EUA usam pacote de US$ 3 bi para convencer Israel a congelar colônias

Retomada. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu tentará convencer a coalizão que sustenta o seu governo a aceitar a proposta americana, que inclui armas de combate e a promessa de bloquear qualquer resolução contra os israelenses nas Nações Unidas

Gustavo Chacra CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2010 | 00h00

Um pacote de segurança que inclui a entrega de 20 caças no valor de US$ 3 bilhões e outras garantias de segurança dos EUA a Israel fizeram com que o premiê israelense Binyamin "Bibi" Netanyahu aceitasse congelar as construções judaicas na Cisjordânia por 90 dias. Apesar de a expectativa ser positiva, os EUA ainda não obtiveram uma resposta oficial. Ela depende da concordância da coalização que sustenta o governo israelense.

"Eu acho esperançosa" a vontade de Netanyahu de congelar os assentamentos, disse o presidente americano ao desembarcar em Washington depois de viagem para a Ásia. "Ele demonstrou que leva a sério a oferta", acrescentou Obama. Em Jerusalém, o premiê disse que a "proposta precisa ir de encontro às necessidades de segurança de Israel tanto no curto prazo como ao longo desta década".

Mesmo durante o impasse, que ainda não se encerrou oficialmente, autoridades dos EUA e de Israel evitaram entrar em choque, optando por declarações conciliatórias. Durante o primeiro ano do mandato de Obama, as relações entre os dois países estremeceram. Desde a metade deste ano, o líder da Casa Branca e Netanyahu têm buscado passar imagem de aproximação.

Argumentando que equipes dos governos americano e israelense ainda trabalhavam nos detalhes do acordo, o primeiro-ministro buscava adiar a apresentação da proposta para voto em seu gabinete. Desta forma, ele tentaria convencer os membros de sua coalizão da necessidade de aceitar a oferta. O projeto incluiria garantias de segurança para Israel, os 20 jatos F-35 e a promessa de que os americanos bloqueariam qualquer iniciativa palestina de levar a criação de um Estado unilateralmente para o Conselho de Segurança da ONU.

A proposta dos EUA irritou os palestinos, que reclamam não terem sido consultados por Washington. Além disso, a Autoridade Palestina exige que o congelamento inclua a parte oriental de Jerusalém. Segundo vazamentos para a imprensa, a proposta americana incluiria apenas a Cisjordânia. "Um compromisso oficial dos palestinos virá apenas depois de o presidente Mahmoud Abbas ouvir oficialmente da administração americana o que vem sendo negociado com os israelenses", disse o porta-voz palestino, Nabil Abu Rudainah.

O impasse envolvendo a construção nos assentamentos emperrou as negociações de paz iniciadas em setembro. Menos de um mês depois de Netanyahu iniciar o diálogo com o presidente palestino, Mahmoud Abbas, em Washington, as negociações encontraram dificuldades.

Os israelenses se recusaram a prorrogar a moratória na construção de novas unidades residenciais nas colônias localizadas na Cisjordânia que são reivindicadas pelos palestinos como parte do território para um futuro Estado. A Autoridade Palestina, sem a prorrogação do congelamento, que já durava 10 meses, abandonou a negociação.

Desde o fim de setembro, os EUA intensificaram os esforços para convencer Netanyahu a suspender por pelo menos mais alguns meses as obras na Cisjordânia. O objetivo é, neste período, focar as negociações no estabelecimento das fronteiras entre Israel e o futuro Estado palestino. Segundo o acordo mais provável, os israelenses manteriam os principais blocos de assentamento, próximos da divisa pré-1967, em troca de outras áreas desabitadas que seriam entregues aos palestinos.

O problema é que o primeiro-ministro de Israel enfrenta enorme oposição ao congelamento dentro de sua coalizão, que é composta por partidos direitistas ligados aos colonos. Alguns analistas afirmam que seu governo poderia cair se ele cedesse aos americanos. De acordo com o diário Yediot Ahronot, de Israel, os colonos intensificaram ontem as obras, temendo uma nova moratória.

Viagem. Ao encerrar a sua viagem à Ásia, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou ao líder russo, Dmitry Medvedev, que a ratificação do Start (tratado de redução do arsenal nuclear dos dois países) será a prioridade de seu governo no Congresso.

Em declaração a jornalistas no Japão, Obama disse que seu objetivo será aprovar o novo Start até o fim do ano, antes do fim do mandato de parte dos deputados e senadores. Atualmente, o presidente possui maioria nas duas casas do Congresso. A partir de janeiro, os republicanos passarão a dominar a Câmara dos Deputados e a maioria democrata no Senado será reduzida.

Mesmo com a atual composição do Congresso, Obama enfrentará dificuldades para aprovar o Start. Os democratas possuem 59 senadores, mas são necessários 67 votos (dois terços) para ratificar o tratado. Normalmente, o tema não provocaria oposição dos republicanos. Porém as divisões entre democratas e republicanos se acentuaram durante a administração Obama e existe a possibilidade de o partido opositor se posicionar contra para atrapalhar a agenda do presidente.

O novo acordo prevê a redução no arsenal nuclear dos dois países em cerca de 30%, além da criação de um regime de monitoramento dos programas nos dois países.

INTERRESES AMERICANOS

Ofertas

Nova suspensão nas construções não incluiria Jerusalém Oriental, anexada em 1967

EUA se comprometem a não exigir outra moratória de Israel ao final dos 90 dias solicitados

Entrega a Israel de aviões F-35 avaliados em US$ 3 bilhões, além dos 20 que o país já negocia por US$ 2,75 bilhões

Apoio americano à política de Israel de manter ambiguidade sobre sua capacidade nuclear. Israel nunca confirmou ter um arsenal nuclear e não assinou o Tratado de Não Proliferação

EUA vetarão toda resolução contra Israel, tanto no Conselho de Segurança da ONU quanto em outras organizações internacionais

EUA tentarão reforçar as sanções internacionais ao Irã, inimigo declarado de Israel

Assinatura de um acordo de segurança mútua entre Israel e EUA com validade de dez anos, incluindo comércio de armas e munição, além de acesso em tempo real de informações captadas por satélites americanos sobre riscos de ataques com mísseis

Exigências

Congelamento de 90 dias na construção de assentamentos na Cisjordânia

Retomada das negociações entre Israel e palestinos com prioridade no traçado das fronteiras do futuro Estado palestino, e não sobre temas de refugiados

PONTOS-CHAVE

Congelamento

Ao tomar posse, em março do ano passado, o premiê Binyamin Netanyahu anunciou um congelamento temporário das construções israelenses na Cisjordânia

Início do diálogo

Em setembro (foto), sob os auspícios dos EUA, israelenses e palestinos retomam o diálogo direto. O congelamento dos assentamentos na Cisjordânia seriam condição fundamental

Novas construções

Em outubro, com o fim da moratória, Israel retomou as construções na Cisjordânia num ritmo quatro vezes mais rápido do que a média registrada nos dois últimos anos

Encontro com Hillary

Há um mês, a secretária de Estado americano, Hillary Clinton, intensificou os contatos com a Liga Árabe e Israel. Seu último passo foi encontrar o premiê Binyamin Netanyahu (foto)

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