EUA vão retirar Coréia do Norte do 'Eixo do mal', diz Bush

Pyongyang apresenta detalhes de programa nuclear e Bush promete remover país da lista de Estados terroristas

Agências internacionais,

26 de junho de 2008 | 08h44

Os Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira, 26, que levantarão algumas sanções comerciais impostas à Coréia do Norte e retirarão o país do Eixo do Mal, a lista de Estados que patrocinam o terrorismo. Após o anúncio de que Pyongyang entregou à China o relatório detalhado de seu programa nuclear, em cumprimento às condições impostas pelos EUA, o presidente americano, George W. Bush, afirmou que ainda está preocupado com o enriquecimento de urânio feito pelo país.   Veja também: Obama e McCain vêem declaração norte-coreana com cautela Coréia do Norte entrega detalhes de programa nuclear à China Sanções econômicas dos EUA à Coréia do Norte continuarão Cronologia do programa nuclear norte-coreano    A Coréia do Norte entregou à China uma declaração contendo detalhes do programa nuclear do país, nesta quinta-feira, em Pequim, afirmou a Coréia do Sul. O documento foi entregue por representantes da Coréia do Norte às autoridades chinesas, confirmou o ministério das Relações Exteriores da Coréia do Sul à agência de notícias sul-coreana Yonhap. O relatório contém detalhes das usinas atômicas norte-coreanas, porém não revela quantas armas nucleares o Estado comunista possui nem o que será feito delas.   O presidente americano confirmou que o país destruirá a torre de resfriamento do reator atômico diante da imprensa nesta sexta-feira. Em 2002, o presidente americano, George W. Bush, mencionou a Coréia do Norte, junto com o Irã e o Iraque, como membros de um "eixo do mal" que, supostamente, patrocinava o terrorismo e buscava a aquisição de armamento nucleares.   Bush afirmou que Pyongyang deu "um passo na direção certa", embora o presidente tenha deixado claro que os EUA ainda suspeitam do regime comunista do país. "Os Estados Unidos não têm ilusões sobre o regime", disse. Especificamente, Bush afirmou que Washington levantará as sanções determinadas pela Lei de Comércio com o Inimigo, e notificará o Congresso de que em 45 dias, a Coréia do Norte deve ser retirada da lista de países que apóiam o terrorismo.   "Ainda estamos preocupados com o abuso dos direitos humanos na Coréia do Norte, as atividades de enriquecimento de urânio, os testes nucleares, programas de mísseis balísticos e a ameaça imposta à Coréia do Sul e aos vizinhos", afirmou o presidente americano.   Detalhamento do programa   Originalmente o documento deveria ter sido divulgado há seis meses, mas o governo norte-coreano vinha resistindo à sua entrega. O relatório contém detalhes das usinas atômicas norte-coreanas, porém não revela quantas armas nucleares o Estado comunista possui nem o que será feito delas. A declaração faz parte dos esforços de desarmamento nuclear da Coréia do Norte, que está negociando com um grupo de seis países, que inclui Rússia, China, Japão, Coréias do Sul e do Norte e Estados Unidos.   No passado, o presidente George W. Bush incluiu a nação asiática no que chamou de "Eixo do Mal", ao lado do Irã e outras forças antagônicas aos Estados Unidos. A remoção da lista é condição necessária para que o Estado comunista possa receber auxílio de organizações como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.   A divulgação dos detalhes do programa nuclear da Coréia do Norte é um marco nas relações da isolada nação com o resto do mundo, mas não representa o fim do processo de desarmamento. Entre os pontos de delicados pendentes na negociação estão a falta de informações precisas sobre o uso da tecnologia nuclear para a construção de armas e a possibilidade dessa tecnologia ter sido repassada para outros países como Paquistão e Irã.   As sanções americanas, sob a chamada Lei de Comércio com o Inimigo, promulgada em 1917, foram aplicadas pela primeira vez à Coréia do Norte em 1950. Esta legislação é imposta também a Cuba.  