Enrique De La Rosa/Reuters
Enrique De La Rosa/Reuters

EUA usam hip-hop para ajudar oposição cubana

Agência americana de auxílio humanitário recrutou rappers para estimular 'mudanças sociais', segundo documentos obtidos pela 'Associated Press'

HAVANA, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2014 | 02h03

Por mais de dois anos, a agência de ajuda humanitária dos EUA (Usaid) infiltrou secretamente na cena do hip-hop de Cuba vários rappers para promover um movimento contra o regime da ilha. Segundo documentos obtidos pela Associated Press, a ideia era usar músicos para "romper o bloqueio de informações" e incentivar "mudanças sociais". A operação, porém, foi executada com pouco profissionalismo e fracassou.

A Usaid nega que tenha realizado qualquer operação secreta em Cuba. No entanto, em pelo menos seis ocasiões, autoridades cubanas prenderam ou interrogaram pessoas envolvidas no programa e confiscaram computadores e cartões de memória com informações que colocavam em risco cidadãos cubanos que não sabiam que haviam sido envolvidos em uma operação clandestina dos EUA.

Além disso, o programa secreto prejudicou muitos rappers cubanos, que já faziam letras com críticas ao regime dos irmãos Fidel e Raúl Castro. Muitos artistas tiveram de deixar o país e um dos festivais de música mais populares de Cuba foi cancelado depois que as autoridades descobriram que ele tinha relação com a Usaid.

Em nota, a Usaid disse que seus programas são feitos para "fortalecer a sociedade civil em lugares onde a participação cidadã é oprimida e onde as pessoas são perseguidas". "Qualquer alegação de que nosso trabalho é secreto ou oculto é falsa", diz o texto.

O plano foi arquitetado pelo sérvio Rajko Bozic, que se inspirou em uma série de shows de protesto do movimento estudantil que ajudou a derrubar o ex-presidente Slobodan Milosevic, em 2000. O objetivo era promover músicos e estimular seus fãs a desafiarem o governo.

A principal ferramenta do plano era o trabalho do grupo de hip-hop Los Aldeanos, muito respeitado pela juventude cubana por suas letras duras e diretas. Em agosto de 2010, eles participaram do Festival Rotilla, um dos mais importantes da ilha. Diante de 15 mil pessoas, eles criticaram funcionários do governo, chamando-os pelo nome, e zombaram de policiais.

Os documentos sobre o programa levam a assinatura e o financiamento da empresa Creative Associates, com sede em Washington, a mesma que pagou milhões de dólares para criar o ZunZuneo, rede social cubana, também para minar o governo de Cuba. A Creative Associates usou uma empresa de fachada no Panamá e um banco em Liechtenstein para esconder as remessas de dinheiro.

Em setembro de 2009, quando o colombiano Juanes decidiu cantar em Havana, diretores da Creative Associates tentaram convencê-lo a aceitar que o grupo Los Aldeanos abrisse o seu show. Ele não aceitou, mas o astro agradeceu publicamente a banda e tirou fotos com seus integrantes, repercussão que deixou os idealizadores do projeto satisfeitos.

Algum tempo depois, porém, o líder da banda, Aldo Rodríguez, foi preso por ter um "computador ilegal". Foi quando um parente do rapper telefonou para o astro cubano Silvio Rodríguez, que pediu a um amigo no Ministério da Cultura que devolvessem o computador. "Fiz o que me pediram", disse o cantor. "Não sabia que esse programa existia. Fiquei surpreso."

A Creative Associates pagou ainda US$ 15 mil para financiar um festival organizado pela família do compositor Pablo Milanés, simpatizante do governo. O objetivo era convencer os organizadores do festival a enviar ao público "mensagens de alto impacto". Suylen Milanés, filha de Pablo, conta que funcionários do governo apareceram um dia antes da abertura e alertaram para o que estava acontecendo. Bozic acabou preso e o grupo Los Aldeanos fugiu para a Flórida, após acusar o governo cubano de perseguição. / AP

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