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Miguel Medina/AFP
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EUA vão doar 60 milhões de doses da Oxford/AstraZeneca nos próximos meses

Medida supera a ação do governo Biden no mês passado para compartilhar cerca de 4 milhões de doses da vacina com o México e o Canadá; destino das novas doses ainda não foi definido

Beatriz Bulla, correspondente em Washington, e Mateus Vargas, de Brasília, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2021 | 16h16
Atualizado 27 de abril de 2021 | 15h12

WASHINGTON - O governo Biden decidiu compartilhar com outros países os 60 milhões de doses da vacina contra covid-19 de Oxford/AstraZeneca que estão em produção nos Estados Unidos. A Casa Branca não divulgou ainda quais países irão se beneficiar do envio, que deve ocorrer nos próximos meses. O Brasil é um dos que, desde março, tenta receber o excedente de doses de vacinas dos americanos. 

Com três vacinas contra covid-19 atualmente disponíveis (das farmacêuticas Moderna, Pfizer e Johnson & Johson), o governo americano considera que não precisará das doses de Oxford/AstraZeneca. "Nós não precisaremos usar a vacina da Astrazeneca em nossa luta contra covid-19 nos próximos meses", afirmou a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki. O país comprou mais vacinas do que o necessário para imunizar toda a população e já aplicou ao menos uma dose de imunizante em 54% dos adultos.

A Casa Branca tem sido pressionada nos últimos dois meses a compartilhar doses de vacina com nações pobres e em desenvolvimento. Nesta segunda-feira, o governo americano falou que há 10 milhões de doses já produzidas e outros 50 milhões que podem ser entregues entre maio e junho. Antes de começar a distribuição, no entanto, o produto precisa ser aprovado pela FDA, a agência que regulamenta alimentos e medicamentos nos EUA.  "Isso não é imediato", disse Psaki. Segundo ela, a análise pelo órgão acontecerá "nas próximas semanas".  "Para ser clara: neste momento há zero doses disposíveis", afirmou.

As doses da vacina contra covid-19 da AstraZeneca foram produzidas em uma fábrica em Baltimore, no Estado de Maryland, operada pela empresa Emergent BioSolutions. Uma suspeita de contaminação fez a empresa descartar milhões de doses da vacina entre outubro e janeiro. Vacinas da Johnson & Johnson produzidas no mesmo local também foram inutilizadas. O imunizante da AstraZeneca deixou de ser produzido no local.

A Casa Branca não deu detalhes sobre os países com os quais está em negociação. "No futuro próximo nosso time irá dar mais detalhes sobre quem irá receber doses daqui, mas estamos no processo de planejamento neste momento", afirmou a porta-voz. "Nosso time de Segurança Nacional, nosso time de covid-19, trabalhando com o Departamento de Estado e outros (órgãos) irão acessar uma variedade de solicitações e de necessidades ao redor do mundo", disse a porta-voz.

Fontes no Itamaraty afirmam que, sem o aval do FDA, os EUA ainda não conseguem dar os passos concretos para discutir a distribuição. O Brasil iniciou tratativas com os EUA sobre eventual importação de doses da vacina contra covid-19 em 13 março, por meio do Itamaraty e da Embaixada do Brasil em Washington, em parceria com o Ministério da Saúde. A movimentação do Brasil aconteceu depois de requisição semelhante feita por outros países e também após pressão da comunidade internacional pelo compartilhamento de doses. 

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, já se reuniu com o infectologista Anthony Fauci, responsável pela estratégia de combate à covid-19 no governo Biden, e com o embaixador americano em Brasília, Todd Chapman. Segundo apurou o Estadão, os EUA apontaram, nas primeiras reuniões com o ministro, limites legais para exportar vacinas. 

'Relação direta'

Nos últimos meses, os americanos deram sinais de que o compartilhamento de vacinas seria feito por meio do consórcio Covax Facility, com o qual os EUA colaboraram com US$ 4 bilhões, para garantir uma distribuição equânime. Nesta segunda-feira, no entanto, a porta-voz da Casa Branca indicou que o país deve dar preferência à "relação direta" com os demais países.

