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EUA tratam diferente cubanos que chegam ao país e migrantes da América Central

Moradores de regiões de fronteira reclamam do fato de pessoas que saem de Cuba e entram nos EUA terem acesso a benefícios enquanto outros migrantes sofrem em filas 

O Estado de S, Paulo

25 de fevereiro de 2016 | 10h59

LAREDO, TEXAS - Centenas de cubanos cruzam a fronteira por dia, aprovados para entrar nos Estados Unidos em questão de horas. Eles caminham por uma rua de Laredo e são saudados por voluntários da ONG Cubanos em Liberdade, que também os ajudam a encontrar uma carona para seu destino final - geralmente Miami. 

Após chegarem, os cubanos começam a se candidatar a permissões de trabalho e a benefícios federais, tais como cupons de alimentação e ao Medicaid, auxílio-saúde a famílias de baixa renda, disponível por lei aos cubanos assim que chegam ao país.

A recepção amistosa dada aos cubanos, relíquia das relações hostis com o governo de Fidel Castro, é um grande contraste com o tratamento a famílias de pessoas fugindo da violência em países da América Central. E isso está criando tensões em cidades fronteiriças no Texas de maioria mexicana e americana, como Laredo, onde os moradores viram como os imigrantes da América Central, que chegaram em grande número em 2014, eram detidos pela Patrulha da Fronteira e encaminhados a tribunais de imigração.

"As pessoas daqui estão começando a ficar ressentidas", diz o deputado Henry Cuellar (Partido Democrata, Texas), cujo distrito eleitoral inclui Laredo. "Eles questionam se é justo os cubanos poderem ficar e os centro-americanos serem deportados."

A disparidade teve um momento de grande redução no dia 17, quando o papa Francisco visitou Ciudad Juárez, cidade mexicana de fronteira, vizinha de El Paso, no Texas, para rezar pelos muitos imigrantes que enfrentaram perigos ou a prisão ao tentar cruzar a divisa com os EUA. As autoridades municipais pediram para os cubanos não ficarem muito tempo nas ruas. 

Reclamações. Empresas locais de ônibus reclamam que os cubanos estão contratando vans especiais para viajar. Moradores de Laredo também começaram a se manifestar. Um grupo de veteranos do Afeganistão e do Iraque realizou dois protestos na ponte da fronteira nas últimas semanas, dizendo que o governo federal estava gastando dinheiro com os cubanos enquanto não cuidava das necessidades dos moradores da cidade.

"Nós fazemos todos da América Central esperarem em fila, enquanto os cubanos entram dando a impressão de que nem são refugiados", afirma Gabriel Lopez, veterano mexicano-americano da Marinha que preside o grupo de ex-militares. "O que estamos dizendo é para não abrir as fronteiras para os cubanos e dar benefícios imediatos enquanto temos veteranos americanos morando nas ruas."

Aproximadamente 12 mil cubanos já entraram por Laredo e outras estações de fronteira texanas nos últimos três meses de 2015, segundo dados oficiais. As autoridades da fronteira dizem que 48 mil poderiam entrar neste ano, mais do que todos que vieram nos dois últimos anos juntos.

'Pés molhados, pés secos'. De acordo com lei aprovada pelo Congresso em 1966, nos primeiros anos de hostilidade com Fidel Castro, qualquer cubano que botasse os pés em solo americano teria permissão para entrar, uma espécie de liberdade condicional. Os cubanos também têm direito a benefícios federais, incluindo apoio financeiro por nove meses, segundo regras da década de 1980. Após um ano, eles podem solicitar residência permanente - uma porta aberta para a cidadania.

O êxodo recente de Cuba começou em meados de 2014, antes mesmo de o presidente Barack Obama anunciar a restauração das relações diplomáticas com o governo cubano. Em uma grande mudança, o presidente Raúl Castro permitiu que cubanos deixem o país sem vistos de saída. Os cubanos têm dito que os boatos de que a entrada especial nos EUA seria cancelada fez com que muitos fossem embora.

"Os boatos não têm fundamento", garantiu Alan Bersin, secretário assistente do Departamento de Segurança Nacional, durante entrevista, buscando dissipar o medo. "A lei para cubanos continua valendo e integra a política de imigração, não existe qualquer intenção no momento de mudar isso."

Frank Longoria, diretor assistente de operações de campo do Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteira dos EUA, afirmou que, apesar do número, a entrada dos cubanos não afetou o grande fluxo de pessoas e caminhões de carga que passam todos os dias por Laredo, maior ponto de entrada por via terrestre do país.

Na fronteira, os cubanos têm as impressões digitais tiradas e passam por verificações rotineiras de registros de atividade criminosa e terrorista. Não existe triagem especial para eles, nem exigências de vacinação ou exames médicos. "Agora eu me sinto o cubano mais livre do mundo", declarou Rodny Nápoles, 39 anos, técnico da seleção feminina cubana de polo aquático que entrou nos EUA por Laredo.

Os primeiros voos diretos do norte de Costa Rica para a cidade mexicana do outro lado da fronteira levou aos EUA mais de 300 cubanos, incluindo pelo menos 41 mulheres grávidas e suas famílias. Uma delas, Yadelys Rodríguez Martín, 28 anos, na 19ª semana de gravidez, se sentou para descansar e desfrutar um instante de alívio nos degraus da frente da Cubanos em Liberdade, logo após ter passado pelo posto de fronteira. 

Após viajar pelo Equador e ficar detida três meses na Costa Rica por causa de uma disputa política na região, ela afirmou estar impressionada com a rapidez com que foi admitida nos EUA. "Nós não estamos acostumados a ver coisas acontecerem tão velozmente."

Ela explicou não ter saído de Cuba por ameaça de perseguição ou ataque. A exemplo de muitos outros cubanos, ela disse ter ido aos EUA para fugir de uma economia moribunda. Como engenheira civil, ganhava o equivalente a US$ 25 mensais.

Diferenças. Moradores de Laredo se lembram da época em 2014 quando mulheres e crianças da América Central, que afirmavam estar fugindo de bandos de assassinos, foram despachadas para celas de detenção e lotavam a estação rodoviária depois que eram libertadas levando consigo somente a ordem de comparecer perante um juiz. Sem admissão abrangente, elas enfrentariam uma grande batalha na corte em busca de asilo, mas que geralmente terminava em deportação.

"As pessoas não estão dizendo para proibir a entrada dos cubanos", disse Ricardo de Anda, advogado e produtor rural de Laredo que ajudou a mobilizar o auxílio para os centro-americanos. "Elas estão apontando a ironia do sistema de imigração que permite que alguns venham à vontade enquanto causam tanta dificuldade para outros."

Contudo, no posto de fronteira, um cubano, Milton Borges González, 38 anos, só sabia que era o "homem mais feliz da Terra" quando a mulher grávida, Lisbeth Torres, apareceu com a autorização na mão. Ele havia vindo antes dela e estava morando em Houston. "Vim para trabalhar, e aqui deixam você trabalhar e pagam por isso. Os EUA nos ajudam bastante porque somos cubanos. Graças a Deus". /NYT

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