EUA tratam como ''ato criminoso'' vazamento de documentos secretos

Controle. Soldado americano escaneia olhos de morador do Vale de Arghandab, em Kandahar

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2010 | 00h00

 

 

Constrangidos e irritados, assessores da Casa Branca tentavam ontem conter os danos políticos e militares causados pelo vazamento, no domingo, de 92 mil documentos militares secretos sobre a guerra no Afeganistão, reunidos pelo site WikiLeaks. O Departamento de Defesa qualificou a divulgação de "ato criminoso" e disse que estava lançando uma "caçada" para encontrar o responsável pelo vazamento.

O Pentágono também informou que está revisando os documentos para conter os danos, tanto para os EUA quanto para os seus aliados."Isto representa uma real e potencial ameaça aos que estão trabalhando todos os dias para nos manter em segurança", disse o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. O presidente Barack Obama não quis responder às perguntas sobre o vazamento ao fazer uma declaração à imprensa sobre outra questão.

Os documentos vazados, uma coleção de dados da inteligência e relatórios sobre ameaças, a partir de janeiro de 2004 até dezembro de 2009, quando Obama ordenou o envio de mais 30 mil soldados ao Afeganistão, ilustram a falta de controle do Pentágono sobre as informações diante da deterioração da segurança e do fortalecimento do Taleban.

Segundo Julian Assange, fundador do WikiLeaks, os documentos são evidências de crimes de guerra que teriam sido cometidos pelos americanos. Os documentos descrevem ações militares mortíferas envolvendo militares dos EUA, incluindo um grande número de pessoas mortas, feridas, assim como a localização de cada evento. Os incidentes vão de disparos contra civis inocentes a grandes perdas de vidas em ataques aéreos.

"Irresponsabilidade". A divulgação do material, que comprovou o apoio ao Taleban do serviço de inteligência do Paquistão, principal aliado na luta contra o terror dos EUA (mais informações na página 16), foi qualificada como uma "irresponsabilidade" pelo general James Jones, chefe do Conselho de Segurança Nacional.

"Esses vazamentos irresponsáveis não atrapalharão o andamento do nosso compromisso de tornar mais profunda nossa parceria com o Afeganistão e o Paquistão para derrotar nossos inimigos comuns (Taleban e Al-Qaeda) e apoiar as aspirações dos povos afegão e paquistanês", afirmou. "O apoio dos EUA ao Paquistão continuará a ter como foco a construção da capacidade do país de acabar com a violência dos extremistas."

O porta-voz do Departamento de Estado, Peter Crowley, disse que os documentos são antigos e não refletem as situações e condições, que teriam sido corrigidas. Mas analistas dizem que as revelações podem comprometer o apoio público à guerra.

O caso está sendo comparado à divulgação, em 1971, dos Papéis do Pentágono - 14 mil páginas de documentos secretos sobre a Guerra do Vietnã. O escândalo afetou a credibilidade do governo do então presidente Richard Nixon.

TOP SECRET

Execuções sumárias

Uma unidade militar especial foi criada para "matar ou capturar" líderes taleban, sem julgamento

Mortes de civis

Há o registro de 144 incidentes nos quais morreram 195 civis afegãos e 174 ficaram feridos

Aviões não-tripulados

É cada vez mais frequente o uso dos drones, que permitem aos americanos atacar por controle remoto. Mas nem todas as ações são bem-sucedidas

Paquistão

Há fortes indícios de que o serviço secreto paquistanês tem colaborado com a insurgência afegã, apesar de Islamabad ser oficialmente aliado dos EUA

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