"Estamos trabalhando para definir como será o processo. Vamos considerar uma variedade de opções dos nossos países parceiros e claro, muito disso será através de relações diretas", disse Psaki. O governo Biden vinha sendo criticado até por aliados por segurar doses que não estão em uso, enquanto adversários como a China ganham influência com a distribuição de vacina e equipamentos médicos produzidos no país.

Segundo apurou o Estadão, a estratégia do governo brasileiro não é apenas tratar o tema como uma pauta humanitária, mas sinalizar à gestão Biden que o Brasil tem recursos financeiros para a compra destas doses. Queiroga já afirmou que poderia realizar uma “permuta” de doses com o governo dos EUA. A ideia é antecipar lotes de uma vacina que só chegariam no segundo semestre.

Mais tarde, o mesmo volume seria entregue pela farmacêutica ao governo Biden em vez de ao Brasil. "Estamos muito empenhados em conseguir uma antecipação, uma troca. Os americanos não vão liberar vacinas antes de que tenham vacinado toda a sua população, mas eles aceitam fazer uma permuta", disse o ministro, em 29 de março, ao Senado.

O governo dos EUA não confirmou tampouco se as novas doses serão emprestadas ou doadas. Há cerca de um mês, Biden acordou o empréstimo de 4 milhões de doses da vacina da AstraZeneca aos vizinhos México e Canadá. Na época, o governo mexicano anunciou na mesma semana um controle mais rigoroso na fronteira sul do país, em uma articulação para ajudar a tentativa do governo Biden de conter o fluxo de imigrantes que chega ao país pelo México.

No domingo, os EUA se comprometeram a ajudar a Índia, onde uma nova onda de contaminações têm gerado colapso hospitalar. Biden conversou com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, nesta segunda-feira e concordou em fornecer sistemas de geração de oxigênio, além de equipamentos hospitalares como respiradores mecânicos e insumos para produção de vacina.

Governo indiano censura tuítes 

A Índia vem reprimindo as mídias sociais que criticam o governo na pandemia. Pelo menos 52 tuítes de figuras de destaque – incluindo opositores, jornalistas e cineastas – foram censurados, de acordo com o Lumen Database, iniciativa da Universidade Harvard que rastreia pedidos de remoção. 

Embora o bloqueio de algumas postagens se justifique, muitas mensagens simplesmente documentam a escala do surto ou expressam frustração com o governo. Uma das mensagens, de um líder de partido da oposição, disse que o povo na Índia “nunca perdoará” o primeiro-ministro, Narenda Modi, “por subestimar o coronavírus e deixar tantas pessoas morrerem”. 

Outra, de um fotógrafo da agência Reuters, continha imagens de pessoas em luto, hospitais lotados e um local de cremação movimentado. Outras postagens censuradas denunciaram a escassez de testes de coronavírus, mostraram pacientes sendo tratados em tendas improvisadas ou pediram a renúncia de Modi.

O Twitter afirma que as postagens, que permanecem visíveis nos EUA e em outras partes do mundo, estão sendo bloqueadas na Índia de acordo com as leis locais. O Ministério de Tecnologia da Informação disse à CNN que pediu a remoção de postagens que estavam criando “pânico”, “usando imagens não relacionadas, antigas e fora do contexto”.

 

A Índia citou sua Lei de Tecnologia da Informação de 2000 para solicitar que os tuítes sejam removidos. Embora não esteja claro qual seção da lei foi citada, o governo normalmente usa uma cláusula que permite a censura para proteger a ordem pública, a “soberania e integridade da Índia”.

A crise da covid-19 na Índia segue preocupando o restante do mundo. O secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, se comprometeu a ajudar o país, ex-colônia britânica. Em entrevista à Sky News, ele afirmou que vai enviar ao compressores e ventiladores de oxigênio à nação asiática.

"A pressão sobre os hospitais na Índia está ficando insuportável e vamos fazer nossa parte para garantir que nossos amigos na Índia recebam todo o apoio que puderem", declarou. "Se necessário, colocaremos aviões militares juntos ou fretaremos outros aviões. Faremos tudo o que pudermos para aliviar o sofrimento deles."

Para o chefe da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, a situação na Índia é "além de partir o coração". De acordo com ele, a OMS está enviando ajuda extra e suprimentos para ajudar a combater o novo surto catastrófico do país./Com AFP e Washington Post 

 

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