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EUA, UE e os imigrantes 

Imigração beneficia países com populações envelhecidas e baixa taxa de natalidade 

LOURIVAL SANT’ANNA, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2018 | 05h00

O tema da imigração voltou nas duas últimas semanas para as manchetes nos Estados Unidos e na Europa. Na verdade, ele tem estado sempre latente, como a grande questão não equacionada nos países avançados, e deve ser discutida também no Brasil.

O governo do presidente Donald Trump adotou em maio a prática de prender adultos que entram ilegalmente nos EUA e enviar os menores que os acompanham para abrigos. O sofrimento de mais de 2 mil crianças e adolescentes causou forte impacto na opinião pública.

Trump intuía que isso aconteceria e tentou culpar os democratas, por não colaborarem com os republicanos na aprovação de uma nova lei de imigração. Na verdade, os próprios republicanos estão divididos sobre o tema, entre linha-dura e moderados. 

O presidente mudou de curso na quarta-feira, com um decreto que prevê o envio dos adultos e dos menores para bases militares. O decreto não resolve o problema dos 2 mil menores – incluindo 50 brasileiros – atualmente em abrigos. E cria dois novos: bases militares não são instalações adequadas para isso e crianças não podem ser detidas juntamente com adultos.

As pesquisas mostram que, apesar de toda a exploração política do tema, a maioria dos americanos se coloca a favor do direito dos imigrantes, mesmo ilegais, de permanecer nos Estados Unidos e regularizar sua situação; e uma parcela ainda maior é contra a separação de menores dos adultos. Os eleitores republicanos estão divididos, mas a maioria apoia as políticas de Trump, ainda que por estreita margem.

O presidente e o seu partido almejam aumentar sua bancada no Congresso nas eleições de novembro. O dilema entre preservar o seu eleitorado e ampliá-lo se reflete em suas posições sobre a imigração e outros grandes temas.

Na Europa, a onda de imigrantes é um dos principais, se não o principal motivo do crescimento dos ultranacionalistas. Na Alemanha, a política de “portas abertas” custou cadeiras no Parlamento aos dois partidos da coalizão de governo, a União Democrata-Cristã (CDU) e o Partido Social-Democrata (SPD). 

Os italianos deram a vitória aos dois partidos anti-imigração e anti-Europa, o Movimento 5 Estrelas e a Liga. Desde que assumiu o Ministério do Interior, dia 1.º, Matteo Salvini, líder da Liga, impediu dois navios com centenas de refugiados de atracar na Itália. A atitude foi criticada pelo presidente francês, Emmanuel Macron. 

Salvini reagiu chamando a França de “hipócrita” por não ter ajudado a Itália a absorver os imigrantes nos últimos anos. O primeiro navio, Aquarius, que trazia 629 africanos, foi acolhido pela Espanha, sob o novo governo socialista de Pedro Sánchez. 

O novo primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, reuniu-se em seguida com Macron, e ambos prometeram se esforçar para estabelecer uma nova abordagem, pela qual todos os membros da União Europeia compartilhem a responsabilidade. Países como Polônia e Hungria, governados por ultranacionalistas, porém, devem bloquear compromissos nesse sentido, que são assumidos por consenso no bloco.

Todos têm uma parcela de razão nessa disputa altamente politizada. Uma simples caminhada por Roma é suficiente para constatar o estrago feito pela entrada desordenada de africanos. Muitos acampam ao redor da estação ferroviária Termini e vendem produtos piratas da China, com marcas italianas falsificadas. Isso não é multiculturalismo. 

Mas a imigração é potencialmente uma contribuição para todos os países avançados, com suas populações envelhecidas e baixa taxa de natalidade. Ela precisa ser organizada, não banida. Mesmo o Brasil pode se beneficiar da importação de mão de obra qualificada. Quando um profissional capacitado migra, leva consigo todo o investimento que seu país fez em sua formação. O programa Mais Médicos deveria ser ampliado para outras profissões, de forma planejada e organizada.

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