Essas sanções proíbem que as empresas dos Estados Unidos façam negócios com a Coréia do Norte. O fato de estar na lista elaborada pelo Departamento de Estado sobre os países que considera que patrocinam o terrorismo impediu que o governo norte-coreano recebesse empréstimos do Banco Mundial e de outra instituições internacionais.   A partir de agora, as negociações de desarmamento entram em uma nova, e mais difícil, etapa. Estados Unidos, China, Coréia do Norte, Coréia do Sul, Japão e Rússia precisam concordar a respeito do que será feito com as possíveis armas e material nuclear bélico que Pyongyang tem em estoque. A troca dessas armas por energia não é o único item sendo negociado. O Japão espera que os norte-coreanos revelem o que foi feito das dezenas de cidadãos japoneses que foram seqüestrados pelo Estado comunista desde os anos 60.   Elogio de Moscou   "Aplaudimos este fato (a entrega do relatório), é um passo na direção correta que responde aos acordos alcançados dentro das negociações multilaterais", disse à agência "Interfax" o vice-ministro de Assuntos Exteriores da Rússia, Alexei Borodavkin. Ele acrescentou que este passo contribui para a desnuclearização da península de Coréia e adiantou que os emissários dos participantes das negociações multilaterais - EUA, China, Rússia, Japão e as duas Coréias - poderiam se reunir já na próxima semana.   Segundo Borodavkin, a Rússia estudará com atenção o relatório apresentado pela Coréia do Norte sobre seu programa nuclear, em cumprimento às condições impostas pelos EUA e por outros países para modificar sua política em relação a Pyongyang.   Resposta do Japão   O ministro de Relações Exteriores do Japão, Masahiko Komura, comemorou o envio do documento, mas disse que para seu país a prioridade é resolver os seqüestros de cidadãos japoneses. "A entrega da declaração da Coréia do Norte é algo bom, mas o problema são os conteúdos. Temos que verificá-los de forma conscienciosa", declarou Komura para a imprensa local durante a cúpula do G8 (os sete países mais desenvolvidos do mundo e a Rússia) em Kioto (centro do Japão).   O chefe da diplomacia japonesa também se mostrou decidido a solucionar os seqüestros de cidadãos japoneses por Pyongyang antes de que os Estados Unidos retirem a Coréia do Norte da lista de países que apóiam o terrorismo. Komura ainda desprezou que a decisão dos EUA de interromper suas sanções contra a Coréia do Norte e retirá-lo da lista negra fosse influir nas negociações sobre os seqüestrados japoneses nas décadas de 70 e 80.   'Passo adequado'   A União Européia (UE) considerou a entrega do documento um "passo na boa direção" disse Cristina Gallach, porta-voz do alto representante para Política Externa e Segurança Comum do bloco europeu, Javier Solana. O chefe da diplomacia européia fez uma "primeira avaliação positiva e prudente" da esperada notícia, disse Cristina Gallach.   Rice   A secretária de Estado americana Condoleezza Rice anunciou nesta que a declaração das atividades nucleares da Coréia do Norte não é suficiente para os Estados Unidos começarem a normalizar suas relações com o país. Mas ela destacou que a entrega do relatório é "um bom primeiro passo" para fazer com que a Coréia do Norte abandone suas armas nucleares.   "Antes que possamos contemplar algo a mais para a normalização política ou assistência econômica, certamente esperamos ver mais dos norte-coreanos", disse à imprensa em Kyoto, Japão.   Condoleezza também disse que os EUA acreditam ter meios para verificar a declaração de Pyongyang sobre seu programa nuclear.   "Por enquanto, para verificar o número de plutônio que os norte-coreanos dizem ter, recebemos os documentos, mas também esperamos ter acesso ao reator e aos resíduos", disse, referindo-se a Yongbyon. Após a verificação, a Coréia do Norte deve receber a ajuda econômica restante.       (Com BBC Brasil, Efe, Associated Press e Reuters)   (Matéria atualizada às 21h35  

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