EUA tentam ganhar a confiança dos afegãos

Nova estratégia é restringir os ataques para diminuir a morte de civis e evitar que os americanos sejam confundidos com uma força de ocupação

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

25 de julho de 2009 | 00h00

Muito do trabalho da contraguerrilha, estratégia que melhorou a situação dos EUA no Iraque e está sendo copiada pelo general David Petraeus no Afeganistão, é de ganhar a confiança da população local. "Limpar, segurar e construir" é o mantra. Por isso, parte da nova estratégia é fazer o mínimo possível de ataques aéreos e restringir os ataques para evitar mortes de civis. Depois que atacaram um casamento em Nagahar, em julho de 2008, matando mais de 20 civis, a insatisfação dos afegãos com as tropas estrangeiras vem crescendo. A estratégia leva tempo para dar resultado. Até ganhar a confiança dos afegãos, fazendo com que eles deixem de fornecer informações e de atuar como intermediários dos insurgentes, serão necessários pelo menos dez anos. Nessa guerra, se os americanos são donos do relógio, os afegão são os donos do tempo. O secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, e o presidente Barack Obama querem resultados palpáveis até o fim do ano. Mas uma melhora "aparente" deve demorar mais e o Congresso pode ficar impaciente e fechar a torneira de fundos. Por isso, os insurgentes não têm pressa e continuarão em sua guerra de uma bomba aqui, outra acolá, um suicida hoje, outro amanhã.Essencial nessa estratégia é equipar e treinar o Exército e a polícia afegã para que eles possam assumir o controle do país o mais rápido possível. Mas esse é outro desafio. "Eles andam com roupas de civis, mas quando ouvem tiros, vestem o uniforme e vão para o outro lado", diz uma major que treina soldados afegãos em Bagram.A corrupção é um grande problema e é por isso que muitos afegãos sentem falta da ordem dos tempos do Taleban, embora não concordem com a ideologia radical dos militantes. Um folheto criado pelos americanos - repleto de figuras, já que muitos soldados são analfabetos - ensina o Exército e a polícia a não roubar objetos da casa das pessoas e a não espancar suspeitos."É difícil ganhar a confiança dos afegãos porque eles acham que, como todas as outras potências estrangeiras, os americanos irão embora. E aí, quem apoiou os EUA terá de se ver com os senhores da guerra, os militantes do Taleban, a rede Haqqani e outras guerrilhas", diz um assessor político da União Europeia em Cabul. "Não é tomando chá com os líderes dos vilarejos que os EUA vencerão a guerra. Esse processo vai demorar muito e depende da melhoria das instituições afegãs, mas o governo americano quer resultados rápidos, o que não será possível."

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