diplomata responsável por controle de armas durante vários governos americanos, que agora leciona na Universidade Stanford. “O que me preocupa é a automaticidade das ações — de haver mais armas nucleares e mais mísseis, sem consideração a respeito de um caminho mais inteligente.” 

Mesmo antes do teste chinês, autoridades americanas e empresas militares privadas estavam pensando em novas maneiras de defesa contra mísseis nucleares hipersônicos. Isso poderia ser mais complexo do que interceptar um míssil balístico intercontinental, projeto que já consumiu mais de US$ 300 bilhões, ao longo de várias décadas, e resultou apenas em sucessos esporádicos. Este mês, Raytheon, Northrop e Lockheed ganharam uma concessão do Pentágono para concorrer entre si pelo contrato de construção de um sistema de interceptação considerado ágil o suficiente para derrubar um míssil hipersônicoO armamento de defesa é considerado pioneiro. 

O Pentágono também embarcou em um vasto esforço para lançar até 500 satélites que melhorariam a capacidade dos EUA de rastrear mísseis balísticos, de cruzeiro e hipersônicos. A rede satelital é considerada crucial para estabelecer um sistema de ponta a ponta capaz de identificar ataques hipersônicos e orientar o armamento de interceptação em trajetórias do voo que os colocaria em rota de colisão com os mísseis invasores. 

Tudo isso preocupa Gottemoeller, que recentemente publicou suas memórias sobre a negociação do pacto Novo Start com a Rússia. “Este ciclo de ação e reação não é interessante para ninguém”, afirmou ela. “Temos de conversar a respeito de maneiras de interrompê-lo.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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