AP
AP

EUA vão fracassar no Afeganistão sem mais tropas, diz general

Comandante da missão no país diz que militares podem ser derrotados no próximo ano sem envio de soldados

21 de setembro de 2009 | 03h15

O general Stanley McChrystal, principal comandante das tropas dos EUA e da Otan no Afeganistão, afirmou num relatório confidencial que, sem um reforço do contingente militar, a guerra contra os rebeldes terminará em fracasso, segundo o site do jornal Washington Post. "Embora consideráveis esforços e sacrifício tenham resultado em algum progresso, muitos indicadores sugerem que o esforço global está se deteriorando", escreveu McChrystal em seu relatório, enviado em agosto ao secretário de Defesa, Robert Gates, e agora sob revisão pelo presidente Barack Obama.

 

Veja também:

linkConfira a cobertura completa das eleições no Afeganistão

especial Especial: 30 anos de violência e caos no Afeganistão 

 

A avaliação dele salienta a necessidade de buscar uma "nova estratégia" que inclua um maior envolvimento das forças estrangeiras com a população afegã. "Falhar em ganhar iniciativa e reverter o momento insurgente em um futuro próximo (os próximos 12 meses)... pode levar a um resultado no qual derrotar a insurgência não será mais possível". "Recursos inadequados provavelmente resultarão em fracasso. Entretanto, sem uma nova estratégia, a missão não deveria receber recursos," disse o general em seu relatório.

 

McChrystal disse no relatório que "a situação geral (da guerra) está se deteriorando," e por isso seria necessário uma guinada "revolucionária" na estratégia. "Nosso objetivo deve ser a população. O objetivo é o desejo do povo. Nossa cultura convencional da guerra é parte do problema, os afegãos precisam em última análise derrotar a insurgência."

 

McChrystal pede ainda mais dezenas de milhares de soldados extras e o aceleramento do treinamento das tropas afegãs, o que, de acordo com ele, poderia ser usado para "dar segurança ao povo afegão e a criar um espaço para que a boa governança crie suas raízes". 

McChrystal ainda dá detalhes específicos sobre a insurgência Taleban, afirmando que se trata de um "inimigo forte e sofisticado", que recorre ao uso de propaganda moderna e conta com a capacidade de entrar nas prisões afegãs e recrutar membros para suas operações. O general disse que os militantes controlam atualmente partes inteiras do país, embora seja difícil avaliar exatamente quanto, devido à limitada presença das tropas da Otan.

 

O general ainda faz críticas ao governo afegão, que estaria "infestado de corrupção" e teria perdido a confiança da população. "A fraqueza das instituições estatais, as ações malignas dos mediadores do poder, a corrupção generalizada e o abuso de poder por várias autoridades e os próprios erros da Isaf (força da Otan) têm dado aos afegãos poucas razões para apoiar seu governo," escreveu o comandante.

 

Neste relatório, ele critica as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que estão sob seu comando, por se concentrarem mais em combater os insurgentes do que em proteger civis afegãos. "Preocupados com a proteção de nossos próprios soldados, temos operado de uma maneira que nos distancia - física e psicologicamente - das pessoas que havíamos decidido proteger", afirma.

 

O Pentágono e a Casa Branca esperam uma requisição separada de tropas e recursos adicionais, com mais detalhes. Na sexta e no sábado, a imprensa divulgou que McChrystal havia concluído o documento e que lhe foi solicitado que o engavetasse, em parte por causa da discussão política em torno da decisão. Um porta-voz do general disse que o relatório ainda não foi concluído.

 

Obama negou ter pedido que McChrystal engavetasse o pedido, mas não deu um prazo para a decisão sobre o envio de tropas. Numa série de entrevistas concedidas a emissoras de TV neste domingo, o presidente afirmou que não permitirá que a política influencie sua decisão. Ele deixou claro que está reavaliando se o reforço militar trará algum benefício. "A primeira questão é: estamos fazendo a coisa certa?", disse Obama. "Estamos perseguindo a estratégia correta?", indagou.

 

Segundo a BBC, mais de 30 mil soldados americanos foram enviados ao país desde maio, quase dobrando o contingente que havia até então. Até o fim do ano, o número de tropas americanas no Afeganistão deve chegar a 68 mil. O ano de 2009 já é o que registrou maior número de soldados estrangeiros mortos no Afeganistão desde a queda do Taleban, em 2001. Até agosto, 295 soldados estrangeiros foram mortos neste ano no Afeganistão.

 

Texto atualizado às 7h50.

Tudo o que sabemos sobre:
AfeganistãoEUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.