Gabinete do xerife do condado de Snohomish / The New York Times
Gabinete do xerife do condado de Snohomish / The New York Times

EUA usam árvore genealógica para solucionar crimes

Justiça resolve antigos casos analisando DNA de parentes do suspeito; uso de dado genético de pessoas sem elo com crime causa controvérsia

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2019 | 05h00

O caminhoneiro William Talbott, de 56 anos, levava uma vida acima de qualquer suspeita. Até deixar para trás um copo de café descartável. Nele, a polícia conseguiu seu DNA e a peça que faltava para solucionar um caso de duplo homicídio de 1987. Chegar até ele agora só foi possível graças à genealogia genética, técnica que está ajudando a polícia a encontrar suspeitos de antigos casos por meio do mapeamento genético de parentes que nada têm a ver com o crime. 

A condenação de Talbott, no dia 28, no Estado de Washington, foi a primeira envolvendo a técnica. A sentença será conhecida no dia 24 – ele deve pegar prisão perpétua

Em novembro de 1987, o casal Tanya Van Cuylenborg, de 18 anos, e Jay Cook, de 20, deixou Saanich, no Canadá, para buscar partes de um forno industrial em Seattle – e nunca mais voltou. O corpo de Tanya foi encontrado em uma área rural do Condado de Skagit, norte de Seattle. Depois de estuprá-la, o assassino atirou em sua cabeça. O corpo de Cook foi encontrado dois dias depois, estrangulado, a 95 quilômetros de onde estava Tanya.

O caso era mais um na pilha de 248.933 não resolvidos desde 1980 nos EUA, segundo o FBI. Para mudar a estatística, investigadores americanos têm recorrido ao banco de dados de sites públicos que fazem mapeamento genético com amostras de DNA. O principal deles, o GEDmatch, é gratuito. 

O uso do DNA para condenações não é novo. Mas, dentro dos métodos tradicionais, apenas uma pequena variante do DNA é testada e comparada. A genealogia genética dá um grande passo. Segundo o especialista em ciências forenses David Kaye, a técnica é mais avançada por envolver combinações de diferentes tipos de DNA em vários lugares. No processo, os investigadores submetem informações de DNA obtidas nas cenas do crime a esses sites, que têm versões pagas ou gratuitas e são cada vez mais populares nos EUA, procurados por quem deseja saber mais sobre seus antepassados. 

A polícia espera que a análise mostre alguém no banco de dados compartilhando alguma informação com o suspeito. Quando o resultado dá positivo, entra em cena o trabalho de detetives em busca de um ancestral comum, como explica Kaye. Nessa fase, a busca pode ser feita em obituários de jornais e até redes sociais, detalha a socióloga Sarah Esther Lageson, que estuda tecnologias aplicadas ao sistema de Justiça criminal. 

No caso de Talbott, o laboratório privado de biotecnologia Parabon Nanolabs analisou o sêmen encontrado na roupa e no corpo de Tanya e incluiu o perfil genético no sistema do site GEDmatch. As análises chegaram a dois primos do suspeito. Em seguida, foi traçada a árvore genealógica dos dois e se chegou a um parente comum – o caminhoneiro. 

A polícia passou a vigiar Talbott e, um dia, recuperou um copo de café abandonado por ele. Após obterem seu DNA, o compararam com o encontrado na cena do crime e confirmaram que ele era o autor. Impressões digitais também bateram com as recolhidas na porta da van do casal. “Como primeira condenação de alguém identificado dessa maneira, o caso é histórico”, disse o professor ao Estado. 

De 70 casos investigados com essa técnica desde 2018, 20 já foram solucionados. O primeiro foi o do estuprador e assassino em série da Califórnia conhecido como “Golden State killer”. Autor de 12 mortes e cerca de 50 estupros, nos anos 70 e 80, o ex-policial Joseph DeAngelo foi identificado um mês antes de Talbott e preso em setembro. 

Dilema ético

A identificação de suspeitos por genealogia genética provoca discussões. Para Sarah, há uma necessidade urgente de as cortes regularem a investigação e estabelecer se o método constitui uma busca policial válida, uma vez que os suspeitos, na prática, nunca permitiram ter seu DNA inscrito em sites como o GEDmatch, apenas seus parentes. 

De qualquer forma, a medida tem apoio popular. Segundo Sarah, por várias razões. O alto número de casos não solucionados nos EUA é tema recorrente de programas policiais, filmes, documentários e podcasts. 

“Isso dá ao público a ideia de que a polícia e os promotores precisam do maior número de ferramentas possível”, afirmou a socióloga. Ainda segundo ela, há no país uma percepção de que o crime está fora de controle e, por isso, iniciativas de prevenção e aplicativos que alertam sobre crimes na região são cada vez mais bem recebidos. 

Um relatório do FBI, do ano passado, mostrou que cerca de 40% dos assassinatos registrados ficam sem solução. Segundo o Banco Mundial, a taxa de homicídios nos EUA subiu de 5,03 para cada 100 mil habitantes, em 2009, para 5,35, em 2016. Em comparação, no Brasil, esse número subiu de 22,84 para 29,52 no mesmo período. 

Por pouco, Talbott não pegou a pena de morte. Quando foi preso, em maio de 2018, a pena capital ainda estava em vigor no Estado. Em outubro, a Corte Suprema local a considerou inconstitucional.

Caso no Brasil foi destaque em concurso internacional

No Brasil, ainda não se pode rastrear suspeitos com informações de parentes em bancos públicos de DNA. Mas, desde 2012, condenados por crime doloso, praticado com violência, têm, obrigatoriamente, os dados recolhidos e arquivados pelo Banco Nacional de Perfis Genéticos. Este ano, a primeira identificação de um suspeito de ter cometido crimes sexuais em série valeu ao País o terceiro lugar num concurso internacional sobre casos emblemáticos, o DNA Hit of the Year 2019

Administradora estadual do Banco de Perfis Genéticos, em Mato Grosso, a perita criminal Ana Cristina Lepinsk Romio explicou ao Estado que foram apresentados 70 casos de diversos países analisados por cientistas forenses do mundo todo. O primeiro lugar no concurso ficou com o caso do “Golden State killer”. 

No caso brasileiro, entre 2012 e 2015, várias mulheres foram estupradas nos Estados de Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Goiás. O agressor, Célio Roberto Rodrigues, tinha a mesma maneira de agir – ele atacava as vítimas em casa ou no trabalho após pedir alguma informação ou copo de água. Preso, ele escapou e mudou de cidade várias vezes. Seus crimes foram cometidos em locais distantes até 2 mil quilômetros um do outro – fator que contribuiu para o destaque internacional de sua resolução. 

Após ser preso em Rondônia, em 2015, por roubo e estupro, seu material biológico foi coletado em Mato Grosso e logo ele foi associado aos dados genéticos de outros quatro casos de estupro no Estado. Quando as informações do suspeito foram inseridas no banco nacional, novas coincidências foram encontradas. Hoje, ele é investigado por abuso sexual de mais de 50 vítimas, entre crianças, adolescentes e adultos.

O banco nacional é responsável por coletar amostras de DNA de condenados nas penitenciárias, analisar perfis genéticos colhidos nas cenas de crimes, além de processar e armazenar as informações. Os materiais são confrontados para busca de coincidências e relação de suspeitos com os locais de crimes.

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