Instituto Nacional de Migração do México/ AFP
Instituto Nacional de Migração do México/ AFP

'EUA tratam pessoas pior do que animais': o relato de uma família brasileira deportada ao Haiti

Brasileira deixou o País com o marido haitiano e a filha, de 1 ano, também brasileira, para imigrar aos EUA; chegando lá, foram deportados para o Haiti e contam um pouco do que viveram

Fernanda Simas , O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 05h00

"Sou brasileira, meu marido é haitiano e fomos deportados para o Haiti. Precisamos de ajuda para voltar ao Brasil. Temos uma filha e aqui está muito difícil. Nós três estamos com diarreia e gripados. Minha filha está tendo febre e vômitos"

O contato com a reportagem foi um dos primeiros de Maria, 32 anos, com alguém do Brasil depois de ter sido deportada dos Estados Unidos, para onde foi com a família em busca de melhores condições de vida. Ao lado do marido, o haitiano Carlos, de 28 anos, e da filha S., de 1 ano, ela não sabe o que vai acontecer e tem receio de conversar sobre o ocorrido. Eles pedem para não ter os nomes verdadeiros divulgados por medo de retaliação.

A vida no Brasil

“Aqui está difícil para falar porque a internet está muito fraca”, diz a brasileira antes de a ligação ficar muda por alguns minutos. Então, o marido da brasileira assume o telefone. Falando um português claro, com algumas palavras em espanhol, ele conta com mais calma o que levou o casal a deixar o País e iniciar uma viagem de quase um mês até os EUA. 

“Fui para o Brasil em 2016 e logo fiquei em São Paulo, onde conheci a C. Lá tivemos nossa filha. Ela está aqui (Haiti) agora por minha culpa, eu sou haitiano, mas ela é brasileira. Ela e a nossa filha estão com o passaporte aqui. Eu fui repatriado e elas estão juntas, mas quero que voltem.

Estávamos vivendo na zona leste de São Paulo. Eu era vidraceiro e mecânico, trabalhava, tinha uma vida normal, a C. também fazia alguns trabalhos. Depois, com a pandemia, virei vendedor ambulante e minha mulher também, mas era difícil manter a vida, a polícia vinha e pegava nossa mercadoria e corria atrás de nós. Foi ficando pior. A gente abriu um CNPJ, mas não tinha mais dinheiro para pagar isso, fomos ficando cheios de dívidas, aí caímos nessa, perdemos tudo agora.”

A ida para os EUA

O relato do haitiano prossegue: “Vi que meus amigos tentaram e conseguiram chegar aos EUA, foi tão fácil para eles. Decidimos tentar, a gente pensava que nos EUA teria mais oportunidades. 

No dia 15 fomos para os EUA. Maria pegou um voo para o México e eu fui até lá por meios inexplicáveis, precisei ir por outro caminho porque não tinha visto, o meu passaporte está vencido. Recebi indicações de amigos de amigos que conseguiram chegar aos EUA e tentamos. Você sabe como é, tem gente que ajuda a te levar lá, a gente juntou o que tinha e decidimos ir. Do México, fomos aos EUA, não demorou muito tempo, mas chegamos e já sofremos a deportação.

Maria tem pais em São Paulo, mas eles não têm condições de ajudar a gente. Avisamos quando saímos do Brasil e ficamos de avisar quando estivéssemos nos EUA, mas aí aconteceu isso.”

Maus tratos na deportação

O imigrante relata maus tratos na mão da imigração americana: “Os EUA não tratam as pessoas como pessoas, tratam pior que animais. O Brasil respeita os direitos humanos. Nos EUA ficamos seis dias separados, em um espaço frio, sem comer, ou melhor, comendo só uma coisa que se chama tortilla. Aí colocaram a gente num ônibus e levaram para um aeroporto. Trataram a gente como se não fôssemos pessoas.

O governo do Haiti tem um acordo com o EUA para que os haitianos sejam mandados de volta, não está preocupado com nada do que vai acontecer, depende do apoio dos EUA.

Estávamos com os passaportes em mãos, tudo certinho, nada ilegal, enquanto outras pessoas chegaram sem documentação. Não passamos por uma entrevista ou triagem que mostrasse que não tínhamos condição de ficar lá e logo mandaram a gente de volta. Se eu quiser voltar aos EUA eu volto porque não tem nenhum processo contra mim aberto, nada documentado.

Eu pensava que os EUA eram o melhor país do mundo, mas não é. O brasileiro não dá valor ao seu próprio país e sim ao que está fora. Não vi direitos humanos nos EUA, fiquei seis dias separado da minha família. Você entra num país democrático e de repente fica sem saber o que está acontecendo, vai parar num avião e acorda de volta ao seu país. Isso é pior que ditadura. E eles fizeram tudo escondido, de noite, nada pela manhã.”

A vida no Haiti

Assim que chegaram ao Haiti, o casal e a filha foram recebidos pela missão da Organização Internacional para as Migrações (OIM) no aeroporto de Porto Príncipe - responsável por enviar os dados de quem chega às autoridades locais. De lá, foram direto para a casa da família de Carlos e não saíram mais por medo da violência. O Haiti vive uma turbulência política após o assassinato do presidente Jovenel Moïse e dificuldades econômicas após um novo terremoto. A embaixada brasileira no Haiti confirmou ao Estadão ter tido “acesso a cópias dos documentos que, embora não verificadas, parecem autênticas”. 

O haitiano, com a voz mais trêmula e falando rapidamente com medo de a ligação cair novamente, explica o motivo de não ter ido até a embaixada.

“Aqui tem muito sequestro. Está muito perigoso, principalmente depois da morte do presidente. Poderíamos sair de casa e procurar a embaixada, mas tem muito caso de sequestro. Eu tenho medo de sair e falei para minha mulher não sair. Se ela colocar o pé para fora de casa vão ver que é estrangeira e pode ser sequestrada. Ela não fala o nosso idioma, não conseguiria se virar sozinha. 

Estou procurando ajuda para tirar ela e minha filha daqui o quanto antes. Não há voos diretos para o Brasil e isso torna tudo mais difícil, não sabemos o que fazer e como sair daqui. Elas estão aqui por minha culpa, preciso tirar elas daqui.

Minha mãe tem 60 anos e meu pai morreu quando eu estava no Brasil. Eu saí do meu país para ajudar minha família aqui no Haiti, mas não deu certo. Não vejo mais futuro aqui. Não tenho intenção de ficar, não tem sentido te contar tudo isso e escolher ficar aqui.

Aqui tem muita gente que foi deportada. Acho que mais de 3 mil e tem muitas crianças também. A gente escuta muita coisa, mas muitos nem procuram ajuda porque não sabem como procurar, onde procurar. Não sei o que será do futuro dessas pessoas.”

Esperança para o futuro

“Quando eu voltar ao Brasil vou fazer um canal na internet para explicar isso tudo que passei e como estava errado ao querer deixar o País. Deixei o Brasil porque as condições de vida não estavam boas, porque não tem política estável, lá todo mundo fica brigando sobre esquerda ou direita, mas não tem sentido. 

No Brasil, as pessoas te tratam direito, se alguém tem pão, divide com você. Peço agora que os brasileiros se unam e lutem por uma política estável, para ter comida e trabalho, isso já basta. Se algum político roubar que seja preso. Não adianta ficar brigando sem motivo.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.